O sol da manhã entrou preguiçosamente pelos vitrais da mansão, iluminando o quarto de Bella. Ela despertou com a lembrança do beijo da noite anterior queimando suavemente em sua memória, o coração ainda acelerado. Colocou-se sentada na cama, enfiando os pés nas pantufas e tentando organizar os pensamentos, mas era impossível. Charles… aquilo havia sido intenso demais, inesperado demais. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios, e ela percebeu que estava ansiosa pelo próximo encontro.
Na cozinha, o aroma do café fresco misturava-se ao cheiro do pão recém-assado. Ruan, ainda com o cabelo bagunçado e a camisa amarrotada, estava debruçado sobre a mesa, mastigando uma torrada e olhando para Bella com aquela expressão confusa que ele sempre tinha quando ela estava estranha.
— Bom dia, Bela. — Ele disse, tentando soar casual, mas claramente intrigado. — Você está… diferente hoje.
— Estou bem — respondeu Bella, sentando-se ao lado dele. — Só um pouco cansada, nada demais.
Ruan estreitou os olhos, desconfiado. — Cansaço? Às nove da manhã? Hum… sei… — Ele não disse mais nada, mas a sobrancelha levantada dizia tudo.
Isobel entrou, elegante como sempre, segurando a bandeja com café e ovos mexidos. Suzana logo a seguiu, com o sorriso caloroso, tentando quebrar a tensão da manhã.
— Meninas, hoje vamos conhecer melhor a cidade. — Disse Suzzie, servindo chá para Bella. — Quero que exploremos, conheçamos novos lugares… e quem sabe até alguns cavalheiros interessantes — acrescentou, piscando para Bella, que corou levemente, lembrando-se de Charles.
— Claro, tia — respondeu Bella, sorrindo, mas um pouco nervosa.
Enquanto as mães conversavam animadamente sobre os planos do dia, Ruan começou a cutucar Bella com o cotovelo, tentando arrancar algum segredo. Ela, aproveitando o momento, colocou um leve sorriso malicioso, cruzando os braços e fingindo ignorância, deixando Ruan ainda mais confuso.
— Ah, essa não vai me enganar tão facilmente. — Ele resmungou, dando de ombros. — Você tem algo a me dizer, e eu vou descobrir.
— Descobrir o quê? — Bella perguntou inocente, ainda jogando charme sem perceber. — Que você é um ótimo irmão adotivo, queridinho?
Ruan bufou, tentando não rir, enquanto Charles entrou na cozinha, com o rosto ainda sério, mas os olhos brilhando de maneira quase imperceptível ao notar a proximidade de Bella com Ruan. Ele se serviu rapidamente de café, mantendo-se discreto, mas sentindo aquele ponto de ciúme silencioso surgir, tão diferente de tudo que sentia antes.
— Bom dia. — Disse ele, quase um sussurro, mas com atenção suficiente para notar o brilho no olhar dela. — Dormiu bem?
— Sim, obrigada — respondeu Bella, sentindo o coração disparar novamente. — E você?
— Certamente, obrigado. — disse Charles, desviando o olhar para Ruan, que acabara de fazer uma careta engraçada ao ver Bella tentando equilibrar uma fatia de pão com manteiga sem derrubar nada.
O café da manhã prosseguiu com risadas contidas, olhares trocados e pequenas provocações. Bella continuava brincando com Ruan, provocando-o discretamente, enquanto Charles observava em silêncio, analisando cada gesto, cada risada, cada brilho nos olhos dela. Era estranho, mas ele não podia negar: sentia algo diferente, e não conseguia colocar em palavras.
— Acho que vou acompanhar vocês pela cidade. — Disse Charles, finalmente. — Mas não me responsabilizo se perderem algum tempo com compras ou visitas prolongadas.
— Bom, pelo menos não vamos ficar perdidos — retrucou Ruan, fazendo Bella rir com a resposta.
A manhã passou em passos apressados pelas ruas de Lisboa. Bella, Isobel e Suzzie exploravam lojas, pequenas praças e cafés, enquanto Ruan tentava chamar a atenção dela com gestos engraçados e comentários irônicos, que sempre arrancavam risadas. Charles permanecia à distância, observando e protegendo de maneira discreta, mantendo-se atento à segurança, mas também observando cada movimento dela.
— Veja, Bela, não posso permitir que se arrisque — disse ele em um momento, puxando-a levemente de lado quando quase tropeçou. — Ainda estou… responsável por você.
— Sei, sei — respondeu ela, sorrindo, sentindo uma ponta de ciúme ao notar o cuidado dele, e brincando com o olhar — Mas não precisa ficar tão rígido comigo, Charles. Estou só passeando.
O almoço foi em um pequeno café à beira do rio. Bella continuava animada, rindo com Ruan, enquanto Charles mantinha a postura rígida, observando de longe, mas não conseguia evitar os pequenos sorrisos que escapavam.
— Esse dia está incrível, Ruan. Veja como as nuvens parecem pequenos desenhos perfeitos no céu … — disse Bella, baixinho, enquanto brindava com suco.
— Que segredo você está guardando? E qual o motivo de tanta alegria? — Ruan perguntou, franzindo o cenho, claramente sem saber que Charles os observava, um aperto de ciúme percorrendo seu peito.
— Nenhum — disse ela, rindo, aproveitando para trocar um olhar discreto com Charles, sentindo-o enrijecer, mas sem dizer nada.
~
O jardim estava silencioso naquela noite, iluminado apenas pela lua cheia e pelas lanternas discretamente espalhadas ao redor dos caminhos de pedra. Bella caminhava devagar, o casaco leve sobre o vestido simples que escolhera para a noite. Depois de um dia inteiro passeando com a família, rindo de piadas de Ruan, ouvindo os conselhos exagerados de sua mãe e os comentários afiados de Leandro, tudo que ela queria era um instante de paz — ou talvez… um instante com ele.
E, como se o destino conspirasse, lá estava Charles, de pé junto ao caramanchão coberto de rosas brancas. Os braços cruzados, o semblante sério, mas os olhos atentos que se suavizaram no instante em que a viram.
— Bella… — disse ele, a voz grave, quase um suspiro. — Eu sabia que viria.
Ela sorriu, aquele sorriso leve que só ele parecia despertar. — Talvez eu soubesse também.
Por um momento, ficaram em silêncio, apenas ouvindo o som do vento mexendo as folhas. Charles parecia lutar contra si mesmo, a postura rígida, mas os olhos denunciando uma inquietação que Bella começava a reconhecer.
— Você está estranho, Charles. — disse ela, inclinando a cabeça. — Mais calado do que o normal… e mais atento também.
— Atento? — ele arqueou uma sobrancelha, tentando disfarçar. — Eu sempre estive atento.
— Não assim. — Bella deu um passo à frente, provocadora, mas doce. — Parece que está com medo de algo.
Ele respirou fundo, desviando os olhos por um instante, mas não respondeu. Bella, então, tomou coragem. Aproximou-se até sentir o calor dele, tão perto que a respiração dos dois se misturava.
— Charles… — disse baixinho, o coração disparado. — Se for medo de mim… não precisa. Eu … Eu sei exatamente o que estou fazendo, e acredite, eu quis muito nossos beijos. Eu esperei por cada um deles.
Ela emoldurou o rosto dele com as mãos e antes que charles pudesse dizer algo, ela o beijou.