O vizinho misterioso

947 Palavras
Angelina aos poucos foi se acostumando com a dor, com as surras, com os pedidos de desculpas...não enxergava como escapar de onde estava, tinha medo de tudo, principalmente do futuro. - Se for embora eu te mato, não vai levar as minhas coisas, eu construí tudo isso aqui. - Não quero nada, Henrique, só quero ir embora, por favor, não está dando certo. - Paguei muito caro para ter você, não vai desistir, não sou idiotα! Acha que eu não sei que tem um amante? Henrique sempre voltava na mesma história, o quanto havia perdido com a separação de Paloma, na casa que deixou para a mulher, no dinheiro que gastou com os móveis, no terreno da praia que havia sido obrigado a vender para dar a parte da mulher, diferente de Lina, a primeira esposa fez questão de cada centavo de que tinha direito, não por interesse, apenas por justiça, ela trabalhou por aqueles bens, assim como Henrique, não pretendia deixar que ele usufruísse de tudo sozinho. - Não tenho um amante eu só quero voltar a trabalhar, viver em paz. - Não deve ter mesmo, quem iria querer comer um putα feia como você? Virou um bagulho depois que a gente se casou, nunca vi embagulhar tanto. Paloma é bonita, tem o corpo de uma deusa, você foi o pior negócio da minha vida. Sem fugas, sem saídas, o máximo de coragem que teve foi chegar à porta de uma delegacia, mas jamais entrou. Até que um dia, isso mudou. Henrique tinha saído para trabalhar, como de costume reclamou do café, disse que estava fraco e fedido como ela, não comeu nada e saiu. Lina estava limpando a calçada quando viu um homem alto entrar na casa em frente, o imóvel sempre esteve vazio, e a movimentação chamou atenção, ela havia falado para o marido que tinha visto luzes na casa, mas foi chamada de louca, no começo teve medo de ser uma invasão, os vizinhos tinham contado que o imóvel pertencia a um figurão do petróleo, um italiano que foi visto pouquíssimas vezes. Algumas verdades na história, realmente Vitto era italiano, mas não trabalhava com petróleo. Sofreu um acidente de trabalho, ao menos era como gostava de pensar, precisava de um lugar para se recuperar e foi para uma de suas propriedades, tinha muitas, provavelmente uma forma de se recompensar pelo próprio passado. Nasceu em uma pequena vila na Calábria, uma das regiões mais pobres da Itália, se lembrava da casa com uma sensação estranha de melancolia, como se fosse mesmo possível sentir saudade da fome, ou talvez fosse saudade do calor, não o que vinha do sol, mas o do abraço, dormiam juntos, todos juntos no mesmo colchão. Como testemunhas vivas apenas a mãe que hoje vivia em um local afastado, aqui mesmo no Brasil e que Vitto mantinha em segredo de absolutamente todos, e as paredes descascadas e o telhado ainda com vazamentos, um monumento ao passado que o italiano fez questão de manter intacto. Aprendeu naquele lugar o significado de escassez, muitas vezes dormir com o estômago roncando e acordou com a voz potente do pai o chamando para o trabalho. - Vitto! Sveglia, ragazzo! È ora di andare! Andiamo, figliolo. Il sole non aspetta nessuno. Dobbiamo sfruttare la luce del giorno (Vitto! Acorda, rapaz! É hora de ir! Vamos, filho. O sol não espera por ninguém. Temos que aproveitar a luz do dia.) E aos poucos, cada vez mais, a escola que antes era um refúgio foi dando espaço para o trabalho braçal. Ora no campo com o pai, ora em pequenos b***s pela vila, mas crianças crescem e conforme Vitto cresceu a rua começou a fazer seu trabalho, fez alguns amigos, rapazes de uma gangue local vinculada à 'Ndrangheta. A máfia calabresa, estava sempre à procura de novos recrutas, jovens que não exigiam nada e ofereciam tudo, até mesmo as próprias vidas. - Ei, amico! Vieni con me, ti presento al capo. È un tipo tosto, devi conoscerlo! (Vem amigo, vou te apresentar ao chefe, é durão, precisa conhecê-lo) E como sempre, depois de algumas piadas, Vitto foi até o capo, uma apresentação rápida, mas onde o chefe ficou impressionado com a força da personalidade do rapaz. - Qual o seu nome? - E precisa saber, por quê? - Coragem demais pode te fazer conhecer o gosto da terra antes da hora. - E ser fraco já tem gosto de merdα, prefiro terra! E você? O capo deu risada pela ousadia e esperteza de Vitto e o colocou nos negócios a primeira vez foi aos 14 anos. Um amigo mais velho o convidou para ajudar a roubar mercadorias de um caminhão estacionado na periferia da vila. O medo e a adrenalina se misturaram no estômago, mas o roubo foi um sucesso, e Vitto sentiu pela primeira vez o gostinho do poder e da excitação que aquela vida podia oferecer. Gostou de cada coisa que fez, mas foi em uma madrugada que descobriu seu dom, a vocação com a qual nasceu e a mãe sempre dizia que todos possuíam. - Caro mio, ricorda sempre che ognuno di noi ha un dono speciale, un dono dato da Dio. (Lembre-se, meu querido, cada um de nós tem um dom dado por Deus) Vitto achava que o seu único dom era conseguir ficar mais tempo sem comer do que os outros, mas quando disparou contra dez homens e os viu cair sem precisar nem ao menos se aproximar, encontrou o que gostava de fazer. Sentia como se fosse um jogo, algo que não precisava viver de verdade, não era como roubar, não lhe embrulhava o estômago, simplesmente fazia e partia. Não parecia errado.
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