O primeiro olhar

937 Palavras
Lina ficou olhando o homem entrar com algumas sacolas que pareciam de farmácia, a pele pálida, mas também havia um charme perigoso, uma presença imponente que exalava confiança e poder. Vitto caminhava com passos firmes, a altura e a postura elegante faziam o homem se destacar, Lina pensou que realmente era um figurão do petróleo. O cabelo prеto, cuidadosamente penteado para trás, brilhava sob a luz do sol, e os olhos verdes, pareciam profundos e penetrantes comunicavam frieza e mandíbula forte e angular fez a pele da mulher arrepiar, mesmo que sem pensar sobre o motivo. O terno sob medida que realçava a figura atlética. Cada detalhe, desde o relógio de pulso de luxo até os sapatos italianos perfeitamente polidos, falava de uma vida de riqueza e influência que nem de perto mostravam a origem humilde de Vitto. Quando seus olhares se encontraram, Lina sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo nele, uma mistura de perigo e sedução, que a deixou hipnotizada. Era como se o tempo tivesse parado, ficou nervosa, não sabia o porquê estava sendo encarada daquela forma enquanto o homem se lembrava da mulher descalça que caminhou vacilante pelas ruas sangrando, na mesma noite em que ele se questionava a razão de ter falhado, pela primeira vez em uma missão. Deveria ter sido algo simples, a ordem era clara, mas daquela vez, além de atirar precisaria levar com ele uma israelense que havia sido feita refém. Não era afeito a salvamentos, preferia as execuções, mas Ming havia pagado muito mais para que Vitto levasse a mulher. Ainda se lembrava da conversa... - Yael Ayla, ela é sangue do meu sangue, foi tirada dos filhos no meio da noite, quero que o responsável pague. Ming era um cliente diferente, pagava somas estratosféricas e as encomendas sempre concediam um certo prazer, o chinês jamais encomendou a morte de um inocente, sempre eram vermes que mereciam o pior que o destino tinha a oferecer e Vitto apreciava usar o seu dom daquela forma. Era como se ver mensageiro do anjo que a mão tinha em uma espécie de altar improvisado, a imagem tinha um rosto sereno, mas olhos ardentes, de um azul intenso, ela dizia que carregavam o peso de mil julgamentos, capazes de penetrar as almas e discernir o bem do m*l. Traços fortes e simétricos compunham uma expressão que exalava autoridade e compaixão na mesma proporção. Na mão direita, o anjo segurava uma espada, a lâmina resplandecente parecia cortar o próprio ar com uma força divina. Na mão esquerda, sustentava uma balança dourada, símbolo de justiça e equilíbrio, onde os atos dos mortais seriam pesados e julgados. A mãe de Vitto era católica fervorosa e dizia que os anjos de Deus caminhavam entre os homens e ao mesmo tempo em que eram amor, também eram fogo consumidor. Prazeres que encontrou no crime, Vitto gostava da ideia de justiça, mesmo que a sua lei fosse aplicada pela pistola feita em prata polida e com mecanismos cuidadosamente feitos pelos melhores artesãos. Apesar disso, salvamentos sempre tinham tudo para dar errado, e com Ayla não foi diferente, a mulher começou a implorar como se ele fosse seu algoz, se distraiu por um momento. Os olhos... os olhos da israelense ainda o perturbavam, foi a primeira vez que viu alguém com tanta dor incrustrada em uma profundidade que pareceu o deixar hipnotizado. Foi seu erro, levou um tiro, e já não tinha como continuar em segurança, teria lutado se não tivesse visto Ayla correr para o sequestrador como se encontrasse o seu verdadeiro anjo salvador. A dúvida o fez vacilar e a dor o impeliu a partir, não foi simples se livrar sozinho do projétil, mas havia conseguido e estava fumando quando ouviu a confusão na casa da frente, em seguida a figura de uma mulher extremamente bonita, a chuva fazia as roupas se colarem ao corpo revelando curvas que Vitto desejou percorrer, novamente a dor o atraiu. Agora, Lina estava ali, segurava a vassoura com as marcas disfarçadas em uma maquiagem que não fazia bem o seu trabalho, ao menos não na visão do italiano. Olhares e pensamentos, duas pessoas paralisadas, cada um em seu mundo, universos completamente distantes, ainda assim o destino havia usado sua teia para que eles se encontrassem e a sua maneira cada um parecia atraído para o outro como imãs. O italiano se virou e entrou em casa, deixou a sacola sobre a mesa e respirou mais fundo, pensou em mil possibilidades e por fim saiu segurando um cartão que tinha apenas um número de telefone, nada além disso. - Vitto Angelina ficou olhando para cima, os raios de sol pareciam cegá-la, mas aqueles olhos verdes a chamavam como Ícaro foi atraído para a morte, como se a fuga pudesse ter um nome, repetiu silenciosamente... Vitto, parecia engraçado, diferente, como se faltasse o R que lhe concederia o status de nome. O italiano percebeu o esforço de Lina para o olhar e deu um passo para o lado tampando o sol. - Melhor agora, bela? - Lina, quer dizer, Angelina, mas pode me chamar de Lina. Quem é bela? O italiano sorriu, talvez só um esboço, mas apreciou o desconcerto da brasileira. - Tu, tu és bella. Sei molto bella Se lembrou de que estava misturando os idiomas e corrigiu em seguida. - Desculpa, quis dizer que você é muito bonita. - Obrigada Ele entregou o cartão e a fala seguinte a fez se envergonhar, Vitto passou as costas da mão sobre o hematoma que ela havia usado camadas e mais camadas e base, em vão. - Pode me chamar, qualquer hora.
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