Henrique Carter
Os dias foram se passando, e, para minha surpresa, realmente existia a possibilidade de que o processo do Augusto tivesse ligação com o meu genitor. Com a ameaça que minha mãe recebeu, fiquei ainda mais apreensivo com a ideia de sair daqui e nos afastarmos para garantir a segurança dela. Se isso for necessário para que ela fique feliz, que assim seja.
Tivemos sorte de que os amigos do sócio do Augusto tinham muitos conhecidos que facilitaram nossa ida para Nova York. O que mais me surpreendeu foi a dona Carolina…
Parecia que ela sabia de algo a mais. Tento ao máximo me manter neutro, sem me envolver nos assuntos, para que ela não puxe uma conversa na qual eu precise mentir. Pelo que a filha dela falou, lembro bem de sua doce voz:
“Minha mãe é mafiosa.”
Por vezes, me peguei rindo ao lembrar dela dizendo isso. A cada dia que passo nessa nova cidade, com minha mãe ainda ao meu lado, me preocupo com a possibilidade de ele querer fazer algum m*l a ela. Talvez busque vingança pelo que aconteceu no passado, e não quero que minha mãe sofra novamente nas mãos daquele homem. Ela está tão feliz com o Augusto…
Hoje é o último dia dela aqui em Nova York. Amanhã, ela retornará para Curitiba para seguir a vida ao lado do homem que a ama e que, sei, vai mimá-la como a rainha que ela é. Confio cegamente no Augusto. Ele jamais faria m*l a ela.
Enquanto arrumava tudo por aqui, minha mãe Bia veio se despedir e trouxe as meninas também, o que me deixou ainda mais triste. Mas, não vou negar…
Estou até aliviado por minha mãe estar indo embora. Assim, sei que ela não correrá perigo ficando sozinha em casa com o Augusto. Depois da minha conversa com a dona Carolina, que foi bastante esclarecedora, tenho certeza de que é só uma questão de tempo até aquele homem aparecer na minha frente para exigir alguma coisa.
Ver minha mãe saindo pela porta me causou um certo desespero, que me atingiu em cheio. Mas tento me concentrar nas coisas que preciso fazer no momento. Volto para dentro de casa e começo a preparar algo para lanchar, já que o que minha mãe deixou nós comemos durante o almoço. Agora, quero apenas tomar um café enquanto reviso um pouco da matéria para as próximas aulas.
Me sento no pequeno espaço que montamos para os meus estudos e, de repente, ouço a campainha tocar. Marco a página onde parei e vou andando com minha caneca até a porta. A surpresa foi tão grande que a caneca escorregou das minhas mãos e se espatifou no chão quando reconheci os visitantes inesperados. Respiro fundo e olho para a pessoa em quem mais confiei nos últimos tempos.
— Por quê? — Ele se afasta da porta, de cabeça baixa. Sobre o corpo, usava um sobretudo preto, muito bem-vestido, enquanto eu estava apenas com um conjunto de moletom, confortável para ficar em casa.
— Olá, meu filho. — Aquele homem desprezível estava na frente da minha porta. E acompanhado do meu melhor amigo. — Está na hora de termos uma conversa. Principalmente agora que não tem mais ninguém vigiando você feito um falcão.
Eles entram na minha casa sem serem convidados. Atrás dele vinha outro homem, e meu melhor amigo seguia logo atrás, de olhar baixo, parecendo um pouco magoado. Os dois retiram os casacos, sinal de que não têm hora para sair e me deixar em paz.
— O que o senhor deseja… senhor Carter? — Pergunto, sem demonstrar nenhum sentimento por aquele monstro.
Ele entrega o casaco ao homem que vinha atrás dele e se senta na poltrona da minha sala. Sua postura demonstrava mais poder do que eu imaginava.
— Está na hora de iniciar o seu treinamento. Suas irmãs jamais irão assumir o meu lugar. Ou eu não me chamo James Carter. — Ele fala com arrogância. Se ele pensa que vai me transformar em um cachorrinho obediente, está muito enganado.
— E se eu não quiser? Até então, não faço questão nenhuma de viver essa vida que você tanto adora. — Se ele é arrogante, eu também sei ser petulante.
Ele abre um sorriso amargo e olha para o homem que o acompanhava, que até então parecia apenas um figurante.
— Vou gostar de ver você, dobrando a petulância desse aí, Charles. — Agora que sei o nome do homem, ele me encara de um jeito diferente.
— Acho que deveríamos ter iniciado o treinamento desse rapaz quando ele ainda era uma criança. Acho que vamos ter um certo trabalho com ele. — Charles volta a me encarar, e percebo o quanto ele me analisa com cuidado.
— O que foi, meu amigo? Está dando para trás? Não acredito que você não dará conta de um moleque de dezesseis anos. — James sorri, provocador.
— Petter, está na hora de mostrar no que venho te treinando. Derrube o Henrique. — Meus olhos correm de um para o outro.
Eles trocam olhares, e vejo o Petter vindo na minha direção.
— O que vai fazer? Pensei que fôssemos amigos!
Quando menos espero, ele quase me acerta com um soco. Mas consigo me esquivar, exatamente do jeito que ele mesmo me ensinou. Um sorriso surge no rosto dele.
— Isso foi apenas sorte, Henrique. Não vou pegar leve. — Ele lança um olhar rápido para meu pai.
E, aproveitando minha distração, me acerta em cheio, me derrubando no chão sem nenhum esforço.
Olho para ele com raiva, mas ele estende a mão e me ajuda a levantar. Observo tudo o que está acontecendo naquela sala. Meu pai, um maldito chefe da máfia, tinha infiltrado Petter na escola onde eu estudava, só para que tivesse total controle sobre mim. Ele já sabia quem era meu pai, e mesmo assim esteve o tempo todo ao lado dele. Nunca imaginei que o Petter fosse parte desse plano.
Uma raiva incontrolável cresce dentro de mim. Avanço sobre o meu amigo e começo a acertá-lo com vários golpes. Deixo a minha fúria extravasar.
— Você me traiu! Compartilhei meus segredos. Meus medos. Minhas angústias com você… Pra quê? — Dou mais alguns socos, até que ouvimos um assovio.
Ao sinal, Petter volta a me derrubar no chão. Olha para o James, que apenas concorda com a cabeça. Ele me encara nos olhos.
— Me desculpe, Henrique. Mas agora é hora de você crescer, para ser o meu futuro chefe. — Ele me acerta um soco. Depois outro, e na terceira vez, fico tão zonzo que quase desmaio.
Quando ele sai de cima de mim, consigo limpar o sangue do meu rosto, que já escorria pela boca e pelo nariz. Olho para aquele homem desprezível que se aproxima e se agacha na minha frente.
— Hoje vamos iniciar o seu treinamento. E recomendo que coopere, caso não queira que haja consequências lá em Curitiba. — Engulo seco. Como ele ainda tem coragem de ameaçar a minha mãe?
Já não basta me ter aqui, à mercê dele?
— Como consegue ser um homem tão c***l assim? — Pergunto com a voz falha. Ele me dá mais um soco e ri na minha cara.
— Pode ter certeza de que vou fazer com que você se torne da mesma forma e será com a ajuda do Charles, meu filho. Recomendo que escolha uma boa desculpa para esconder os hematomas da sua mãe. — Ele se ergue, e seu capacho o ajuda a vestir novamente o sobretudo. — Antes que eu me esqueça. Petter vai voltar a ser a sua sombra. Então, acostume-se com ele te vigiando. Agora, arrume-se. Vamos para a mansão… Seu treinamento começou.
Ele apenas se vira de costas, e seu segurança o segue de perto. Antes de sair, lança um olhar para o Petter, que apenas meneia a cabeça. Petter olha para mim e estende a mão para me ajudar a levantar do chão, mas recuso sua ajuda.
— Como pôde fazer isso, Petter? Você era meu amigo, devia ter me preparado. — Ele apenas abaixa a cabeça e se afasta, enfiando as mãos nos bolsos.
— Mas eu te preparei, Henrique. Eu te ensinei a bater. E, principalmente, a se defender. — Consigo me levantar sozinho e continuo olhando para ele, sem acreditar nas palavras que acabara de ouvir.
— Eu não podia te contar nada. Sou leal ao meu pai, que por sua vez é leal ao seu. Agora vamos ter que aprender a trabalhar a nossa amizade de outro jeito. — Ele suspira, ajeita a postura e, com um tom firme, completa: — Agora, proponho que você arrume suas roupas. Temos que ir.
Ele não me dá chance de responder. Segue direto para o meu quarto, pega algumas mudas de roupa e coloca em uma mala. Depois, me joga um sobretudo, esperando alguma reação. Mas deixo que o casaco pesado caia no chão, ignorando o gesto.
— Coopera, ou seu pai vai dar a ordem para matar a sua mãe. — Respiro fundo e, com o coração apertado, decido fazer o que ele está dizendo.
Visto as roupas que ele jogou para mim, enquanto ele arrasta a mala pelo apartamento.
Saímos do meu pequeno apartamento e, ao abrir a porta, me deparo com a quantidade de carros que me aguardavam do lado de fora. Olho para o Petter, que aponta o carro em que devo entrar. Ele abre a porta e a segura, esperando que eu me acomode.
Respiro fundo e ergo a cabeça antes de entrar, decidido a encarar tudo o que está reservado para mim a partir de hoje.