Me tranquei no quarto nos dias que se seguiram depois da desastrosa viagem. Eu queria passar um tempo com minha cabeça e meus devaneios sobre tudo relacionado a farsa que minha família era.
Durante toda minha infância eu tinha ouvido eles dizerem que ninguém da nossa família seria julgado daquela forma, pois éramos unidos e feliz o bastante para nos apoiarmos e se isso não acontecesse estaríamos cometendo um grande pecado e após me ensinar tudo isso, eles ofenderam a própria filha de diversas formas. Eu estava chateada demais e totalmente decepcionada.
Mas também me recordei que quando minha amiga nos contou sobre seu casamento com nosso antigo professor, meus pais acharam engraçado e me obrigaram à não me aproximar mais daquelas pessoas. Então eu tinha certeza que se fosse eu, eles teriam nos afastado e me mandado para um colégio interno.
Era assustador voltar no tempo para imaginar o lado negativo da minha família. Não havia nada de bom nos meus pensamentos, apenas o r**m. Eles poderiam sim, fazer um escândalo ou se surpreenderem de modo horripilante com nossa notícia pois era de fato algo incomum, mas nos tratar da forma que nos trataram acabou com todo o respeito que eu tinha por eles. Ainda que achasse impossível algo assim ocorrer, havia ocorrido.
Dylan, tentou por várias vezes me animar e me tirar da cama, mas a decepção e o desânimo era grande demais para me deixar sair dali. Recusei as comidas algumas vezes e quando tentava digerir algo era como se carvão em brasa corresse pelos meus canos do corpo até explodirem em meu estômago.
Eu sabia que meu professor também estava chateado mesmo que ele não me demonstrasse aquilo com clareza. Acreditei que ele havia adquirido uma força muito grande para suportar tudo aquilo e isso me fez questionar se já havia passado por algo parecido no passado ao ir falar com os pais de alguma outra namorada.
Por várias horas enquanto chorava em meu aconchego no quarto fechado, eu me implorei para ser forte como ele e passar por cima de tudo com a cabeça erguida, mas erguer uma cabeça pesada como à minha tinha ficado era difícil demais.
Fiquei oito dias sem frequentar as aulas. Dylan deu uma desculpa qualquer e eu me senti grata por tê-lo naquele momento. Ele tinha aprendido a hora exata de me abraçar quando eu queria, sem que eu precisasse e sabia também o momento que eu queria ficar só. Era como se ele lesse minha mente.
Pensei muito enquanto estava naquele quarto, pois se eu tivesse escolhido meus pais, eu jamais teria outra pessoa como o professor perto de mim, pois de todos que eu conheci, ele era o único que estava ali cuidando de mim e não me deixou de lado. Isso confortou meu coração de certa forma, pois fazia eu me sentir bem.
Depois de oito dias eu enjoei de chorar, me irritei de ficar deitada sofrendo por algo que já havia passado. Eu simplesmente me ergui da cama, como o próprio Dylan disse que eu faria assim que a dor fosse amenizada. Tinha um lado bom em tudo aquilo, eu estava correndo para minha felicidade e nada, nem meus pais iriam me deixar presa em tantos pensamentos ruins assim.
— Dylan? — Disse saindo do quarto e me dirigindo até a sala.
— Oi, minha querida, você melhorou? — Ele sorriu contagiante. Estava assistindo um de seus seriados favoritos na televisão enquanto esperava dar o horário de sair para o trabalho. Suas costumeiras roupas xadrez o deixavam ainda mais jovem e era engraçado vê-lo tão quieta.
— Um pouco. — Sussurrei me sentando ao seu lado. Encostei minha cabeça em seu colo para sentir seus dedos alisarem minhas madeixas. — Obrigada.
— Pelo que? Fiz o meu dever de proteger e cuidar de você.
— Você fala como se fosse meu guarda-costas. — Dylan riu.
— Seu guarda-costas te beijaria? — Olhei seus olhos verdes vibrantes me prenderem em seu desejo. Recebi um beijo calmo e demorado sentindo aquilo acalmar meu coração e amenizar a dor que meus pais tinham deixado ali.
— Eu gostaria de ser beijada por meu guarda-costas se ele fosse você. — Brinquei, desta vez recebendo um beijo ardente que me fez estremecer.
Ainda nos beijávamos quando o telefone tocou e eu confesso que fiquei com muita raiva por ter sido interrompida daquela forma. Dylan levantou-se, indo ao encontro do objeto e o atendeu.
— Sim? — Ele disse fazendo uma pausa para a pessoa na linha falar. Depois de alguns segundos ele se virou para mim apontando o telefone cor de ouro e seus olhos estavam tensos. — É para você.
Poucas pessoas sabiam o número fixo da casa do professor e eu não conhecia ninguém que não me ligasse no celular, deixávamos aquele telefone para um caso de extrema urgência e o fato de não carregar meu telefone a uma semana poderia ter deixado alguém desesperado. Respirei fundo pronta para me explicar a alguns amigos de décadas sobre meu paradeiro.
— Alô? — Falei ao pegar o objeto e colocá-lo no ouvido.
— Camila? — Não, não era um amigo. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar, um arrepio percorreu minhas entranhas e tive que respirar uma ou duas vezes antes de responder.
— Pai. — Sussurrei.
— Serei curto, grosso e claro. Você tem dois dias para parar com essa brincadeira e voltar para casa. Quer que sua irmã sofra para sempre? — As palavras fizeram meu sangue ferver e minha mente latejar.
— Não estou brincando. E Sofi sabe se cuidar muito bem, não quero influenciá-la a algo que nossos pais são contra e não venham com ordens para cima de nós.
— Olha aqui menina. Ou você desfaz essa amizade estranha com esse homem ou eu tirarei seu nome do meu testamento! — Ele parecia ainda mais nervoso do que no dia da briga e pior de tudo era que eu conseguia ouvir o choro ao fundo e pude deduzir quem era.
— Faça o que quiser com seu dinheiro, sei me virar sozinha.
— A casa onde mora está no meu nome! Posso muito bem te pôr para fora!
— Boas notícias, papai. — Enfatizei a última palavra para agir como a mimada que acreditou que eu fosse. — Ninguém reside mais naquela casa, faça o que quiser com ela, com as coisas nela e com tudo o que pertença a você!
— Pelo amor de Deus, Camila! Ponha um pouco de sanidade nessa cabeça. Onde está a garota responsável que eu criei? Está sendo dominada por essa doença?
Ali ele havia passado de todos os limites ao chamar Dylan de doença. Meu pai conseguia ser ainda mais monstruoso a ponto de me automedicar insana e doente para conseguir o que queria só por não gostar do rapaz.
Deixei a raiva falar por si só.
— Doentes são vocês com essa mente cheia de pecados e ódio, Deus jamais iria perdoá-los por tantos erros cometidos. Preferem perder um filho do que amá-lo e vê-lo feliz.
— E você acha que Deus irá perdoar alguém que larga a família por uma loucura insana?! — Ele bradou me deixando mais nervosa.
— Deus sabe o que é melhor para mim, sabe que eu não preciso de gente mentirosa e vaga em minha vida. Se para ter felicidade e paz eu tiver que deixar para trás as pessoas que se dizem ser minha família, que assim seja! Só para deixar mais claro, caso não tenha entendido! Eu amo esse homem e vou continuar fazendo o que bem entendo da minha vida adulta.
Bati o telefone no gancho com toda minha raiva e tenho certeza que Roberto segurava o telefone nos ouvidos com seus olhos abobados fixos para o nada.
Meu olhar correu rapidamente em direção ao meu professor que tinha seus olhos presos no meu rosto como se estivesse hipnotizado.
— Você está bem? — Perguntei e ele apenas assentiu. Fiquei preocupada e me aproximei. — O que foi?
— Não queria que isso fosse tão longe. — Ele parou por dois minutos para pensar e recomeçou. — Me sinto um monstro que está comendo sua carne enquanto alguém tenta te salvar.
Meus olhos se suavizaram, pois era exatamente por isso que eu queria estar junto ao professor Hill. Pela sua humanidade.
Dias antes eu tinha dito que o amava e continuei dizendo aquilo sempre que parecia preciso. Afinal era o que eu sentia por ele de verdade. Eu estava embriagada, embriagada e viciada em amá-lo. E quanto mais ele queria amenizar meus problemas, mais eu percebia que meu coração era de Dylan.
Abracei-o forte beijando sua bochecha com carinho para mostrar meu carinho e ele me deu um sorriso cansado.
— Eu amo você. — Sussurrei sentindo seu abraço.
Algo aconteceu naquele momento, algo que eu não tinha visto acontecer com ele. Dylan fungou e desmoronou em meus ombros apertando-me cada vez mais.
Meu professor estava emocionado.