Regra número 7

1579 Palavras
Caminhei por um tempo até que visse o mar. À terra sob meus pés estava acabando e minha cabeça ainda estava cheia de frustrações. Sentei-me nas pedras da praia, onde à água batia docemente em meus dedos tentando amenizar minha visão magoada. Sentia a água roçar em meus pés descalços enquanto o cheiro de sal e areia molhada batiam em minhas narinas assim como a água acariciava o monte de areia próximo das pedras. Deixei as lágrimas rolarem enquanto olhava o pôr do sol na praia e me embalava nas terríveis lembranças que Nathally havia me devolvido. Eu não estava triste por Dylan, mas sim pelas garotas por quem ele magoou, pois todas haviam passado pela mesma situação que eu e isso cortou meu coração. Também havia raiva em mim, pois quase fui enganada pelo mesmo truque barato, porque fui inocente demais a ponto de quase me deixar levar outra vez e isso me fazia desejar que as ondas batessem em minha mente lavando embora os ocorridos das últimas 48 horas. Aproveitei que à praia estava vazia para me expressar como os professores sempre pediam que fizéssemos. Deixei o misto de raiva e dor me consumir, mesmo que para aquilo eu precisasse me recordar dos mínimos detalhes do passado. Isso me fez bem no início da música, pois consegui alcançar uma nota excelente, mas me lembrar de tanta coisa me machucou outra vez e isso me levou a tossir. Respirei fundo, eu não conseguia continuar a cantar dali. A música travou em minha garganta com as lâminas de facas querendo cortar as paredes da minha boca para jogar minha pele no mar. Deixei que mais lágrimas se mesclassem aos soluços que passaram a me dominar e abracei meus joelhos afundando a cabeça entre minhas pernas. — d***a. — Resmunguei. — Sabe, querida. Às vezes deixar o amor te guiar não é a melhor coisa. — disse voz doce em menção ao refrão da música que eu cantava me fazendo olhar para a dona daquela voz. O sol incomodou meus olhos por alguns segundos até que minha visão endireitasse deixando ver a figura. Era morena, meio alta, diria que poucos centímetros a mais do que eu. Usava uma saída de praia branca com detalhes prateados e era até possível ver o biquíni azul-esverdeado por baixo do tecido. Os seus chinelos floridos estavam em sua mão direita e ela tinha um sorriso singelo para mim. — O que? — sussurrei para a garota de modo automático, mesmo que já soubesse o que ela queria dizer. — O trecho da música. Love Will tell us where to go, acho que deixar o amor nos guiar pode não ser uma boa ideia. — Explicou ela me dando certeza do que falava. — Deixei ele me guiar uma vez e quase me perdi. Então parei de acreditar nessas músicas, agora eu apenas gosto cantá-las. — Ela ficou em silêncio por um tempo enquanto pensava em minhas palavras, depois se sentou ao meu lado de frente para o pôr do sol. — Então essas lágrimas não são por amor? — dei de ombros e neguei. — Talvez uma paixonite? — Acho que são de raiva. Já foi enganada por alguém antes de se apaixonar por essa pessoa? — Ela bufou em uma risada curta. — Todos já fomos enganados por alguém, mesmo que por nosso amigo mais íntimo. Eu considero isso como uma de nossas provas de vida. Todo mundo passa por alguma coisa horrenda para provar ao destino a força que temos. Sabe, o engraçado é que em todas as situações, em todos os momentos, com todas as pessoas e de todas as formas, quando somos afetados por isso acabamos sentados em um lugar lindo, olhando o pôr do sol e pensando naquela música que mais se encaixa com nossa história. — Sorri, pois ela estava certa. Em todos os filmes a cena triste eram as mesmas, um lugar bonito e o sol indo se deitar. Diversas vezes da vida real também acontecia algo assim. Depois de tanto ver e assistir essas histórias, lá estava eu vivendo a parte r**m do meu filme que nem havia começado ainda. A moça soltou um pigarro e me olhou profundamente trazendo-me de volta a realidade. — Mas eu gosto do que vem depois, a parte onde a pessoa segue sua vida e se apaixona novamente tendo um grande final feliz ou quando se reconciliam com aquela que causou sua dor e também tem um final feliz. É, essa é a melhor parte da história. Ela me deu um sorriso maior e seus cabelos secos voaram com o vento. — Ah! É nessa hora no filme que começa a tocar uma música nada a ver com a história, mas que é ouvida o tempo todo nas rádios, apenas para dar ao público um pouco de emoção. — Caí em risos ouvindo aquilo. — Olha só! Uma risada de verdade. — Obrigada — falei secando as lágrimas. — Acho que eu precisava disso, mesmo que tenha vindo de alguém que eu nem conheço. — Não seja por isso. — A garota se levantou equilibrando-se no pequeno monte de areia onde estávamos, estendeu a mão em minha direção sorrindo abertamente. — Sou a Olga. Me ergui e apertei os dedos finos da mesma. — Camila Chaves, mas pode me chamar de Camz. — Por favor Camz chore mais vezes nessa praia, eu gosto de dar conselhos. Sorri uma vez mais com suas palavras. Por um instante minha raiva havia passado e eu só conseguia pensar nas palavras dela. Fiquei um pouco mais ali conversando com minha nova amiga até notar que o sol havia partido e a lua já dominava o seu lugar. Era hora de ir, pois eu já deveria ter feito isso bem antes. Então me despedi da garota e voltei para casa em passos calmos. Foram 40 minutos de caminhada, uma caminhada gostosa de volta devido ao tempo ameno. O bafo quente soprava minhas madeixas e o pano do meu vestido rosa com um pequeno laço marcando minha cintura. Meus tênis All Stars estavam amarrados um no outro pelos cadarços envolta do meu pescoço enquanto a areia grudada nos meus pés se prendiam ao asfalto quente. Cheguei em minha rua vendo a figura alguns centímetros maior que eu encostada no meu mini portão.Respirei fundo e voltei a caminhar sentindo meu coração palpitava freneticamente a cada passo. Eu conseguia senti-lo subir pela minha garganta e tentava engoli-lo de volta ao seu lugar para que não mostrasse à angústia que eu estava sentindo. Eu tinha esquecido o que era respirar e não sabia dizer o motivo do meu desespero. — Camila. — Ele disse com sua voz rouca quando me aproximei. Não me importei com o seu chamado e apenas puxei a chave do bolso do meu vestido para colocar na fechadura. — Camila. Não respondi novamente e acho que isso o irritou. Dylan segurou meu pulso girando meu corpo para que eu ficasse de frente para ele. Suas mãos pressionaram meus quadris e me prenderam no ferro do portão que chegava até os meus cotovelos. — Estou falando com você. — Soltei um gemido quando senti o corpo do moreno contra o meu. — O que aconteceu? Porque está assim comigo? — Me solta. — Me debati um pouco, mas ele lutou contra mim, segurando nos meus ombros com firmeza. — Não! Você é uma aluna minha que não foi à aula e eu à vi fugindo do campus! Acho bom ter uma bela explicação para que eu não lhe dê uma bela advertência. — Tentei me debater mais ainda, mas Dylan era mais forte do que eu. Isso me fez pensar em colocar na minha agenda para "fazer levantamento de peso". O moreno abriu o portão com toda sua força, me empurrando para dentro do pequeno quintal. Ele o trancou e puxou meu pulso subindo as escadas enquanto batia seu pé. Eu não quis causar um escândalo no meio da rua e por isso me mantive calada mesmo que relutante. Dylan abriu a porta carregando-me para a casa enquanto eu tentava me livrar de seus dedos. Ele não trancou a porta, apenas a encostou e me puxou até a mesma pilastro onde devorou meus lábios na noite anterior. — O que aconteceu? — Não vou falar nada e você vai sair da minha casa agora. Eu não sou obrigada e que c*****o me solta! — Ele segurou meus pulsos no alto de minha cabeça contra a parede. Apertando seu corpo no meu. — Não ouse falar palavrão comigo, senhorita Chaves, e acho bom baixar seu tom comigo ou vai ter sérias consequências. — Ah, vai se fuder. Vai encher o saco de alguma aluna burra e me deixa quieta. Não tenho paciência pra aturar ataque de namoradinho s****o. — Cuspi as palavras para ele enquanto o via ficava nervoso e confuso ao mesmo tempo. Sua pele era tomada pela cor avermelhada. — O que? Do que está falando? Namoradinho s****o? Que crise de ciúmes é essa agora, garota? — Ele encostou seu nariz em meu pescoço quase me fazendo perder o controle. — Crise nenhuma! Só me deixa em paz e vai enganar outra otária! Dylan me soltou se afastando. Seus olhos foram tomados pela tristeza e os meus chamuscavam de raiva. Eu estava totalmente desolada e deixei as lágrimas correrem pelos meus olhos junto aos soluços que me inundaram. Aoelhei-me no assoalho deixando os sentimentos fluírem.
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