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Capítulo 1 — As Correntes do Silêncio
O Deus da Guerra não temia nada.
Nem exércitos, nem monstros, nem a fúria dos próprios deuses. Ainda assim, ao atravessar os corredores de pedra n***a da fortaleza esquecida, algo nele se mantinha alerta — não por perigo, mas por um desconforto que não sabia nomear.
As portas do calabouço se abriram com um rangido pesado.
Ela estava ali.
Pequena demais para carregar o peso de tudo o que haviam feito com ela. Correntes envolviam seus pulsos e tornozelos, e as asas — outrora símbolo de grandeza titânica — estavam quebradas, inúteis, repousando contra o chão frio como lembranças de um passado que não voltaria. Mesmo assim, havia algo indomável em sua presença.
Ela ergueu o rosto.
Os olhos, fundos e cansados, não demonstraram medo. Apenas reconhecimento. Como se ela já o tivesse visto antes… em sonhos ruins, ou em histórias sussurradas pelo sofrimento.
— Então é você — murmurou, a voz baixa, mas firme. — O Deus da Guerra.
Ele não respondeu de imediato. Observava cada detalhe: a postura orgulhosa apesar da prisão, as marcas do tempo que não conseguiram apagar quem ela era, e aquele silêncio carregado — interrompido apenas pelas vozes que ela parecia ouvir sozinha, inclinando a cabeça levemente, como se lutasse para afastá-las.
— Não vim para machucá-la — disse por fim.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Todos dizem isso no começo.
Ele sentiu algo estranho apertar o peito. Não era culpa. Não era raiva. Era… incômodo. Principalmente quando soube que fora seu próprio irmão quem a mantivera ali por séculos, transformando uma titã em prisioneira, uma deusa em ruína.
— Por que ainda resiste? — perguntou ele, quase em um sussurro. — Depois de tudo.
Ela o encarou diretamente, os olhos brilhando não com esperança, mas com algo mais perigoso: dignidade.
— Porque resistir é a única coisa que ainda é minha.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros que ele já conhecera. Não era vazio. Era pesado. Vivo.
Quando ele se virou para sair, ouviu a voz dela novamente:
— Não volte aqui se for para sentir pena.
Ele parou.
Sem olhar para trás, respondeu:
— Não é pena.
E, pela primeira vez em eras, o Deus da Guerra saiu de uma batalha sabendo que havia sido atingido.