Capítulo 36. Uma semana depois

811 Palavras
Uma semana passa quase sem que percebam. A mansão Cestáro muda de ritmo ou talvez seja Gabriel quem muda, aos poucos, o modo como ela respira. Todas as manhãs, ele toma banho. No começo, demorava pouco, como se água demais fosse um desperdício perigoso. Agora, já suporta o vapor morno por mais tempo, ainda atento, mas menos rígido. A pele começa a perder o tom acinzentado, os hematomas antigos ficam mais claros. As roupas são limpas todos os dias. E, pela primeira vez, só dele. Gabriel ainda alisa o tecido antes de vestir, como quem confirma que aquilo não vai desaparecer. À mesa, ele come melhor. Ainda devagar, ainda escolhendo porções pequenas, mas sem medo. O pão não fica mais intocado. O leite já não é observado com desconfiança. Às vezes, ele até pede mais sopa. — Só um pouco. — diz, tímido. Marcos finge não notar o brilho nos olhos quando isso acontece. Ana nota tudo. Ela observa como o rosto de Gabriel começa a arredondar levemente, como as bochechas já não afundam tanto quando ele sorri. Os ossos ainda aparecem, mas não gritam mais. — Ele está engordando. — murmura ela, certa manhã, enquanto observa Gabriel no jardim. Marcos cruza os braços, avaliando. — Dois quilos, talvez três. — responde, quase profissional. — O corpo dele está respondendo rápido. Ana sorri, emocionada. — Ele até anda diferente. E é verdade. Gabriel já não caminha colado às paredes. Ainda observa tudo, ainda se assusta com vozes altas, mas seus passos são menos apressados. Ele para, para olhar coisas. Às vezes, para simplesmente existir. Naquele dia, ele atravessa o corredor com o cabelo ainda úmido do banho, roupas limpas demais para quem, uma semana antes, não sabia que isso podia ser rotina. — Ana… — chama, hesitante. — Diga. — Posso ir ver os cavalos depois do almoço? — Pode. — responde ela, sem pensar duas vezes. Ele sorri. Não grande. Mas inteiro. Marcos observa a cena em silêncio, sentindo algo raro: satisfação sem cobrança. — Ele está voltando a ser criança. — diz, baixo. Ana assente. — Ou talvez… — corrige — esteja sendo uma pela primeira vez. Do outro lado do jardim, Gabriel corre dois passos e para, surpreso consigo mesmo. Ele ri, um som curto, quase incrédulo. E naquela risada pequena, Marcos e Ana entendem que não estão apenas cuidando de um menino ferido. Estão assistindo, dia após dia, alguém reaprender a viver. Com o cair das noites, um novo hábito nasce na mansão Cestáro. No começo, é quase casual. — Gabriel. — Marcos chama, certa noite, do escritório. — Traga aquele livro de ontem. Gabriel aparece à porta com o volume apertado contra o peito, ainda inseguro. — Para ler? — pergunta. — Para ler. — confirma Marcos. Ele indica a poltrona em frente à sua mesa. A lareira está acesa, o ambiente silencioso, seguro. Gabriel se senta com cuidado, abre o livro e começa. A voz sai baixa no início, medida, como se ainda estivesse esperando correção. Mas as palavras fluem. A leitura é firme, clara. Marcos interrompe de vez em quando. — O que você entendeu disso? Gabriel pensa. Responde. Questiona. Na noite seguinte, Marcos chama de novo. Depois na outra. Sem avisos. Sem ordens formais. Apenas: — Gabriel, venha ler. E vira rotina. Às vezes é economia. Às vezes história. Às vezes algo completamente fora do esperado ,poesia, mapas, relatos de viagens. Gabriel começa a escolher os livros com mais confiança. — Posso ler esse hoje? — pergunta, apontando. — Pode. — responde Marcos, sempre. O menino passa a esperar por aquele momento. Ele janta, ajuda a recolher os pratos apenas porque quer, e depois olha discretamente para o relógio. Certa noite, Ana passa pelo corredor e para à porta do escritório. Ela observa em silêncio. Gabriel está sentado direito, o livro aberto, os olhos atentos. Marcos escuta com interesse real, corrigindo aqui e ali, incentivando, desafiando. — E se essa conta estivesse errada? — pergunta Marcos. Gabriel não se intimida. — Então todo o sistema cairia. — responde. — É por isso que números importam. Marcos sorri de lado. Ana sente os olhos marejarem. Mais tarde, quando Gabriel se despede para ir dormir, ele hesita à porta. — Senhor Marcos… — Diga. — Obrigado… por me escutar. Marcos responde sem pensar demais: — Obrigado por ler. Gabriel sai. Ana entra. — Você percebeu? — diz ela. — Que ele espera por isso? — Marcos responde. — Sim. Ana se aproxima da estante. — Você está dando a ele algo que nunca teve. Marcos fecha o livro devagar. — Não. — corrige. — Estamos construindo juntos. Do corredor, Gabriel escuta a lareira crepitar. Ele segura o livro que levará para o quarto naquela noite. Se deita-se sabendo que amanhã haverá comida, banho… E à noite, leitura. Uma rotina simples. Mas, para ele, é tudo
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