Ellie acordou cedo, apesar de ter dormido bem, ela não era pessoa de ficar na cama até tarde. Arranjou-se e saiu, achava que era a primeira a chegar ao pequeno-almoço, mas para sua surpresa, no caminho até ao chalé viu que Dina e Annie já estavam ao pé dos cavalos.
- Bom dia meninas. – Cumprimentou Ellie sorrindo, quando Annie a viu rapidamente lhe deu um abraço.
- A esta hora já é quase boa tarde. – disse Dina olhando Ellie de lado e com um tom de repreensão.
Ellie rodou o pulso olhando para o relógio – Aaah, são oito horas da manhã.
- Sim, a vida no campo começa cedo... oito horas da manhã já temos de ter metade dos animais alimentados. – Explicou Dina.
- Ellie, queres experimentar? – Perguntou Annie mostrando a sua pequena mãozinha cheia de sementes e palha. Ellie rapidamente percebeu que ambas estavam a dar de comer aos cavalos. Dina pegou na mão de Ellie virando-a para cima, causando um pequeno arrepio na coluna de Ellie. Encheu-lhe a mão com as sementes. Annie exemplificou. – Vês, é assim, simples, só faz um bocadinho de cocegas.
- Não sei se consigo... – Gaguejou Ellie mostrando uma pontinha de nervosismo.
- Ele, provavelmente, não te vai morder. – Dina riu, pegando de novo na mão, já cheia de sementes, de Ellie. – Vá, dá-me a tua mão.
- Boa, de novo o provavelmente – Ellie revirou os olhos e acabou por os fechar, mas prontamente os abriu ao sentir um leve formigueiro na mão. Dina tinha puxado a sua mão em direção à boca do cavalo e este já estava a comer.
- Vês, não custa nada.
Ellie estava a adorar dar de comer ao cavalo, m*l terminou foi logo buscar outra mão cheia de sementes ao balde. – Linda menina... - dizia Ellie enquanto com a outra mão lhe afagava o focinho.
Ao fundo ouviu-se uma voz a chamar – Annie... Hora de ir para a escola!
- Vou indo ... - Annie abraçou Dina – Adeus Ellie – e deu outro abraço a Ellie. – À noite não nos podemos esquecer de mostrar à Ellie os pirilampos. - Começou a correr em direção ao carro da mãe.
- Pirilampos? – Questionou Ellie.
- Sim, pirilampos... não sabes o que são?
- Sei, claro que sei, apenas nunca vi nenhum ao vivo.
- Ok... fizeste um bom trabalho a alimentar o meu cavalo, portanto à noite eu mostro-te os pirilampos. Agora vai até à cozinha, primeiro, alimentas-te tu, depois o resto dos animais. – Ordenou Dina e Ellie obedeceu, com esperanças que Dina a acompanhasse, mas rapidamente percebeu que ia comer sozinha pois enquanto se dirigia ao chalé, Dina ia para o celeiro.
Na cozinha estava um cheiro delicioso a café quente, torradas e doces. Normalmente, pela manhã, Ellie só bebia café, mas já que estava mais ou menos em clima de férias e relax deu-se ao luxo de comer um pão com manteiga e algumas bolachas de amêndoa que se notava que eram caseiras pela sua forma irregular e tosca, mas saborosas.
Quando terminou saiu do chalé e foi em direção ao celeiro, lá dentro estava Dina e Lev. Lev estava de volta de uns fardos de palha e Dina... bem, Dina estava linda com aquelas calças de ganga justas mas elásticas e uma blusa de alças em tons de cor-de-vinho que lhe caia perfeitamente bem pelas suas ancas.
- Então, o que tenho hoje marcado nas minhas tarefas, chefe? – Questionou Ellie.
Dina sorriu: - Com essa roupa – dando-lhe um olhar de alto a baixo. Ellie estava elegantemente vestida, com umas calças de tecido pretas, um top verde escuro e um blazer preto por cima. Estava claramente, elegante de mais para trabalhar na quinta. – Com essa roupa não vais conseguir fazer nada por aqui.
- O que é que tem a minha roupa? – Ellie estava confusa dando um jeito no seu blazer – Eu acho que está ótima.
- Primeiro, não te vais conseguir baixar com essas calças. Segundo, vais sujar de novo esses sapatos chiques e terceiro, nem os braços consegues levantar para alcançar um balde que esteja ali em cima na prateleira. – disse Dina apontado para umas prateleiras e estantes altas. - Vá, vou pegar no meu chapéu, vamos até à cidade que eu também tenho uns assuntos para tratar por lá.
- Ok, chefe! – assentiu Ellie seguindo Dina em direção ao seu jipe gigante.
Durante o caminho estava um silencio meio constrangedor dentro do jipe, de vez em quando as duas trocavam um olhar e sorriam, mas sem conversa até que Ellie decidiu quebrar aquele gelo que se sentia no ar.
- O rancho está na tua família há quanto tempo?
- Quatro gerações. – respondeu Dina com um olhar sonhador. – O meu pai devia-o ter vendido, mas era um homem teimoso e adorava esta terra, o rancho era a sua vida, sabes?! Quando morreu, os mais de mil hectares e o monte de dividas que os acompanhava passaram para mim. De acordo com o meu pai, a terra era importante, mas o código era primordial.
- O código?
- O código de um cowboy. – Respondeu Dina como se fosse algo obvio.
- Eu não sabia que isso existia. – Ellie estava espantada, nunca tinha ouvido falar em nada assim na vida.
- Há sim... existem quatro pilares, o primeiro é viver todos os dias com coragem.
- Coragem... gosto disso. – Ellie sorriu e fez um ar triunfante. – Qual é o segundo?
- Acho que um pilar é suficiente por agora. - Dina olhou para Ellie e lançou-lhe um sorriso enquanto Ellie recostava a sua cabeça para trás no assento do carro e olhava para o teto.
- Ok, já entendi. – Voltou a endireitar a cabeça e retirou um papel de dentro do seu bolso – Já que estamos a falar de coragem.
- Vais-me dar o teu número de telemóvel, é? – Dina riu ironicamente olhando para o papel, sabendo bem o que lá vinha.
- Não... Mas no interesse de viver cada dia com coragem, tens aí a nossa oferta. Acho que vais gostar do valor, é um ótimo número para começar de novo.
Dina estacionou o carro, tirou o cinto e colocou uma perna dobrada em cima do banco. Com a conversa, Ellie nem se tinha apercebido que já tinham chegado à cidade.
- Eu não quero começar de novo – Suspirou Dina – Eu quero recomeçar novamente, na minha terra. – Baixou o olhar deixando um clima de melancolia e tristeza no ar, mas com receio que Ellie percebe-se, rapidamente abriu a porta do jipe e saiu. Já em pé do lado de fora, espreitou para dentro – Vamos às compras, ou não, menina da cidade?
- Sim, sim chefe – Ellie saiu de carro e começaram a caminhar. Castroville era uma cidade pequena, mas muito bonita. Todas as estradas estavam arranjadas e limpas, os passeios também e em cada canto havia canteiros de flores coloridas. Apesar de haver carros, notava-se que por ali, o ar era puro, as pessoas simpáticas, sorriam sempre ou cumprimentavam-se baixando o chapéu. Ellie estava a apreciar cada momento, não só pela cidade, mas especialmente pela companhia.