2- Vilã

2100 Palavras
Olga Ele vai me mandar embora, eu sabia disso. Eu sabia dentro de mim que havia perdido o meu lugar ao lado do meu irmão, eu soube desde do dia que aquela garota entrou na minha casa, na nossa vida. Mas desta vez a culpa era minha, totalmente minha. Aquele cheiro de sangue penetrou profundamente a minha pele, já fazem uma hora que tenho arrancar ele de mim, mas não consigo. Minha pele arde quando a água do chuveiro atinge as áreas que esfreguei, mas não posso ter pena de mim mesma. Isso é o mínimo que mereço. Eu sou miserável. Meus olhos estão inchados de tanto chorar e eu odeio chorar, mas continuo chorando, porque é a única coisa que posso fazer. Eu prefiro chorar no chuveiro do que permitir que alguém me veja vulnerável. Ângelo não vai me ver assim mais do que as vezes que ele já viu. Eu sou uma Gutierrez, nosso sangue é forte e somos importantes e mesmo que eu seja uma mulher, eu não vou demonstrar fraqueza, porque nós Gutierrez somos fortes. Tento ignorar a imagem do cadáver sem vida que me assombra. Pisco através das lágrimas, esperando lavar a memória de seu rosto machucado e ensanguentado. Não funciona. Ela está em todos os lugares, na minha pele, estava em todo trajeto de carro, enquanto o Ângelo me trazia para cá. Enquanto os pneus de Angelo esmagaram o cascalho, tudo o que ouvia eram os estilhaços de vidro quebrado sob meus pés manchados de sangue. Todos os músculos do meu corpo doem, mesmo que eu tenha saído com pouco mais do que um corte na bochecha e alguns hematomas que eventualmente desaparecerão. O tempo tem uma maneira de lidar com as feridas, pelo menos as físicas. Mas não há cura para um espírito quebrado. A pior parte foi a reação do meu irmão, não consigo esquecer o olhar nos olhos dele quando ele me viu esta noite. Quando ele veio em meu socorro, como sempre fez. Tentei explicar que não foi intencional, que eu só queria consertar as coisas. Ia levar aquela mulher para ele, para que pudesse puni-la pelas coisas que ela havia feito. Mas não foi assim que aconteceu. Meu frágil plano explodiu em meu rosto, no final da noite, minhas mãos estavam manchadas com o sangue dela. Não havia orgulho no que eu fiz. Ângelo certamente não estava orgulhoso. Ele olhou para mim como se eu fosse um monstro e essa foi a pior parte. Mas foi isso que me tornei, não é? É por isso que ele me trouxe aqui, para o Complexo da Corleone em vez de me levar para casa. Eu não era mais aceita naquela casa. Ele não quer que eu suje os corredores da nossa casa com o sangue que eu derramei, ele não quer eu envergonhe a nossa família. Ele não me quer mais. Tento reunir meus cacos Enquanto saio do chuveiro. Eu sempre mostrei ser forte diante de todos, mas no fundo estava morrendo de medo. Eu ainda era uma menina assustada aqui dentro, por mais que quisesse me fazer de forte. Para todos eu era uma vilã, mas apenas meu irmão me conhecia de verdade. Mas até isso eu perdi hoje. Ângelo é a única família que me resta. Eu já perdi tudo; mãe, pai, irmão. Eu só tenho ele. Não, ele não me machucaria. Assim não. Não quando ele conhece a dor de perder todos que já amamos. Nossa dor nos une por toda a vida. Nosso sangue é o mesmo. Nossa lealdade é inabalável. É a única verdade a que tenho que me apegar. Eu posso ser difícil. Insuportável às vezes. Não vou negar isso. Mas ele me ama além de qualquer coisa. Ele me protege, tenho certeza de que sempre o fará. Posso aceitar sua decepção comigo. Posso encontrar uma maneira de suportar a vergonha dele, que não pode ser pior do que a minha. Mas vou mostrar a ele que ainda há algo em mim para amar. Algo que vale a pena resgatar. Eu só tenho que me recompor e descobrir como. Forço meu olhar para o reflexo no espelho. Eu não reconheço a pessoa olhando para mim. A mulher de longos cabelos negros e olhos escuros também pode ser uma estranha. Eu me sinto separada dela. Vazia. E é um maldito alívio. Isso significa que o enquanto eu puder ficar assim... insensível, eu posso sobreviver. Essa é a minha armadura. Roboticamente, escovo meu cabelo e visto o moletom barato que Ângelo me comprou no caminho até aqui. É bem diferente das minhas roupas habituais, mas eu não me importo. Estou exausta e preciso enfrentá-lo. Eu preciso mostrar a ele que está tudo bem. Eu vou encontrar uma maneira de consertar tudo. Quando saio do banheiro, meu irmão está parado na janela, com o olhar desfocado enquanto espia pelo vidro. Eu sei que ele sente minha presença, ele certamente me ouviu abrir a porta, mas ele leva alguns momentos para se virar e me encarar. Sua expressão é cautelosa, seus olhos igualmente angustiados e frustrados. Isso me deixa no limite, o aperto no meu peito prendendo minha respiração. — Ângelo — Minha voz estrangulada força seu nome a sair. — Porque estamos aqui? Ele engole as palavras que não quer dizer, isso me atinge como um soco no estômago. Mesmo assim, não posso aceitar. Tenho que acreditar que há um propósito para eu estar aqui além do que meus instintos gritando para mim. — Conte-me tudo — ele ordena no verdadeiro estilo Gutierrez. Eu me mexo, sentando na cama, minhas mãos torcendo juntas no meu colo. — Eu vou. Mas preciso que você prometa que não vai me odiar. Não importa o que. Eu preciso ouvir isso de você. — Não posso te prometer nada. — Ele me encara. Um soluço silencioso escapa dos meus lábios antes que eu possa pará-lo e as lágrimas pairam precariamente nas bordas dos meus olhos enquanto eu me viro e tento enxugá-las. Tanto por estar entorpecida. Eu jurei que não ia fazer isso, mas pela primeira vez na minha vida, eu realmente não consigo controlar. Eu odeio chorar. Eu desprezo. E mais do que tudo, odeio ter permitido que meu irmão visse tal demonstração de emoção. Se nosso pai estivesse aqui agora, ele teria me reprovado por mostrar tamanha covardia. — Agora, Olga. — Ângelo corta. — Se você não me contar agora, você decidirá por nós dois. Você nunca mais vai ouvir falar de mim. Horror toma conta de mim quando olho para ele, deixando escapar as palavras antes que eu possa pensar em quão patético isso me faz parecer. — Não, você não pode fazer isso! — Você não está em posição de discutir mais. — Ele se vira para a janela, alcançando a cortina enquanto olha para o pátio novamente. Estou apavorada com o que ele pode estar procurando, mas tenho ainda mais medo de que ele cumpra sua ameaça. Se meu irmão me repudiar, não terei mais nada. — Não era para acontecer dessa maneira — eu grito. — Eu nunca quis que nada disso acontecesse. Estava tão irritada com você, Ângelo. Ver o jeito que você olhava para aquela garota Gonzalez. Você estava se apaixonando por ela bem diante dos meus olhos. Eu podia ver e parecia como uma traição. Ele solta a cortina e se vira para olhar para mim, seu olhar de pena. Ele pode ver meu ciúme, mas eu não me importo. O que ele esperava? Ele traiu nossa família quando se casou com a inimiga. Ele cometeu o crime mais notório que podia ao se apaixonar por ela. E no final, em vez de seguir nossos planos como ele havia prometido, ele me colocou de lado. Nossa vingança foi esquecida, agora ele está fazendo sua própria família com o sangue que juramos extinguir desta terra. — Ela ia tirar você de mim — eu estalo. — Eu tinha que fazer alguma coisa. Só queria fazê-la odiar você. Então eu contratei aquela cortesã que costumava trabalhar para Corleone para atraí-lo no baile e seduzi-lo. A Liz deveria sair do banheiro e ver vocês juntos. Era isso. Ninguém deveria se machucar. Ele está quieto enquanto caminha pela sala, recusando-se a olhar para mim e em meu desespero por sua compreensão, corro para falar o resto. Continuo explicando como sabia que era uma ideia estúpida, mas achei que podia confiar nela. Eu nunca poderia ter previsto que ela estava na cama com o inimigo também. Esse erro quase custou a vida de Ângelo e eu estava tentando consertar. Por isso fui ao apartamento da cortesã esta noite. Eu só queria acertar, para que ele me perdoasse. — Como posso acreditar em qualquer coisa que você me diz? — Ele se vira e balança a cabeça. — Como posso acreditar que o que você está me dizendo agora é verdade? — Porque ela mesma me disse isso! — eu berro. — Quando você estava batendo nela? O silêncio é ensurdecedor enquanto tento me recuperar daquele golpe fatal, o lembrete de que não preciso. Ele não precisa me dizer o que aconteceu. Nunca esquecerei. — Não foi assim — eu sussurro com uma respiração trêmula. — Eu estava lutando pela minha vida. Não queria matá-la, mas não tive escolha. Era ela ou eu. Ângelo desaba na cadeira junto à porta, vejo que nada do que disse conseguiu amenizar sua raiva. Isso me consome, eu só queria que ele olhasse para mim por um segundo sem repulsa completa. Como eu considero que isso pode nunca acontecer, uma nova onda de lágrimas me inunda. — Você preferia que fosse eu? É isso? Você gostaria que fosse eu quem estivesse morta naquele andar? — O que eu preferia era que você nunca mentisse para mim! — ele ruge. — Você me traiu. Você planejou. Você quase me matou. Minha própria irmã. Você entende isso? Eu puxo uma respiração afiada e olho para ele suplicante. — Eu prefiro morrer do que te machucar, irmão. Por favor, acredite nisso, pelo menos. Seus olhos se movem sobre mim, sua dor palpável. Ele sente como se tivesse me perdido também. Mas em vez da morte, foi a escuridão que me roubou. Estou muito além da redenção, ele está cansado de tentar me salvar. Eu posso sentir isso em meus ossos. Isso sacode meus dentes, por um segundo, a agonia me faz desejar estar realmente morta. Talvez esse fosse o melhor resultado para todos esta noite. Se eu tivesse desistido da luta e a deixado vencer, pelo menos eu não teria que testemunhar essa angústia da única pessoa que sempre me amou. Eu não teria que senti-lo desistindo de mim. — Vá para a cama e tente dormir um pouco — diz ele baixinho. — O que vai acontecer agora? — Eu questiono. — Agora, você vai dormir um pouco — ele repete. — E quando você acordar, você vai começar de novo. Esperança respira novamente em mim enquanto vejo sua postura relaxar com um suspiro. Posso ver sua determinação, sua aceitação de que não temos escolha a não ser seguir em frente e deixar isso para trás. Por um momento, uma calma se instala em mim. Nada está bem e não estará por muito tempo, mas Ângelo não desiste de mim. O sangue é o vínculo inquebrável que não pode ser rompido. Já passamos por coisas demais. Chegamos longe demais para nos abandonarmos em um momento como este. Esse alívio me envolve em um casulo quente, não me atrevo a pronunciar outra palavra. Ângelo é o chefe de nossa casa, em nosso mundo, isso significa que sua palavra é lei. Não importa que eu tenha vinte e cinco anos. É o trabalho dele cuidar de mim, ele leva isso muito a sério. Enquanto subo na cama e me ajeito silenciosamente sob as cobertas, é uma pequena maneira de mostrar a ele que posso ouvir. Posso cumprir as regras da Corleone e fazer o que se espera de mim. Posso provar que sou digna novamente e encontrar uma maneira de seguir em frente, mesmo que esteja quebrada por dentro. Quando eu fecho meus olhos, aquele momento de calor se expandindo em meu peito é apagado pela escuridão enquanto a lembrança do que eu fiz me assombra novamente. Eu vejo o rosto dela. Eu sinto o sangue dela pingando das minhas mãos enquanto eu tropeço para trás com a horrível percepção de que eu matei alguém. Isso me atormenta. Ela me agarra e não me solta até que eventualmente, por algum milagre, a exaustão me leva embora.
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