3- Entregue

805 Palavras
Olga Eu acordo com um solavanco, minha respiração assobiando entre meus dentes enquanto fragmentos do pesadelo insidioso tentam me arrastar de volta para o inferno que se desenrolou apenas algumas horas atrás. Ou eram dias? Enquanto me ergo, o medo sobe pela minha espinha, me fazendo cócegas. Há quanto tempo estou dormindo? Foi tudo um sonho? Será que é possível? Meus olhos se ajustam à escuridão, eu encaro as figuras sentadas uma de frente para a outra nas sombras. O medo coagula o sangue em minhas veias. — Ângelo? — Minha voz falha quando me agarro às cobertas ao meu redor. — O que está acontecendo? Ele se levanta da cadeira, com as costas rígidas, quero acreditar que estou confusa. Eu não estou acordada, mas ainda presa em um pesadelo de alguma forma. — Você é perigosa. — diz ele suavemente. — E você provou que eu não posso confiar em você. Não na minha casa. Não na minha vida. E agora, há apenas uma solução que pode salvá-la. Estou balançando a cabeça em negação enquanto meus olhos se movem para a outra figura. Aquele sentado como um guarda silencioso enquanto me observa na penumbra. Instintivamente, eu sei quem ele é. Eu o conheço há anos. Ele é amigo de Ângelo, mais importante, ele está encarregado de cuidar de mim caso algo aconteça com meu irmão. Jerônimo — Juiz — Montgomery é um homem inflexível e afiado como uma navalha. Ele é tão insensível quanto parece e deixa isso claro na maneira dura como ele dá seus vereditos, tanto no tribunal quanto fora dele. Ninguém se atreve a questioná-lo. Ninguém se atreve a desafiá-lo. Poucos conseguem realmente olhá-lo nos olhos, tenho que admitir que me encontro no meio dessa multidão. Ele me aterroriza de maneiras que não posso admitir para mim mesma, mas a ideia de estar ao lado deixa meu coração acelerado e minha cabeça latejando. Ela tem uma péssima fama, até foi afastado de seu posto por um tempo. Não sei que tipo de problemas ele teve com o tribunal ou o que ele fez para voltar, mas sabia que ele tinha influência dentro da Corleone. — Não — Eu grito, puxando as cobertas de cima de mim. — Você não pode me mandar embora. Você não pode! — Está feito. — Ângelo acena para o Juiz, eu saio da cama, tentando forçar meus membros rígidos a cooperar. O Juiz dá um passo à frente, por uma fração de segundo, nossos olhos se encontram e eu congelo. Estou muito emocionada para entender o que está acontecendo, mas algo em seu olhar me diz que vai ficar tudo bem. Ele silenciosamente me implora para ouvir e não tornar isso difícil, por um momento, eu quero acreditar nesse falso conforto. Eu quero desmoronar em seus braços, se não por outra razão, eu preciso de alguém para me confortar agora. Só por um minuto. Mas eu teria que estar delirando para acreditar que o Juiz poderia me oferecer isso. Ele não veio aqui para me acalmar. Ele veio para me capturar. Corro para Ângelo , preparada para implorar por minha vida. Eu vou fazer qualquer coisa, dizer qualquer coisa... mas eu nem consigo chegar até ele. Juiz me intercepta, me pegando de lado e envolvendo um braço de aço em volta da minha cintura, me puxando de volta contra seu corpo enorme. Ele consegue ser maior que Ângelo, mas forte. Um som agonizante sai dos meus pulmões enquanto tento lutar, mas é inútil. Em poucos segundos, ele tem meus braços presos atrás das costas e meu corpo confortável contra o dele. Estou exausta demais para desafiá-lo. Eu já lutei pela minha vida uma vez esta noite. Agora, tudo o que posso fazer gritar. — Ângelo, por favor, não faça isso! — Vá — o Juiz diz a ele. — Eu vou lidar com isso. Meu irmão olha para mim uma última vez, tudo que posso ver é sua traição. — Você não vai fazer isso comigo — eu sussurro. — Eu sei que você não vai. — Está feito. — Ele desvia o olhar e não olha para trás enquanto sai pela porta. — Shh — Juiz murmura em meu ouvido enquanto eu solto um último gemido. — Isso é o suficiente agora. Apenas relaxe. Não torne isso pior, Olga. Eu não quero te machucar. Não é sua ameaça que faz meu corpo desmoronar contra ele. É minha adrenalina caindo, outra coisa tomando conta. É tão pesado que não consigo me mexer. Não tenho mais nada pelo que lutar. A única pessoa que eu pensei que sempre me protegeria apenas me descartou como se eu não fosse nada. E certamente, há algo mais aterrorizante nas garras deste homem, mas agora, não consigo ver nada além da verdade na minha frente. Minha vida como eu conheço acabou.
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