4 - Pequena mentirosa

1913 Palavras
Juiz Quando Ângelo se vai, Olga e eu estamos completamente sozinhos. Eu consigo sentir o desespero em sua respiração. Ela observa o espaço onde seu irmão ficou por um longo momento como se esperasse que a porta reabrisse e ele reaparecesse. Não acreditando muito no que aconteceu, ela fica mole em meus braços, um som angustiado vindo de algum lugar dentro dela. Eu afrouxo meu aperto, mas não a solto. Ela olha para mim, o rosto manchado de lágrimas, a pele delicada ao redor dos olhos inchada. Um hematoma está se formando ao redor do corte em sua bochecha e o cabelo úmido gruda em sua testa. — Me solte — diz ela, sua voz como a de um animal ferido. Eu libero seus pulsos e tiro meu braço de sua cintura. Ela foge, colocando espaço entre nós, seu olhar se move para a saída atrás de mim. — Não — Eu digo a ela. Ela fica quieta enquanto considera suas opções. Uma parte de mim espera que ela tente fugir e vá atrás de seu irmão. Ele não vai salvá-la. O que está feito está feito. Mas não tenho certeza se ela não vai continuar a lutar. Olga Gutierrez é uma mulher acostumada a conseguir o que quer. É mimada, sempre teve tudo o que quis aos seus pés. — O que você vai fazer? — ela pergunta em um tom que ela reserva para os empregados. Ela quer me ferir, mas eu a conheço muito bem. Ela pode não perceber isso, mas é verdade. E eu vejo isso como sua tentativa de desviar a atenção de si mesma. Ela está vulnerável. E ela não gosta de estar vulnerável. Ela cruza os braços sobre o peito. Seu moletom cinza está a poucos centímetros de seus tornozelos, seus pés estão descalços. O top combinando é muito folgado. Não seu traje habitual. Sem falar no rosto sem maquiagem. Ela parece mais jovem sem maquiagem. Eu me pergunto se alguém a reconheceria se a visse lá fora. Não que isso importe. Ela não vai sair pela porta da frente. — Eu acho que você sabe — eu digo, dando um passo em direção a ela. A verdade é que quero isso. Eu quero muito. Ângelo é meu amigo mais próximo. O homem em quem mais confio neste mundo. E ele confia em mim. Mas ele me daria à custódia de sua irmã se soubesse o quanto eu a queria? Se soubesse todos os pensamentos impuros que eu tenho com ela? É difícil raciocinar quando eu estava perto de Olga, difícil manter controle. Todos os pensamentos estavam lá, vividos. Eu deveria ter recusado e dito a ele para encontrar outra pessoa. Alguém imparcial. Alguém melhor para isso. Mas a tentação de ter Olga Gutierrez sob meu teto e sob meu controle era demais para resistir. Além disso, ela não estava em condições de ser recusada. Ela precisava de alguém agora e, por mais que ela não quisesse dar o braço a torcer, eu sabia disso. Ela dá um passo para trás enquanto eu dou outro para frente. Ela me conhece a vida toda, mas apenas como confidente e amigo de seu irmão mais velho. Além do tempo que ela ficou em minha casa enquanto Ângelo se recuperava no hospital, não passamos muito tempo juntos, mesmo assim, fiz questão de manter nossas interações breves. Apropriadas. O que ela vê quando olha para mim agora? Seu olhar voa por cima do meu ombro para a porta novamente, mas eu não fala. Se ela quiser fugir, eu vou permitir, mas ela não vai passar por mim. Talvez ela precise aprender isso por si mesma. E a sensação dela pressionada contra mim momentos atrás, seu leve peso em meus braços? Bem, eu sou um homem. E somos todos feras, não somos? Homens e mulheres iguais? Animais. Apesar de todo o nosso refinamento, dinheiro e conversa educada, por baixo de tudo, somos todos apenas animais governados por nossas necessidades básicas. Nossos desejos e vontades. — Você vai me colocar naquele porão? — ela cospe os lábios apertados, os braços se abraçando mais enquanto ela dá mais um passo para longe até que suas costas batem na parede. — Huh? Vai me amarrar como você fez com ela? Ela está falando de Liz. Olga não consegue nem dizer o nome dela. Eu fecho o espaço entre nós, então estou a centímetros dela. Ela inclina a cabeça para trás para olhar para mim. Ela tem em torno de 1,60m, ela é alta, mais alta quando está usando seus saltos habituais, mas eu ainda tenho cerca de 15 centímetros a mais que ela. E mesmo que sua garganta trabalhe para engolir e seu coração trabalhe o dobro, ela se fortalece, cerrando a mandíbula. Olhos escuros encaram os meus. Eu levanto minha mão e ela estremece. Faço uma pausa, levantando a sobrancelha. Ela pressiona as costas contra a parede e pisca. O cabelo gruda no corte em sua bochecha. Eu afasto os fios, sentindo-a estremecer ao meu toque. Meu olhar cai em seus lábios. Sua boca está aberta, respirando superficialmente. E, quando inalo, sinto o cheiro de shampoo, por baixo, o cheiro do medo. Ela está com medo. Ela tem medo de mim. É como deveria ser. Como precisa ser. — Você vai me colocar naquele porão ou não? Responda-me! — Linhas vincam a pele perfeita de sua testa em sua tentativa malfadada de assumir o controle da situação. Paciência, digo a mim mesmo. — Você tem medo disso? — Eu pergunto. Ela aperta os lábios e exala pelo nariz. — Eu não tenho medo de nada. — Nem mesmo de mim? Seus olhos procuram os meus, ela balança a cabeça. A pequena mentirosa. — Hum. — Deixo o momento pairar, ouvindo sua respiração curta e trêmula. — Não, Olga. Você não vai ficar no porão. Ela exala com alívio e fecha os olhos, pressionando as palmas das mãos neles. Ela realmente achou que eu iria amarrá-la como fiz com Liz? Embora talvez eu devesse. Quando Liz estava sob meus cuidados, era pelo mesmo motivo. Ela foi acusada de ser a mulher que envenenou Ângelo. Um ato pelo qual Olga era pelo menos parcialmente responsável. Um ato que Olga armou para culpá-la. Eu me lembro daqueles dias. Como Olga perguntou o que eu faria com Liz. Como ela queria saber cada detalhe. Culpa, eu percebo agora. Isso era culpa. Mas foi o orgulho que nunca permitiu que ela fosse sincera. Para salvar Liz de um destino que ela não merecia. E Olga será punida por isso. — Mas você irá para lá se você merecer. — Ela olha para mim novamente, pequenos punhos entre nós. Eu sorrio. — E tenho a sensação de que você vai merecer, monstrinha. — Não me chame assim. — Assim como? Monstrinha? Mas você é uma Olga, você é malvada. Isso faz seus olhos queimarem. Bom. Seu fogo não deve se apagar. Nunca. E este é o trabalho com o qual estou incumbido. Por isso Ângelo me confiou sua irmã. Deixá-la sob controle. Domá-la. Ensiná-la a se dobrar, mas não a quebrar. Olga me empurra o mais forte que pode, quando eu dou a ela um centímetro, ela corre para ele, arremessando-se para a porta. Eu a pego facilmente, um braço em torno de sua cintura levantando-a de seus pés. Mas é um erro porque ela gira, furiosa, crava as unhas no meu rosto, aquele animal ferido encurralado e desesperado, lutando por sua liberdade, seu orgulho, sua vida. Jogo-a na cama, então a observo pular uma vez e me viro para passar por ela. Capturando seu tornozelo, eu a puxo de bruços, então coloco meu joelho na parte inferior das suas costas. Eu a prendo enquanto seguro seus pulsos, segurando-os em uma das minhas mãos. — Me solte! Isto é um erro. Ângelo não faria isso comigo! Ele não me abandonaria assim! — Ele não abandonou você — eu digo, meu tom calmo. Pego a mochila preta que trouxe comigo. Olga luta, mas ela deve saber que é inútil. A força dela não é páreo para a minha. Ela vira a cabeça para ver enquanto eu abro a bolsa e tiro o pedaço de corda. Eu me endireito, os arranhões no meu rosto ardendo. — Isso é o oposto de ele te abandonar. — digo a ela enquanto ela começa sua luta novamente ao ver a corda. — O que você está fazendo? — ela grita quando eu a viro de costas, amarro seus pulsos e então a coloco de pé. — Você não pode fazer isso comigo! Eu a olho. Seu cabelo está selvagem, o cós do moletom muito grande torto por causa sua luta revelando uma extensão de pele morena tonificada. Eu me curvo para tirar mais uma coisa da mochila e a seguro para ela ver. Ela olha para a tira de seda preta. — Vire-se, Olga. Ela desvia o olhar dela para mim. — Por quê? — De olhos vendados. Eu não acho que você quer que eu te leve até o pátio. Ela engole. — Há uma passagem secreta, mas você precisa estar com os olhos vendados. — Eu quero falar com meu irmão. — ela tenta, o tom de sua voz traindo sua ansiedade, sua compreensão de quão impotente ela está neste momento. Mas a decisão foi tomada por ela. E ela vai se submeter. — Não agora. Faça o que eu digo e vire-se. Vou tirar a venda assim que estivermos no carro. Lágrimas escorrem de seus olhos. — Por que você está fazendo isto comigo? Você deveria ser amigo dele. — Eu sou amigo dele. É exatamente por isso que estou fazendo isso. Silêncio. Mais lágrimas. Eu assisto, paralisado. Ela está tão ferida. E linda pra c*****o. Eu deveria ter recusado essa tarefa. O meu lado decente sabe disso. Sempre soube disso. Mas o animal dentro mim quer. — Olga — eu digo. — Você está cansada. Foi uma noite muito longa. Vire-se. Vamos tirar você daqui. — Eu quero ir para casa. — Isso não vai acontecer. Agora não. — Isso foi um erro. Eu... — Vire-se, Olga. Não vou pedir de novo. Ela olha para mim, seu lábio inferior tremendo, o orgulho lutando contra a aceitação. Coloco minhas mãos em seus braços e a viro, ela não resiste. É o peso da noite. Do que ela fez. Deslizo o pano de seda sobre seus olhos. Ela choraminga enquanto eu a amarro na parte de trás de sua cabeça, então dou a volta para olhar para ela, minha pequena prisioneira. A cabeça dela abaixou. Pulsos delicados amarrados por corda grossa. Algo muda dentro de mim com a visão. Algo sombrio despertando. Querendo. Porra. Eu engulo e a levanto em meus braços. Ela grita e luta momentaneamente. Eu aumento meu aperto em advertência e ela para, endurece, pressionando contra meu peito enquanto eu me movo em direção à passagem que leva aos túneis abaixo. Ângelo escolheu este quarto com esse propósito em mente, tenho certeza. Salvar sua irmã de mais humilhações. Protegê-la. Ele a ama, mas Olga não precisa saber disso agora. Ela faz um som enquanto eu a carrego escada abaixo de pedra, aconchegando-se mais perto de mim enquanto seus pés descalços raspam na parede de pedra áspera. Eu sei enquanto levo minha cativa pelos túneis sob o complexo, que esta noite o curso de nossas vidas mudou. Não haverá volta. Não para nós. Eu sei disso e isso me atormenta.
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