Capítulo 14

898 Palavras
Calor no Meio do Frio Quando Maphis despertou, não soube dizer exatamente quanto tempo havia dormido. Mas soube… que havia sido o suficiente. Seu corpo ainda carregava marcas, ainda sentia o peso dos últimos dias, mas algo estava diferente. Mais leve. Mais estável. Mais… inteiro. Ele abriu os olhos devagar. A primeira coisa que viu foi a luz da fogueira. A segunda… Foi ela. Lia ainda estava no mesmo lugar. Sentada próxima à entrada da caverna, exatamente onde ele a havia deixado. A postura ainda atenta, o olhar voltado para fora, como se o tempo não tivesse passado. Mas havia passado. A noite já havia caído novamente. O céu escuro lá fora, pontilhado de neve que agora caía mais suave, refletia uma luz pálida que entrava pela a******a da caverna. Ela não tinha saído. Não tinha descansado. Tinha ficado. Por ele. Maphis se levantou devagar. Sem fazer barulho. Mas Lia percebeu. Sempre percebia. — Você acordou… — disse ela, virando levemente o rosto. A voz tranquila. Sem tensão. Mas com um leve cansaço escondido. Ele se aproximou. Parando ao lado dela. Observando a neve por um instante antes de falar. — Obrigado. Simples. Direto. Mas carregado. Lia sorriu de leve. Sem olhar diretamente para ele. — Não precisa me agradecer. Uma pausa. E então, ela virou o rosto. Os olhos encontraram os dele. E ela disse algo que… mudou tudo. — Você já faz parte de mim. O tempo pareceu desacelerar. O vento lá fora continuava. A neve caía. A fogueira crepitava. Mas, ali… Tudo ficou em silêncio. As palavras dela não foram grandiosas. Não foram elaboradas. Mas foram… verdadeiras. E atingiram Maphis de uma forma que nenhuma batalha jamais conseguiu. Ele não respondeu de imediato. Mas o olhar… Mudou. Mais profundo. Mais aberto. Mais… vulnerável. — E você… — começou ele, com a voz mais baixa — já é tudo o que eu escolhi proteger. Lia desviou o olhar por um instante. Um pequeno sorriso escapou. Não de timidez. Mas de reconhecimento. — Então estamos quites — disse ela, leve. O silêncio voltou. Mas não era desconfortável. Era… cheio. Depois de alguns segundos, Maphis se afastou um pouco. — Eu trouxe algumas coisas. Ele pegou a bolsa que havia deixado ao lado. E colocou à frente dela. — Pra nossa viagem. Lia se virou completamente agora. Curiosa. E começou a olhar. Havia roupas mais grossas. Alimentos simples, mas melhores do que tinham antes. Algumas ervas. E… — Sabão? — disse ela, surpresa. Maphis deu de ombros. — Achei que poderia ser útil. Ela segurou o pequeno pedaço nas mãos. E, por um instante… Pareceu quase… feliz demais por algo tão simples. — Eu quero um banho. A declaração veio direta. Quase imediata. Maphis soltou uma pequena risada. — Eu imaginei. Lia olhou para fora. Para a neve. Para o frio. E depois voltou o olhar para ele. — A água é gelada, né? — Muito. Ela fez uma careta. — Eu não vou entrar nisso assim. Maphis cruzou os braços. Curioso. — Então o que você vai fazer? Ela sorriu. Aquele sorriso. O que sempre vinha antes de algo inesperado. — Dá um jeito. Ela se levantou. Com mais firmeza agora. Ainda com cuidado. Mas muito melhor do que antes. Caminhou até a saída da caverna. E seguiu até a pequena fonte que Maphis havia encontrado. A água corria entre pedras, clara e cristalina. Mas fria. Extremamente fria. Lia se ajoelhou. E, sem hesitar… Retirou as luvas. Maphis observava de perto. Atento. Sempre atento. Ela respirou fundo. E mergulhou a mão na água. No primeiro contato… O frio seria insuportável para qualquer um. Mas não para ela. A magia respondeu. Imediata. Natural. Um leve brilho surgiu ao redor da mão dela. E então… Se espalhou. A água começou a mudar. Devagar. Mas visivelmente. O vapor começou a subir. Sutil no início. Mas crescente. Maphis ergueu levemente as sobrancelhas. — Você… — Eu falei que dava um jeito — respondeu ela, sem tirar a mão da água. A fonte agora estava aquecida. Não quente demais. Mas perfeita. Lia sorriu. Satisfeita. — Pronto. Ela se levantou. E se virou para ele. — Pode tomar seu banho. Maphis olhou para a água. Depois para ela. — Você fez isso pra mim? — Pra gente. Ela corrigiu. Ele ainda hesitou. — E você? Ela apontou para a caverna. — Eu vou separar minhas coisas, me organizar… E então, completou: — Enquanto isso, você vai. Ele ainda a observava. Como se não estivesse completamente convencido. Ela cruzou os braços. — Vai, Maphis. — Eu vou ver o cavalo depois. — Não. Ela balançou a cabeça. — Primeiro o banho. Depois, um pequeno sorriso. — Ordem médica. Ele riu baixo. E, finalmente… Cedeu. — Tá bom. Enquanto ele se aproximava da água, Lia voltou para a caverna. Ela organizou as coisas. Separou as roupas. Preparou o espaço. Mas, por um instante… Parou. E levou a mão ao peito. Sentindo. A conexão. Mais forte agora. Mais estável. Ela fechou os olhos. E sorriu. Do lado de fora… Maphis mergulhava a mão na água aquecida. E, pela primeira vez em dias… Sentia algo simples. Conforto. Não vindo de um reino. Nem de poder. Mas de alguém. Alguém que transformava frio em calor. Dor em cuidado. E distância… em presença. E, naquele momento… Entre neve, silêncio e pequenas escolhas… Eles não estavam apenas sobrevivendo. Estavam… Vivendo.
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