Entre Passos e Descobertas
O amanhecer chegou silencioso nas montanhas.
A neve da noite anterior ainda cobria o chão, mas já não caía com a mesma intensidade. O céu começava a clarear lentamente, pintando o horizonte com tons suaves de dourado e azul pálido.
Dentro da caverna, o calor da fogueira ainda resistia.
Mas o descanso… havia terminado.
Maphis já estava de pé quando Lia abriu os olhos.
Ele organizava as coisas com movimentos calmos e eficientes, como alguém acostumado a partir antes mesmo que o dia começasse de verdade.
Lia observou por um instante.
A forma como ele se movia.
A maneira como cada gesto parecia natural.
Seguro.
— Você sempre acorda assim cedo? — perguntou ela, ainda deitada.
Maphis olhou por cima do ombro.
— Sempre que preciso.
Ela fez uma pequena careta.
— Eu ainda tô tentando decidir se isso é admirável ou cansativo.
Ele sorriu de leve.
— Pode ser os dois.
Lia se sentou devagar.
O corpo ainda lembrava da dor, mas agora… ela já conseguia se mover sem grandes dificuldades.
— A gente vai sair cedo então?
— Sim.
Ele respondeu simples.
— Quanto mais avançarmos antes do frio aumentar, melhor.
Ela assentiu.
— Faz sentido.
Ela se levantou.
Se ajeitou.
E, por um momento, ficou em silêncio.
Apenas observando o pequeno espaço que havia sido abrigo.
— Obrigada por ontem — disse ela, de repente.
Maphis parou.
— Você cuidou de mim.
Ele virou o rosto.
— Você fez o mesmo.
Lia sorriu.
— Então estamos quites de novo.
— Acho que não — respondeu ele, com um leve tom de provocação.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Não?
— Não.
Uma pausa.
— Acho que você sempre vai estar um passo à frente.
Ela riu baixo.
— Duvido.
O clima leve permaneceu enquanto terminavam de se preparar.
Do lado de fora, o cavalo estava pronto.
Calmo.
Esperando.
Lia parou ao vê-lo.
— Então… — começou ela, olhando desconfiada — é aqui que começa o problema.
Maphis cruzou os braços.
— Problema?
— Eu não sei montar.
A admissão veio direta.
Sem vergonha.
Mas com um certo receio.
Maphis assentiu lentamente.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— Eu te ensino.
Ela olhou para ele.
— Agora?
— Agora.
Lia soltou um pequeno suspiro.
— Ótimo.
Eles se aproximaram do cavalo.
Maphis segurou as rédeas com firmeza, mantendo o animal tranquilo.
— Primeiro, você precisa confiar nele.
Lia olhou para o cavalo.
— E ele precisa confiar em mim.
— Exatamente.
Ela se aproximou com cuidado.
Estendeu a mão.
O cavalo cheirou.
E não recuou.
— Tá… isso é um bom sinal, né?
— É.
Maphis se posicionou ao lado dela.
— Agora coloca o pé aqui.
Ele indicou.
Lia tentou.
Mas hesitou.
— E se eu cair?
— Eu não vou deixar.
A resposta veio imediata.
Sem espaço para dúvida.
Ela olhou para ele.
E, por um instante…
Aquela segurança…
Fez toda diferença.
— Tá bom.
Ela colocou o pé.
Tentou subir.
Mas perdeu o equilíbrio.
Maphis segurou sua cintura rapidamente.
Firmando.
Evitando a queda.
Por um segundo…
Eles ficaram próximos demais.
Lia sentiu.
O calor.
A presença.
E algo mais.
— Eu disse que não ia deixar — murmurou ele.
Ela respirou fundo.
Tentando manter o foco.
— De novo.
Na segunda tentativa…
Ela conseguiu.
Subiu.
Mas ficou rígida.
Sem saber exatamente o que fazer.
— Relaxa — disse Maphis.
— Fácil falar.
Ele ajustou levemente a posição dela.
Com cuidado.
Sempre respeitando.
Sempre atento.
— Segura aqui.
Ela obedeceu.
— Agora respira.
Lia respirou.
Devagar.
— Tá melhor?
— Um pouco.
Maphis sorriu.
— Já é um começo.
Ele montou atrás dela.
Assumindo o controle.
— Assim você não precisa se preocupar agora.
— Você já fez isso antes, né?
A pergunta veio quase automática.
— Muitas vezes.
Ela ficou em silêncio por um momento.
— Com outras pessoas?
A pergunta foi mais suave.
Mais… pessoal.
Maphis percebeu.
— Já viajei com muitas pessoas.
Não foi uma resposta direta.
Mas também não foi evasiva.
Lia olhou para frente.
— Você já… — ela hesitou — já amou antes?
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Mas foi… significativo.
Maphis não respondeu de imediato.
— Já.
A palavra veio calma.
Sem peso.
Mas com verdade.
Lia assentiu.
— Eu imaginei.
Ela não parecia triste.
Nem incomodada.
Apenas… pensando.
— E agora?
A pergunta veio baixo.
— Agora é diferente.
Ela virou levemente o rosto.
— Diferente como?
Maphis não respondeu com palavras.
Não imediatamente.
Em vez disso…
Aproximou-se um pouco mais.
O suficiente para que ela sentisse.
— Como algo que eu escolho.
Lia ficou em silêncio.
Para ela…
Tudo era novo.
Sentir.
Confiar.
Querer ficar.
Não havia passado.
Não havia comparação.
Apenas… o agora.
— Eu ainda não sei muita coisa — disse ela, depois de um tempo.
— Sobre isso.
Maphis não pressionou.
— Você não precisa saber tudo.
— Mas eu quero entender.
— Então vai.
Ela soltou um pequeno sorriso.
— Com você?
— Se você quiser.
Ela não respondeu com palavras.
Mas relaxou um pouco mais contra ele.
E isso…
Já era resposta suficiente.
O cavalo começou a se mover.
Devagar.
Descendo a trilha.
O frio ainda estava lá.
A jornada ainda seria longa.
Mas algo havia mudado.
Não era mais apenas sobre voltar.
Era sobre descobrir.
Sobre aprender.
Sobre sentir.
E, entre passos na neve e caminhos desconhecidos…
Eles seguiam.
Não como quem foge.
Mas como quem… escolhe ficar.