Capítulo 15

914 Palavras
Entre Passos e Descobertas O amanhecer chegou silencioso nas montanhas. A neve da noite anterior ainda cobria o chão, mas já não caía com a mesma intensidade. O céu começava a clarear lentamente, pintando o horizonte com tons suaves de dourado e azul pálido. Dentro da caverna, o calor da fogueira ainda resistia. Mas o descanso… havia terminado. Maphis já estava de pé quando Lia abriu os olhos. Ele organizava as coisas com movimentos calmos e eficientes, como alguém acostumado a partir antes mesmo que o dia começasse de verdade. Lia observou por um instante. A forma como ele se movia. A maneira como cada gesto parecia natural. Seguro. — Você sempre acorda assim cedo? — perguntou ela, ainda deitada. Maphis olhou por cima do ombro. — Sempre que preciso. Ela fez uma pequena careta. — Eu ainda tô tentando decidir se isso é admirável ou cansativo. Ele sorriu de leve. — Pode ser os dois. Lia se sentou devagar. O corpo ainda lembrava da dor, mas agora… ela já conseguia se mover sem grandes dificuldades. — A gente vai sair cedo então? — Sim. Ele respondeu simples. — Quanto mais avançarmos antes do frio aumentar, melhor. Ela assentiu. — Faz sentido. Ela se levantou. Se ajeitou. E, por um momento, ficou em silêncio. Apenas observando o pequeno espaço que havia sido abrigo. — Obrigada por ontem — disse ela, de repente. Maphis parou. — Você cuidou de mim. Ele virou o rosto. — Você fez o mesmo. Lia sorriu. — Então estamos quites de novo. — Acho que não — respondeu ele, com um leve tom de provocação. Ela arqueou a sobrancelha. — Não? — Não. Uma pausa. — Acho que você sempre vai estar um passo à frente. Ela riu baixo. — Duvido. O clima leve permaneceu enquanto terminavam de se preparar. Do lado de fora, o cavalo estava pronto. Calmo. Esperando. Lia parou ao vê-lo. — Então… — começou ela, olhando desconfiada — é aqui que começa o problema. Maphis cruzou os braços. — Problema? — Eu não sei montar. A admissão veio direta. Sem vergonha. Mas com um certo receio. Maphis assentiu lentamente. — Tudo bem. — Tudo bem? — Eu te ensino. Ela olhou para ele. — Agora? — Agora. Lia soltou um pequeno suspiro. — Ótimo. Eles se aproximaram do cavalo. Maphis segurou as rédeas com firmeza, mantendo o animal tranquilo. — Primeiro, você precisa confiar nele. Lia olhou para o cavalo. — E ele precisa confiar em mim. — Exatamente. Ela se aproximou com cuidado. Estendeu a mão. O cavalo cheirou. E não recuou. — Tá… isso é um bom sinal, né? — É. Maphis se posicionou ao lado dela. — Agora coloca o pé aqui. Ele indicou. Lia tentou. Mas hesitou. — E se eu cair? — Eu não vou deixar. A resposta veio imediata. Sem espaço para dúvida. Ela olhou para ele. E, por um instante… Aquela segurança… Fez toda diferença. — Tá bom. Ela colocou o pé. Tentou subir. Mas perdeu o equilíbrio. Maphis segurou sua cintura rapidamente. Firmando. Evitando a queda. Por um segundo… Eles ficaram próximos demais. Lia sentiu. O calor. A presença. E algo mais. — Eu disse que não ia deixar — murmurou ele. Ela respirou fundo. Tentando manter o foco. — De novo. Na segunda tentativa… Ela conseguiu. Subiu. Mas ficou rígida. Sem saber exatamente o que fazer. — Relaxa — disse Maphis. — Fácil falar. Ele ajustou levemente a posição dela. Com cuidado. Sempre respeitando. Sempre atento. — Segura aqui. Ela obedeceu. — Agora respira. Lia respirou. Devagar. — Tá melhor? — Um pouco. Maphis sorriu. — Já é um começo. Ele montou atrás dela. Assumindo o controle. — Assim você não precisa se preocupar agora. — Você já fez isso antes, né? A pergunta veio quase automática. — Muitas vezes. Ela ficou em silêncio por um momento. — Com outras pessoas? A pergunta foi mais suave. Mais… pessoal. Maphis percebeu. — Já viajei com muitas pessoas. Não foi uma resposta direta. Mas também não foi evasiva. Lia olhou para frente. — Você já… — ela hesitou — já amou antes? O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Mas foi… significativo. Maphis não respondeu de imediato. — Já. A palavra veio calma. Sem peso. Mas com verdade. Lia assentiu. — Eu imaginei. Ela não parecia triste. Nem incomodada. Apenas… pensando. — E agora? A pergunta veio baixo. — Agora é diferente. Ela virou levemente o rosto. — Diferente como? Maphis não respondeu com palavras. Não imediatamente. Em vez disso… Aproximou-se um pouco mais. O suficiente para que ela sentisse. — Como algo que eu escolho. Lia ficou em silêncio. Para ela… Tudo era novo. Sentir. Confiar. Querer ficar. Não havia passado. Não havia comparação. Apenas… o agora. — Eu ainda não sei muita coisa — disse ela, depois de um tempo. — Sobre isso. Maphis não pressionou. — Você não precisa saber tudo. — Mas eu quero entender. — Então vai. Ela soltou um pequeno sorriso. — Com você? — Se você quiser. Ela não respondeu com palavras. Mas relaxou um pouco mais contra ele. E isso… Já era resposta suficiente. O cavalo começou a se mover. Devagar. Descendo a trilha. O frio ainda estava lá. A jornada ainda seria longa. Mas algo havia mudado. Não era mais apenas sobre voltar. Era sobre descobrir. Sobre aprender. Sobre sentir. E, entre passos na neve e caminhos desconhecidos… Eles seguiam. Não como quem foge. Mas como quem… escolhe ficar.
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