Capítulo 16

932 Palavras
Entre o Fogo e o Silêncio O terceiro dia de viagem chegou com um cansaço diferente. Não era mais aquele peso esmagador do início, nem a dor constante das feridas recentes. Era um cansaço mais silencioso, mais profundo — o tipo que se instala quando o corpo já aceitou o esforço, mas ainda sente cada passo. As montanhas começaram a ficar para trás. O terreno ainda era frio, ainda coberto por manchas de neve, mas já havia mais vida ao redor. Algumas árvores surgiam, o vento já não era tão c***l, e o caminho… parecia menos hostil. Mesmo assim, a jornada continuava exigente. Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, Maphis já procurava um lugar para parar. Ele sempre fazia isso. Antes que a noite realmente caísse. Antes que o frio se tornasse mais intenso. Antes que o perigo tivesse vantagem. — Aqui está bom — disse ele, observando uma pequena área protegida por rochas e algumas árvores. Lia desceu do cavalo com mais facilidade agora. Ainda não era algo natural, mas já não era estranho. — Você sempre sabe onde parar… — comentou ela, ajeitando a capa sobre os ombros. — Experiência. Ela sorriu. — Muitos anos de prática? Ele lançou um olhar breve. — Alguns. Lia caminhou alguns passos, alongando o corpo. Sentia-se melhor. Mais forte. Mais presente. Maphis já estava organizando tudo. Madeira. Pedras. O espaço da fogueira. Seus movimentos eram precisos, quase automáticos. Lia o observava. Sem pressa. Sem disfarçar. Havia algo… tranquilizador na forma como ele fazia as coisas. Como se tudo estivesse sob controle. Como se, mesmo em um mundo cheio de incertezas, ele soubesse exatamente o que fazer. O fogo começou a surgir. Pequeno no início. Depois mais firme. A luz dançava no rosto dele, criando sombras suaves. Lia se aproximou. Sentando-se próxima. Mas não tão perto. Ainda não. Eles estavam mais próximos agora. Muito mais do que antes. Mas havia algo entre eles. Não uma barreira. Mas um limite. E Maphis respeitava isso. Sempre. Ele nunca avançava além do necessário. Nunca tocava além do que era certo. Nunca dizia mais do que o momento pedia. E Lia percebia. Percebia… e gostava. — Você nunca força nada, né? — disse ela, de repente. Maphis olhou para ela. — Forçar o quê? — As coisas. Ela deu de ombros. — Entre a gente. Ele ficou em silêncio por um instante. Pensando. — Não vejo motivo para fazer isso. Lia inclinou levemente a cabeça. — Mesmo querendo? Ele sustentou o olhar dela. — Principalmente por querer. O fogo crepitou entre eles. Lia desviou o olhar por um momento. Sentindo algo diferente. Algo mais quente que o fogo. — Você pensa muito… — murmurou ela. — E você sente muito. A resposta veio leve. Sem julgamento. Ela sorriu de lado. — Talvez. O silêncio voltou. Mas não era vazio. Lia puxou a capa um pouco mais perto do corpo. O frio começava a aumentar. Mas não era só isso. Ela estava consciente. De tudo. Da proximidade. Do olhar dele. Do jeito que ele estava ali. E de algo que ela começou a perceber há pouco tempo. O cheiro. Ela não sabia explicar direito. Mas era algo que a chamava atenção. Não era apenas o cheiro da viagem, da madeira, do frio. Era algo dele. Algo que ficava. Que marcava. Que… confortava. Ela respirou fundo, quase sem perceber. E sentiu. Um leve calor percorreu seu corpo. — O que foi? — perguntou Maphis, notando o silêncio diferente. Lia piscou. Voltando. — Nada. Ela hesitou. E depois disse, mais baixo: — Eu só tava pensando. — Sobre? Ela olhou para o fogo. — Sobre como tudo isso é novo. Maphis não respondeu de imediato. Apenas esperou. — Eu nunca senti nada assim antes — continuou ela. — Nem pensei que sentiria. Ela levantou o olhar. — E você… Uma pausa. — Você já viveu tudo isso. Ele entendeu. — Já vivi muitas coisas. — E isso? Ele a observou com mais atenção agora. — Isso não é igual. Lia franziu levemente o cenho. — Não? — Não. Ele se aproximou um pouco. Mas ainda respeitando o espaço. — Cada pessoa muda tudo. O coração dela acelerou levemente. — E eu mudo? Maphis não hesitou. — Você já mudou. O silêncio caiu novamente. Mas agora… mais intenso. Lia desviou o olhar. Mas não completamente. — Eu não sei o que fazer com isso ainda… — Você não precisa saber. — Mas eu quero entender. — Então sente. Ela soltou uma pequena risada. — Você sempre responde assim. — Porque funciona. Ela olhou para ele novamente. E, dessa vez… Ficou. Sem desviar. Sem fugir. O fogo iluminava o rosto dele. Os olhos. A calma. E algo dentro dela… Se aquietava. — Eu gosto disso — disse ela, de repente. Maphis inclinou levemente a cabeça. — Disso o quê? Ela hesitou. Mas não recuou. — De estar aqui com você. Uma pausa. — De como você me olha. Outra pausa. Mais suave. — E… Ela respirou fundo. — Do seu cheiro. O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais íntimo. Mais real. Maphis não riu. Não desviou. Apenas absorveu. — Isso é novo — disse ele, com um leve sorriso. — Eu avisei. Eles ficaram ali. Sentados. Próximos. Sem pressa. Sem pressão. A noite caiu completamente. As estrelas surgiram tímidas entre as nuvens. O frio aumentou. Mas o fogo resistia. E entre eles… Algo também crescia. Devagar. Do jeito certo. Sem ultrapassar. Sem apressar. Porque, às vezes… O mais importante não é chegar. É caminhar. E eles… Estavam exatamente onde deveriam estar.
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