Capítulo 17

895 Palavras
Um Lugar Para Ficar O quinto dia amanheceu diferente. O ar já não era tão frio quanto nas montanhas, e o caminho, antes difícil e silencioso, agora dava sinais de vida. Trilhas mais marcadas, árvores mais densas, pequenos sinais de passagem — tudo indicava que estavam se aproximando. Da vila. Do lugar que, aos poucos, deixava de ser apenas um abrigo improvisado… e começava a se tornar algo maior. Lia percebeu primeiro. Não porque Maphis não soubesse. Mas porque ela sentiu. — A gente chegou… — murmurou, com um leve sorriso surgindo antes mesmo de ver. Maphis olhou à frente. E então viu também. A vila. Ela havia mudado. Muito. Onde antes havia apenas barracas improvisadas e estruturas frágeis, agora existiam casas simples, mas firmes. Madeira bem posicionada, caminhos definidos, fogueiras organizadas. Vida. Reconstruída com esforço. Com dor. Mas também com esperança. Lia sentiu o peito apertar. De um jeito bom. — Tá maior… — disse ela, quase sem acreditar. — Eles trabalharam rápido. — A gente também vai. A resposta veio imediata. Como sempre. O cavalo avançou devagar. Descendo a última parte do caminho. E, conforme se aproximavam… As pessoas começaram a perceber. Olhares. Sussurros. Reconhecimento. — É ela… — Lia voltou… — E o mago… Mas Lia não prestava atenção nisso. Seus olhos já estavam fixos em outra direção. Na entrada da vila. Ele estava lá. Eleonor. De pé. Esperando. Por um segundo… Ela não se moveu. Como se precisasse ter certeza de que aquilo era real. E então… Sorriu. Um sorriso verdadeiro. Cheio. — Pai… A palavra escapou antes mesmo que pudesse conter. Maphis parou o cavalo. Mas Lia já estava descendo. Com mais pressa do que cuidado. — Lia— Ele tentou alertar. Mas ela já estava no chão. Ela correu. Mesmo com o corpo ainda se recuperando. Mesmo com o cansaço. E Eleonor… Não se moveu. Até o último segundo. Quando ela chegou… Ele abriu os braços. E a segurou. Forte. Como alguém que precisava sentir. Confirmar. Que ela estava ali. Viva. — Você demorou… — disse ele, com a voz mais baixa do que o normal. Mas carregada. — Eu voltei — respondeu ela, enterrando o rosto no ombro dele. O silêncio que se seguiu foi cheio. De tudo. Alívio. Saudade. Orgulho. Maphis observava. Em silêncio. Sem interromper. Ele entendia aquele momento. Depois de alguns segundos, Lia se afastou. Mas ainda segurando o pai. — A vila… tá linda. Eleonor sorriu de leve. — Nós fizemos o possível. — Ficou muito mais que isso. Ele então olhou além dela. E encontrou Maphis. O olhar mudou. Não ficou duro. Mas ficou… mais sério. Mais avaliador. Maphis desceu do cavalo. E se aproximou. Com respeito. Mas sem submissão. Os dois ficaram frente a frente. Por um instante. — Você cuidou da minha filha. A frase veio direta. Sem rodeios. Maphis assentiu. — Cuidei. Eleonor o observou por mais alguns segundos. Como se estivesse lendo mais do que palavras. — E voltou com ela. — Sempre voltaria. O silêncio se estendeu. Mas não foi tenso. E então… Eleonor assentiu. — Obrigado. Simples. Mas sincero. Maphis inclinou levemente a cabeça. — Não precisa. — Precisa. Ele respondeu. — Porque ela é tudo que eu tenho. Lia olhou entre os dois. Sentindo o peso daquilo. Mas também… o significado. — Eu não sou uma coisa, pai. Disse ela, cruzando os braços. Eleonor sorriu de leve. — Eu sei. Uma pausa. — Mas você é minha filha. Ela relaxou. — Tá bom… isso eu aceito. Um pequeno riso surgiu entre eles. Quebrou o clima. Trouxe leveza. — Venham — disse Eleonor. — Eu preparei um lugar pra vocês. Lia arregalou levemente os olhos. — Pra gente? Ele assentiu. — Sim. Eles começaram a caminhar pela vila. As pessoas cumprimentavam. Algumas agradeciam. Outras apenas observavam com respeito. Lia respondia a todos. Com um sorriso. Com presença. Maphis observava tudo. Em silêncio. Mas atento. A vila não era apenas um lugar agora. Era um começo. Eles chegaram a uma pequena casa. Simples. Mas bem construída. — Aqui — disse Eleonor. Lia entrou primeiro. O interior era aconchegante. Uma pequena mesa. Duas camas. Um espaço para preparar alimentos. E janelas que deixavam a luz entrar. — É perfeita… — disse ela, olhando ao redor. Eleonor observou a reação dela. E sorriu. — Você merece. Ela se virou. E o abraçou novamente. — Obrigada. Ele a apertou de volta. Maphis permaneceu na porta. Observando. — E você — disse Eleonor, virando-se para ele — também tem um lugar. Maphis levantou levemente a cabeça. — Não precisava. — Mas foi feito. Ele indicou uma casa próxima. — Ali. Maphis olhou. E assentiu. — Obrigado. Eleonor se aproximou. Mais uma vez. Mas agora… Mais próximo. Mais direto. — Eu não sei tudo o que aconteceu entre vocês. Maphis não respondeu. Apenas ouviu. — Mas eu sei o que vi. Uma pausa. — E eu sei que ela confia em você. Maphis sustentou o olhar. — Eu não vou quebrar isso. Eleonor assentiu. — Eu espero que não. Lia apareceu na porta. — Vocês dois vão ficar aí conversando sem mim? Os dois olharam para ela. E, por um instante… Tudo pareceu… certo. A guerra havia passado. A jornada havia sido difícil. Mas agora… Havia um lugar. E, mais importante… Havia escolha. E eles estavam ali. Juntos. Prontos para começar… de verdade.
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