O Reino Nascente
Os dias passaram com uma nova rotina.
Não havia mais o som da guerra.
Não havia mais gritos, nem o peso constante da batalha.
Mas havia… trabalho.
Muito trabalho.
A vila crescia.
E crescia rápido.
O que antes era apenas um refúgio improvisado agora se transformava em algo mais estruturado. Casas alinhadas, caminhos organizados, áreas separadas para cultivo, cura e descanso.
As pessoas não estavam mais apenas sobrevivendo.
Estavam vivendo.
E, no centro de tudo isso…
Lia.
Ela caminhava pela vila como alguém que pertencia àquele lugar.
E, ao mesmo tempo… como alguém que fazia o lugar existir.
— Lia! — chamou uma mulher, acenando do outro lado do caminho.
— Já vou! — respondeu ela, apressando o passo.
Maphis a observava de longe.
Encostado em uma estrutura de madeira que ajudava a erguer mais uma casa.
Seus braços estavam cobertos por poeira e esforço, algo que poucos imaginariam de alguém como ele.
Mas ali…
Ele não era um príncipe.
Nem um exilado.
Era apenas… parte.
— Você devia descansar mais — disse um homem ao lado dele.
Maphis soltou um leve sorriso.
— Ela também devia.
O homem riu.
— Boa sorte tentando convencer.
Maphis olhou novamente para Lia.
Ela estava ajoelhada ao lado de uma criança, cuidando de um pequeno ferimento com a mesma atenção que dedicava a qualquer um.
— Eu não tento convencer — disse ele, depois de um tempo.
— Eu acompanho.
O homem assentiu.
— Dá pra ver.
Lia terminava o curativo com cuidado.
— Pronto.
A criança sorriu.
— Obrigado!
— Agora nada de correr por aí por hoje.
— Tá bom…
Mas o tom não parecia muito convincente.
Lia riu baixo.
E se levantou.
— Você devia sentar um pouco.
A voz veio atrás dela.
Ela nem precisou se virar.
— Você também.
Maphis se aproximou.
Parando ao lado dela.
— Eu estou bem.
— Eu também.
Eles trocaram um olhar.
E, por um instante…
Sorriram.
— Teimosos — murmurou Eleonor, passando por eles.
— Puxei de você — respondeu Lia.
Eleonor arqueou uma sobrancelha.
— Eu nunca fui teimoso.
Maphis soltou um pequeno riso.
— Não…
Lia cruzou os braços.
— Eu não vou nem discutir isso.
Os três ficaram ali por um momento.
Observando a vila.
— Está tomando forma — disse Eleonor.
— Mais do que isso — respondeu Lia.
— Está crescendo.
Maphis assentiu.
— Está se tornando algo.
Eleonor olhou para eles.
E então disse algo que ficou no ar.
— Um reino.
O silêncio que se seguiu não foi de dúvida.
Mas de reconhecimento.
— Um reino nascente… — murmurou Lia.
Ela olhou ao redor.
Para as pessoas.
Para as casas.
Para a vida que surgia.
— A gente pode fazer isso.
Maphis olhou para ela.
E, pela primeira vez…
Não viu apenas a jovem que havia encontrado.
Viu alguém que liderava.
Sem tentar.
Sem impor.
Apenas sendo.
— Você já está fazendo.
Ela desviou o olhar, leve.
— A gente.
Ele não corrigiu.
Os dias seguintes reforçaram aquilo.
As pessoas começaram a procurar Lia não apenas por ajuda…
Mas por orientação.
— Lia, onde a gente planta isso?
— Lia, essa madeira serve?
— Lia, a gente pode construir mais casas ali?
E ela respondia.
Sempre.
Com atenção.
Com cuidado.
Mas não fazia sozinha.
— Maphis — chamou ela, certa vez — o que você acha disso?
Ele se aproximou.
Analisou o terreno.
— Se construírem aqui, vão precisar reforçar o solo.
— Então a gente reforça — respondeu ela.
— Vai levar tempo.
— A gente tem.
Ele sorriu de leve.
— Então vai dar certo.
A liderança deles não era imposta.
Não era declarada.
Mas era sentida.
As pessoas confiavam.
Seguiam.
E, aos poucos…
Reconheciam.
— Eles são os líderes.
— Eles que nos guiaram.
— Eles que nos mantêm aqui.
Mas, para Lia…
Nada disso parecia peso.
Parecia… responsabilidade.
E ela aceitava.
Certa noite, sentados próximos à fogueira central, Lia observava tudo em silêncio.
As pessoas conversavam.
Riam.
Compartilhavam histórias.
Vida.
— Você percebeu? — perguntou ela, de repente.
Maphis, ao lado, olhou.
— O quê?
— Eles estão felizes.
Ele observou também.
E assentiu.
— Estão.
— Mesmo depois de tudo…
— Justamente por causa disso.
Ela pensou por um momento.
— A gente deu isso pra eles?
Maphis a olhou.
— Não.
Ela franziu levemente o cenho.
— A gente só mostrou que era possível.
O silêncio voltou.
Mas, dessa vez…
Mais profundo.
— E você? — perguntou ele.
— Eu o quê?
— Está feliz?
A pergunta a pegou de surpresa.
Ela olhou ao redor.
Para a vila.
Para o fogo.
Para as pessoas.
E então…
Para ele.
— Tô.
Simples.
Direto.
— E você?
Maphis não respondeu imediatamente.
Mas seu olhar… já dizia.
— Tô.
O vento soprou leve.
Nada como antes.
Nada como a guerra.
Agora era apenas… parte.
E, ali…
No meio de tudo aquilo…
Um reino nascia.
Não de conquistas.
Não de poder.
Mas de escolha.
E eles…
Eram o começo disso.
Juntos.