Marcas que Não se Mostram
O crescimento da vila trouxe ordem.
Mas também trouxe silêncio.
Aquele tipo de silêncio que surge quando as urgências diminuem… e o que foi deixado para depois começa a cobrar atenção.
Naquela manhã, o céu estava limpo.
O vento leve.
As pessoas seguiam suas tarefas, como já era costume.
Mas, em uma das casas mais afastadas — a de Eleonor — o clima era diferente.
Mais sério.
Mais contido.
Lia estava do lado de fora.
Sentada em um banco simples de madeira.
As mãos entrelaçadas.
O olhar fixo na porta fechada.
Ela não gostava daquilo.
Não de ficar ali.
Não de esperar sem saber.
Mas Eleonor havia sido claro.
— Algumas marcas… você não precisa ver.
E, pela primeira vez…
Ela não questionou.
Do lado de dentro…
Maphis estava sentado.
Sem camisa.
As marcas eram visíveis agora.
Runas antigas.
Gravadas na pele.
Espalhadas por partes do corpo que, normalmente, ficariam ocultas.
Costas.
Costelas.
Parte do peito.
Não eram apenas cicatrizes.
Eram… punições.
Magia que não apenas feriu.
Mas permaneceu.
Eleonor caminhava ao redor.
Observando.
Analisando.
— Magia élfica de contenção… — murmurou.
— Antiga.
— c***l.
Maphis permaneceu em silêncio.
Já havia sentido aquilo.
Durante dias.
Cada movimento lembrava.
Cada respiração pesava.
— Isso foi feito para durar — continuou Eleonor.
— Não é apenas dor.
É limitação.
Maphis assentiu levemente.
— Eu percebi.
Eleonor parou à frente dele.
— E você não disse nada.
— Não queria preocupar ela.
Eleonor o observou por um momento.
E, pela primeira vez…
Havia mais do que análise naquele olhar.
Havia… respeito.
— Você já está fazendo isso.
Maphis soltou um pequeno suspiro.
— Eu sei.
Do lado de fora…
Lia levantou a cabeça.
Ela sentia.
Não via.
Mas sentia.
Como antes.
Na batalha.
Na clareira.
A conexão ainda estava lá.
E agora…
Estava inquieta.
Ela se levantou.
Caminhou até mais perto da porta.
Mas não entrou.
Respeitou.
Mas ficou.
— Você consegue tirar isso? — perguntou Maphis.
Eleonor não respondeu imediatamente.
— Tirar… completamente?
Não.
O silêncio caiu.
— Mas dá pra aliviar.
Controlar.
Reduzir o impacto.
Maphis assentiu.
— Já é o suficiente.
Eleonor começou a preparar os elementos.
Ervas.
Símbolos.
Pequenos frascos.
— Isso vai doer.
Maphis não reagiu.
— Já dói.
Lia encostou levemente na parede do lado de fora.
Seus olhos se fecharam por um instante.
E então…
Ela sentiu.
A dor.
Não como ele sentia.
Mas como um eco.
Ela levou a mão ao peito.
— Maphis…
A palavra saiu baixa.
Quase um sussurro.
Dentro da casa…
Eleonor iniciou.
A magia se manifestou.
Suave no início.
Mas crescente.
As runas reagiram.
Brilharam.
Como se resistissem.
Maphis contraiu os músculos.
Mas não fez som.
Eleonor aumentou a energia.
Controlado.
Preciso.
— Não lute contra.
— Não estou lutando.
— Está.
Maphis fechou os olhos.
E soltou o ar.
Deixou.
Do lado de fora…
Lia sentiu mais forte.
Um aperto.
Uma pressão.
Ela respirou fundo.
Tentando se manter firme.
— Ele precisa de mim…
Mas não entrou.
Porque confiava.
No pai.
Nele.
As marcas começaram a reagir mais intensamente.
Algumas escureceram.
Outras perderam brilho.
A magia de Eleonor envolvia.
Quebrava.
Ajustava.
— Isso não foi feito só para punir — disse ele, concentrado.
— Foi feito para lembrar.
Maphis abriu os olhos.
— Então eu vou lembrar.
Mas não vou carregar isso.
Eleonor assentiu.
— É isso que vamos garantir.
Lia caminhava de um lado para o outro.
Imóvel por fora.
Mas inquieta por dentro.
Ela não gostava de não poder ajudar.
Mas, dessa vez…
A ajuda era esperar.
E isso…
Era mais difícil.
Dentro…
A última etapa começava.
Eleonor colocou a mão próxima a uma das marcas mais intensas.
— Essa aqui…
Vai demorar mais.
Maphis apenas assentiu.
A dor veio mais forte.
Mas ele não recuou.
Porque já havia passado por pior.
E porque sabia…
Que aquilo tinha um fim.
Do lado de fora…
Lia parou.
De repente.
Como se algo tivesse mudado.
E tinha.
A conexão…
Se estabilizou.
Mais calma.
Mais leve.
Ela respirou fundo.
— Tá acabando…
Dentro da casa…
A magia diminuiu.
As marcas ainda estavam lá.
Mas diferentes.
Menos agressivas.
Menos… dominantes.
Eleonor deu um passo para trás.
— Pronto.
Maphis abriu os olhos.
Respirou fundo.
E, pela primeira vez desde que saiu do reino élfico…
A dor não dominava.
— Obrigado.
Eleonor assentiu.
— Ainda vai precisar cuidar disso.
— Eu sei.
Ele pegou a camisa.
Vestiu.
E caminhou até a porta.
Lia estava ali.
Esperando.
Quando ele saiu…
Ela olhou imediatamente.
Seus olhos percorreram.
Buscando sinais.
Mas não havia nada visível.
Mesmo assim…
Ela sabia.
— Você tá melhor…
Não foi pergunta.
Maphis assentiu.
— Tô.
Ela deu um passo à frente.
E, por um instante…
Pareceu querer perguntar mais.
Mas não perguntou.
Em vez disso…
Apenas ficou.
Próxima.
— Eu senti…
Ele a olhou.
— Eu sei.
O silêncio entre eles foi diferente.
Mais profundo.
Mais conectado.
— Você não precisa ver tudo — disse ele, suave.
Lia balançou a cabeça.
— Eu sei.
Uma pausa.
— Mas eu vou estar aqui.
Maphis deu um pequeno sorriso.
— Eu sei.
E, naquele momento…
Eles entenderam.
Algumas marcas…
Não precisam ser vistas.
Mas ainda assim…
São compartilhadas.
E, quando há alguém ao lado…
Elas pesam menos.