Promessas e Escolhas
A vila crescia.
E, com ela… os olhares também.
Lia caminhava entre as casas recém-construídas com um cesto de ervas nos braços, cumprimentando todos com o mesmo sorriso leve de sempre. Seu jeito era simples, natural, mas havia algo nela que fazia com que as pessoas parassem por um segundo a mais.
Observassem.
Comentassem.
— Ela é linda…
— Não é só isso… tem algo diferente nela.
— Quem casar com ela vai ser um homem de sorte…
As vozes eram baixas.
Mas não o suficiente para não serem ouvidas.
Maphis ouviu.
Mais de uma vez.
Mais do que gostaria.
Ele não reagia.
Não confrontava.
Não demonstrava incômodo.
Mas percebia.
Tudo.
E, no fundo…
Sabia que estavam certos.
Lia era bonita.
Mas não apenas isso.
Era luz.
Presença.
Força.
E aquilo chamava atenção.
Naturalmente.
Maphis apoiava uma viga de madeira quando ouviu mais uma vez.
— Você viu ela hoje cedo?
— Vi… impossível não ver.
— Aquela menina vai dar trabalho…
— Quem ficar com ela vai ter sorte…
Ele parou por um segundo.
Apenas um segundo.
E então continuou o que estava fazendo.
Mas, naquele momento…
Uma decisão já começava a se formar.
Mais tarde, o sol já começava a se pôr quando Maphis caminhou até a casa de Eleonor.
Seus passos eram firmes.
Mas o pensamento… mais profundo.
Ele não estava ali como guerreiro.
Nem como alguém que precisava provar algo.
Estava ali como alguém que queria escolher.
E ser escolhido.
Ele bateu na porta.
— Entre — veio a voz de Eleonor.
Maphis entrou.
Eleonor estava organizando alguns pergaminhos, mas levantou o olhar assim que o viu.
— Maphis.
— Eleonor.
O silêncio entre os dois não era estranho.
Já haviam compartilhado respeito antes.
Mas agora…
Havia algo mais.
— Veio falar comigo — disse Eleonor, direto.
Maphis assentiu.
— Vim.
Ele fechou a porta atrás de si.
E deu alguns passos à frente.
— É sobre Lia.
Eleonor não demonstrou surpresa.
Apenas observou.
— Eu imaginei.
Maphis respirou fundo.
— Eu dei minha palavra.
Eleonor cruzou os braços.
— Deu.
— Eu disse que esperaria.
— E está esperando.
— Mas esperar não significa não agir.
O olhar de Eleonor mudou levemente.
Mais atento.
— O que você quer dizer com isso?
Maphis sustentou o olhar.
Sem desviar.
— Eu quero firmar um compromisso com ela.
O silêncio caiu.
Eleonor não respondeu imediatamente.
Apenas analisou.
— Ela tem dezesseis anos.
— Eu sei.
— E você tem séculos.
— Eu sei.
— E ainda assim está aqui.
— Porque escolhi estar.
Eleonor deu alguns passos pelo espaço.
Pensando.
— Compromisso não é leve, Maphis.
— Eu não estou tratando como leve.
— E não é só sobre você.
— Eu sei.
Maphis deu um passo à frente.
— É por isso que eu estou aqui.
Eleonor parou.
— Eu não vou decidir por ela.
— Nem eu quero isso.
Uma pausa.
— Eu quero saber o que ela sente.
Se ela quer.
Se ela está disposta.
O silêncio voltou.
Mas, dessa vez…
Mais profundo.
— E se ela não estiver?
Maphis respondeu sem hesitar.
— Eu espero.
— E se ela quiser viver outras coisas antes?
— Eu espero.
— E se ela nunca escolher você?
A pergunta ficou no ar.
Pesada.
Mas Maphis não desviou.
— Então eu vou aceitar.
Eleonor o observou por longos segundos.
E, naquele momento…
Viu algo que poucos viam.
Não era desejo.
Não era impulso.
Era escolha.
— Você entende o que está pedindo?
— Entendo.
— Não é um laço agora.
— Eu sei.
— É uma promessa.
— É isso que eu quero.
Eleonor respirou fundo.
— Então fale com ela.
Maphis assentiu.
— Eu vou.
— Mas lembre-se…
Eleonor se aproximou.
— Ela ainda está descobrindo o mundo.
— Eu sei.
— Não tire isso dela.
Maphis respondeu com calma.
— Eu não quero tirar nada.
Quero caminhar com ela.
O olhar de Eleonor suavizou.
— Então vá.
Maphis saiu da casa.
O céu já estava escuro.
As estrelas começavam a aparecer.
E Lia…
Estava onde ele imaginava.
Próxima à fogueira central.
Sozinha.
Observando o fogo.
Ele se aproximou devagar.
— Posso sentar?
Ela olhou para ele.
E sorriu.
— Sempre.
Ele se sentou ao lado.
O silêncio veio primeiro.
Mas não demorou.
— Você tá diferente — disse ela.
— Tô?
— Tá.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— O que foi?
Maphis olhou para o fogo.
Por um instante.
E então…
Para ela.
— Eu conversei com seu pai.
Lia ficou mais atenta.
— Sobre?
— Sobre você.
Ela não desviou.
— E?
Maphis respirou fundo.
— Eu quero saber o que você sente.
O coração dela acelerou.
— Eu sinto muita coisa…
— Eu sei.
Ele se aproximou um pouco mais.
Mas ainda respeitando o espaço.
— Mas eu preciso saber se você quer isso.
— Isso o quê?
— Nós.
O silêncio caiu.
Mas não era vazio.
Era cheio de possibilidades.
Lia olhou para o fogo.
Depois para ele.
— Eu nunca senti isso antes…
— Eu sei.
— Eu não sei tudo ainda…
— Você não precisa saber.
Ela respirou fundo.
— Mas eu sei que eu quero você perto.
A resposta veio simples.
Mas verdadeira.
Maphis não sorriu de imediato.
Mas algo nele…
Se acalmou.
— Isso já é o suficiente.
Ela olhou para ele.
— E você?
— Eu já escolhi.
Ela sorriu.
— Então… o que acontece agora?
Maphis respondeu com calma.
— A gente espera.
— Espera?
— Do jeito certo.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Juntos?
— Sempre.
Lia assentiu.
E, naquele momento…
Não havia pressa.
Não havia cobrança.
Apenas uma promessa.
Silenciosa.
Mas forte o suficiente…
Para atravessar o tempo.