Continua...
Quando Lia afastou o rosto…
Ainda segurando a mão dele…
Ela respirou fundo.
Sentindo o que tinha feito.
Sentindo o que aquilo significava.
— Eu quis fazer como você faz comigo…
A voz dela saiu baixa.
Mas firme.
Maphis a olhou.
E, pela primeira vez naquela noite…
Algo mudou nele.
Não era surpresa.
Era… toque.
Algo que foi além da pele.
Além do gesto.
— Eu percebi.
A voz dele saiu mais suave.
Mais carregada.
Lia abaixou o olhar por um instante.
— Eu gosto quando você faz isso.
Uma pausa.
— Me faz sentir…
Ela hesitou.
Buscando a palavra.
— Importante.
O silêncio caiu.
Mas não vazio.
Cheio de compreensão.
Maphis se aproximou um pouco mais.
— Você é.
Ela levantou o olhar.
E, dessa vez…
Não havia dúvida nele.
— Você é importante.
— Você é essencial.
— Você é… minha.
O coração dela respondeu.
Mais forte.
Mais profundo.
Mas não havia posse no tom dele.
Havia escolha.
Pertencimento.
Lia apertou levemente a mão dele.
— E você é meu.
O silêncio veio.
Mas não pesado.
Quente.
Eles ficaram ali.
Mais próximos.
Mais conectados.
Porque aquele gesto…
Pequeno.
Simples.
Tinha mudado algo.
Não na forma como se viam.
Mas na forma como se tocavam.
Agora não era só ele.
Era ela também.
Era troca.
— Eu fiquei nervosa…
Ela confessou.
Um leve sorriso surgindo.
— Eu percebi.
— Muito?
— Um pouco.
Ela riu baixo.
— Eu não sabia se devia.
— E por que fez?
Ela pensou por um instante.
E respondeu.
— Porque eu quis.
Maphis assentiu.
— Então fez certo.
O vento passou entre eles.
Leve.
Lia encostou levemente a cabeça no ombro dele.
Agora mais à vontade.
Mais presente.
— Eu quero aprender.
Ela disse.
— O quê?
— Tudo.
A palavra não era vaga.
Era cheia.
Maphis não respondeu de imediato.
Apenas a observou.
Sentindo.
— E você vai.
Ela fechou os olhos por um instante.
Confiando.
— Com você.
Ele respondeu.
— Comigo.
O silêncio que veio depois…
Foi diferente de todos.
Porque não era apenas confortável.
Era crescimento.
Era o começo de algo novo.
Não apressado.
Não forçado.
Mas construído.
Assim como tudo entre eles.
E, naquela noite…
Sob a lua que ainda iluminava o riacho…
Lia deu um passo.
Pequeno.
Mas importante.
Ela não apenas recebeu.
Ela também deu.
E isso…
Mudava tudo.
Porque amar…
Também é isso.
Aprender a oferecer…
O que antes só se sabia sentir.
E Lia estava aprendendo.
No tempo dela.
Do jeito dela.
Mas, acima de tudo…
Com verdade.
E Maphis…
Estava ali.
Como sempre.
Não para guiar.
Mas para caminhar junto.
Em cada gesto.
Em cada descoberta.
Em cada passo.
Até que tudo aquilo…
Se tornasse parte natural de quem eles eram.
O reino seguia em movimento constante.
Cada dia trazia um novo aprendizado, uma nova construção, um novo desafio.
E, para Lia…
Os treinos não paravam.
O campo já era parte da rotina.
O corpo já se acostumava com o esforço.
Os movimentos começavam a sair com mais naturalidade.
Mas, naquela manhã…
Algo era diferente.
Maphis estava ao lado dela.
Braços cruzados.
Observando.
E, não muito longe…
Um cavalo.
Alto.
Forte.
Imponente.
Lia olhou.
E, no mesmo instante…
Sentiu.
Um frio leve no estômago.
— Um bom guerreiro precisa saber montar.
A voz de Maphis foi calma.
Mas firme.
Lia não respondeu de imediato.
Seus olhos ainda estavam no animal.
— Eu sei…
A resposta veio baixa.
— Mas saber não é o mesmo que conseguir.
Maphis deu um passo mais próximo.
— Você consegue.
Ela desviou o olhar para ele.
— Não é tão simples assim.
— Nunca é.
O silêncio caiu.
Lia voltou a olhar para o cavalo.
Ele se movia com tranquilidade.
Mas, para ela…
Parecia grande demais.
Forte demais.
— Eu tenho medo.
A confissão saiu.
Sem resistência.
Sem orgulho.
Apenas… verdade.
Maphis não se surpreendeu.
Apenas assentiu.
— Eu sei.
Ela cruzou os braços.
— Ele é enorme.
— Ele é treinado.
— E se eu cair?
— Eu te seguro.
A resposta veio rápida.
Natural.
Como se não houvesse outra possibilidade.
Lia olhou para ele.
E, por um instante…
Algo mudou.
Não o medo.
Mas a forma de encarar.
— Com você…
Ela começou.
E parou.
O rosto esquentando.
As bochechas ficando levemente vermelhas.
Maphis percebeu.
— Comigo o quê?
Ela desviou o olhar.
— Com você é bom andar.
A frase saiu meio sem jeito.
Mas sincera.
O silêncio veio.
Mas não desconfortável.
Maphis suavizou o olhar.
— Então começa assim.
Ela piscou.
— Assim como?
— Comigo.
O coração dela respondeu.
Mais rápido.
Mais forte.
— Mas eu…
Ela hesitou.
— Você?
— Eu não sei subir.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Eu ensino.
O vento passou leve entre eles.
E, pela primeira vez…
O medo não parecia tão grande.
Maphis se aproximou do cavalo.
Passou a mão pelo animal.
Calmo.
— Ele não vai te machucar.
Lia ficou um pouco atrás.
Ainda observando.
— Você sempre fala isso de tudo.
— Porque é verdade.
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Tá bom…
Maphis estendeu a mão.
— Vem.
Lia olhou.
Depois para o cavalo.
Depois de volta para ele.
E, devagar…
Ela foi.
Parou ao lado do animal.
Mais perto do que antes.
Mais real.
— Ele é maior de perto.
— Tudo é.
Ela lançou um olhar rápido para ele.
— Isso não ajuda.
Ele riu baixo.
— Coloca o pé aqui.
Ele indicou.
— Segura firme.
Lia tentou.
Um pouco desajeitada.
Mas tentou.
— Eu vou cair.
— Não vai.
— Você promete?
— Prometo.
Ela respirou fundo.
E se impulsionou.
Maphis ajudou.
Guiou.
Segurou.
E, de repente…
Ela estava lá.
Em cima do cavalo.
O mundo parecia diferente dali.
Mais alto.
Mais instável.
— Eu tô…
Ela olhou ao redor.
— Eu tô aqui.
Maphis assentiu.
— Tá.
Ele subiu logo depois.
Atrás dela.
Com cuidado.
Respeitando o espaço.
Mas firme.
Lia sentiu.
A presença dele.
Mais próxima.
Mais real.
— Agora?
— Agora você respira.
Ela riu baixo.
— Eu esqueci disso.
O cavalo começou a se mover.
Devagar.
Passos suaves.
Lia segurou.
Tensa no início.
Mas, aos poucos…
Relaxando.
— Eu não tô caindo…
— Eu falei.
O silêncio veio.
Mas agora…
Mais leve.
— É estranho…
Ela disse.
— O quê?
— Ter medo… e ainda assim gostar.
Maphis respondeu com calma.
— Isso é aprender.
Ela sorriu de leve.
— Então eu tô aprendendo.
— Tá.
O cavalo continuava.
Lento.
Constante.
E, ali…
Entre o medo e a confiança…
Lia dava mais um passo.
Porque crescer…
Nem sempre é não ter medo.
Às vezes…
É sentir o medo.
E ir mesmo assim.
E, com ele ali…
Tudo parecia possível.
Mesmo o que antes parecia impossível.
Ela encostou levemente nas mãos dele.
Sem perceber.
Ou talvez percebendo.
— Obrigada.
— Sempre.
E o caminho continuou.
Passo a passo.
Sem pressa.
Mas sem voltar atrás.
Porque Lia estava aprendendo.
E Maphis…
Estava ao lado.
Como sempre.
Em cada novo começo.