Capítulo 34

1049 Palavras
O Dia que o Reino Guardou O dia amanheceu diferente. Não havia urgência no ar, nem o peso das tarefas que costumavam marcar as manhãs do reino. Havia… expectativa. Um tipo de silêncio leve, que antecede algo importante. O reino estava em festa. Tecidos pendiam entre as casas, flores enfeitavam caminhos, pequenas lanternas aguardavam a noite para serem acesas. Pessoas caminhavam mais devagar, sorrindo mais, falando mais baixo — como se todos soubessem que aquele dia precisava ser sentido com cuidado. Era o dia. Lia estava em sua casa. Sozinha. Pelo menos… por um momento. Sentada diante da janela, ela observava o movimento lá fora, mas não o via de verdade. Seus pensamentos estavam mais próximos. Mais internos. As mãos apoiadas no colo. Os dedos inquietos. O coração… acelerado. — Eu tô nervosa… A frase saiu em um sussurro. E, pela primeira vez desde que tudo começou, desde o pedido, desde os planos… Aquilo parecia real de um jeito diferente. Não era mais o futuro. Era o agora. Uma batida leve na porta. — Lia? Ela levantou o olhar. — Pode entrar. Algumas mulheres entraram. Sorrindo. Carregando tecidos, pequenos objetos, cuidado. — Chegou a hora. O coração dela respondeu. Mais forte. Elas se aproximaram. — Você tá linda. — Ainda nem terminei… — Não precisa terminar pra estar. Lia sorriu de leve. Mas o nervosismo ainda estava ali. — Eu tô com medo. Uma das mulheres segurou a mão dela. — É normal. — Eu nunca fiz isso antes. — E nem precisa saber tudo agora. O olhar de Lia suavizou. — Só precisa estar presente. Elas começaram a arrumá-la. O vestido era simples. Mas carregado de significado. Tecido leve. Detalhes feitos à mão. Coisas que contavam histórias. Do reino. Das pessoas. Dela. Enquanto se arrumava… Lia respirava. Tentando acalmar. Tentando sentir. — Ele tá lá fora. Uma das mulheres disse. O coração dela quase pulou. — Já? — Sempre esteve. Ela fechou os olhos por um instante. E então abriu. Mais firme. — Eu tô pronta. Do outro lado… Maphis aguardava. De pé. No centro. O povo reunido ao redor. Olhos atentos. Mas ele… Só esperava por uma pessoa. Lia. Ele não demonstrava nervosismo. Mas sentia. Não como medo. Mas como importância. Porque tudo o que viveram… Levava àquele momento. E tudo o que viriam a viver… Começaria ali. Quando ela apareceu… O tempo mudou. Os sons diminuíram. As vozes se calaram. E ele só viu ela. Lia caminhava devagar. Cada passo consciente. Cada respiração sentida. O vestido leve. Os cabelos arrumados com cuidado. Mas era o olhar… Que o prendeu. Ela não desviou. E, quando chegou até ele… O mundo parecia ter desaparecido. Só havia eles. Maphis estendeu a mão. Ela colocou a sua. Natural. Como sempre foi. O silêncio era cheio. Mas não precisava ser quebrado. Ele a olhou. Com tudo. Com verdade. Com escolha. — Você veio. Ela sorriu de leve. — Eu sempre venho. As palavras da cerimônia começaram. Mas eram simples. Como tudo entre eles. Não havia discursos longos. Nem promessas exageradas. Havia o essencial. — Você escolhe caminhar com ele? — Escolho. — Você escolhe caminhar com ela? — Escolho. E aquilo… Era suficiente. O reino assistia. Em silêncio. Mas com o coração cheio. Porque aquele momento… Não era só deles. Era de todos. Quando chegou o momento do gesto final… O silêncio se aprofundou. Maphis segurou o rosto de Lia com cuidado. Com respeito. Com tudo o que ele sempre demonstrou. Ela fechou levemente os olhos. Sentindo. Esperando. Mas não com ansiedade. Com confiança. E então… Ele inclinou o rosto. E beijou. Sua testa. Um gesto simples. Mas cheio. Mais forte que qualquer outro. Porque carregava tudo. Respeito. Cuidado. Promessa. E, acima de tudo… Tempo. O reino explodiu em celebração. Mas, para eles… O mundo ainda estava quieto. Lia abriu os olhos. E o olhou. Sem pressa. Sem dúvida. — Obrigada. — Pelo quê? — Por esperar. Ele sorriu. — Sempre. Eles se aproximaram. As mãos ainda entrelaçadas. O futuro agora… Não era mais distante. Era presente. E o beijo… Aquele que ela tanto pensou. Aquele que ainda não haviam vivido… Ficaria. Para depois. Para o momento deles. Com calma. Do jeito que ela merecia. E isso… Tornava tudo ainda mais especial. Porque amar… Nunca foi sobre pressa. Sempre foi sobre escolha. E eles… Escolheram. Ali. Diante de todos. E, principalmente… Um ao outro. A festa ainda ecoava pelo reino. Risos. Música. Vozes que se misturavam em alegria sincera. O povo celebrava. Não apenas um casamento. Mas tudo o que aquele momento representava. Lia e Maphis estavam ali. Entre eles. Sorrindo. Agradecendo. Vivendo. Mas, conforme a noite avançava… Algo dentro de Lia começava a mudar. Não era tristeza. Nem arrependimento. Era… nervosismo. Um tipo novo. Mais profundo. Mais íntimo. Ela caminhava ao lado dele. Mas seus pensamentos estavam mais à frente. Na casa. No quarto. Naquilo que viria depois. Maphis percebeu. Claro que percebeu. Ele sempre percebia. — Você ficou quieta. A voz dele foi baixa. Lia tentou sorrir. — Só tô cansada. Mas ele não acreditou completamente. — É só isso? Ela hesitou. E, dessa vez… Não escondeu. — Não. O silêncio entre eles se aprofundou. — É… o resto. Ele entendeu. Não precisou de mais palavras. Eles se despediram do povo aos poucos. Sem pressa. Sem fugir. Mas, inevitavelmente… O momento chegou. A casa. Agora deles. O caminho até lá foi silencioso. Não desconfortável. Mas cheio. Quando entraram… A tranquilidade tomou o lugar da festa. O som do mundo ficou do lado de fora. E ali… Restaram apenas eles. Lia parou. Os olhos percorreram o espaço. A casa que haviam escolhido. Construído. Vivido em pensamento… Antes mesmo de existir. Mas, agora… Era real. Ela respirou fundo. E olhou para o quarto. A cama. O lençol claro. Organizado. Esperando. O coração acelerou. Mais forte do que antes. Maphis se aproximou. Sem invadir. Sem apressar. — Lia… Ela não respondeu de imediato. Mas não se afastou. — Vamos com calma. A voz dele foi firme. Mas suave. Ela olhou para ele. E, pela primeira vez naquela noite… Seus olhos mostravam medo. — Eu nunca… Ela parou. As palavras não precisavam ser completas. Ele entendeu. — Eu sei. O silêncio veio. Mas não pesado. — E não precisa ser hoje. Ela piscou.
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