Continua...
Surpresa.
— Mas…
Ele balançou levemente a cabeça.
— Não existe “mas”.
Ela olhou novamente para a cama.
Para o lençol.
— O reino espera…
A frase saiu quase em um sussurro.
Maphis ficou em silêncio por um instante.
E então…
Tomou uma decisão.
Ele pegou uma pequena faca que estava próxima.
Lia franziu levemente o cenho.
— Maphis?
Ele fez um pequeno corte na própria mão.
Rápido.
Controlado.
O sangue apareceu.
Antes que ela pudesse reagir…
Ele caminhou até a cama.
E deixou o sangue tocar o lençol claro.
Uma mancha.
Pequena.
Mas suficiente.
Ele voltou até ela.
Calmo.
Presente.
— Pronto.
Lia o olhou.
Sem entender completamente.
— O que você fez?
Ele respondeu.
— Tirei o peso que não é seu.
O silêncio caiu.
Mas, dessa vez…
Cheio de algo novo.
— Eu não quero que você esteja comigo por medo.
A voz dele ficou mais firme.
Mais profunda.
— Nem por obrigação.
Ele deu um passo mais próximo.
Sem invadir.
Mas sem distância.
— Eu quero…
Uma pausa.
— Porque você me deseja.
O coração dela respondeu.
Mais forte.
Mais claro.
— Como eu desejo você.
O silêncio entre eles mudou.
Não havia mais pressão.
Não havia mais expectativa externa.
Apenas… escolha.
Lia respirou fundo.
Sentindo.
Entendendo.
Os olhos se encheram levemente.
Não de tristeza.
Mas de alívio.
— Você fez isso por mim…
Ele assentiu.
— Sempre.
Ela deu um passo à frente.
Mais próxima.
Mais segura.
— Eu não quero ter medo.
— Então não tenha.
— Eu quero sentir.
Ele a olhou.
— Então sinta.
O silêncio que veio depois…
Foi o mais verdadeiro de todos.
Lia levantou a mão.
Tocou o rosto dele.
Devagar.
Sem pressa.
— Eu escolho você.
Maphis fechou os olhos por um breve instante.
Sentindo.
— E eu escolho você.
A distância entre eles diminuiu.
Não por impulso.
Mas por decisão.
Sem pressa.
Sem medo.
Apenas… no tempo deles.
E, naquela noite…
O que começou não foi marcado por expectativas.
Mas por algo muito mais forte.
Confiança.
Porque o amor deles nunca foi sobre pressa.
Sempre foi sobre escolha.
E, ali…
Eles escolheram.
Um ao outro.
De verdade.
O quarto estava em silêncio.
Depois de tudo — da festa, das vozes, das escolhas — restava apenas aquele espaço.
Fechado.
Íntimo.
Real.
Maphis ainda estava perto da cama.
O lençol marcado já não estava mais ali.
Ele o havia retirado com um gesto simples, quase automático, como quem desfaz algo que não precisava mais existir.
— Descansa…
A voz dele foi baixa.
Mais suave do que firme.
Lia estava parada.
Ainda próxima.
Ainda sentindo tudo.
Ela olhou para ele.
— Não vai… dormir comigo?
A pergunta saiu sem acusação.
Sem exigência.
Apenas… dúvida.
Maphis não respondeu de imediato.
Ele a observou.
E, naquele momento…
Viu.
Não apenas a mulher diante dele.
Mas tudo o que ela carregava.
A coragem.
O medo.
A confiança.
E algo mais…
Uma fragilidade nova.
Não de fraqueza.
Mas de entrega.
Ele passou a mão pelo rosto.
Respirou fundo.
— Lia…
A voz saiu mais carregada agora.
— Eu tô me segurando.
Ela não entendeu de imediato.
— Se segurando?
Ele deu um pequeno passo para trás.
Como se precisasse de espaço.
— Pra não fazer bobagem.
O silêncio caiu.
Mas não pesado.
Profundo.
Lia ficou em silêncio.
Observando.
Sentindo.
Ela nunca tinha visto ele assim.
Não era dúvida.
Não era medo.
Era… controle.
— Você acha que vai me machucar?
Ela perguntou, com calma.
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Então por que…
Ela não terminou.
Mas ele respondeu.
— Porque eu te quero.
A frase saiu direta.
Sem rodeios.
Mas sem peso.
O coração dela acelerou.
Mas não de medo.
De entendimento.
— E isso não é errado.
Ela disse, devagar.
— Não é.
— Então por que você se segura?
Maphis a olhou.
Mais profundo.
Mais verdadeiro.
— Porque eu quero fazer do jeito certo.
O silêncio que veio depois…
Mudou tudo.
Lia sentiu.
Como se algo dentro dela se ajustasse.
— Do jeito certo…
Ela repetiu.
— Com calma.
— Com respeito.
— Com você pronta.
Ela respirou fundo.
E, pela primeira vez desde que entraram ali…
O nervosismo começou a diminuir.
— Eu achei que você…
Ela hesitou.
— Que eu ia querer agora?
Ela assentiu, levemente.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Eu quero.
Uma pausa.
— Mas não assim.
O olhar dela suavizou.
— Então como?
Ele respondeu com calma.
— Quando você não tiver dúvida.
— Quando você não estiver pensando no reino.
— Nem no que esperam.
Uma pausa.
— Só em nós.
O silêncio que veio depois…
Foi o mais leve daquela noite.
Lia deu um passo à frente.
Devagar.
Sem hesitar.
— Eu não tô com medo de você.
Maphis não se moveu.
Mas ouviu.
— Eu só tô com medo do que eu não conheço.
Ele assentiu.
— E isso é normal.
Ela se aproximou mais.
Agora sem distância.
— Mas eu quero aprender.
O coração dele respondeu.
Mais forte.
Mas ele permaneceu firme.
— E você vai.
Lia levantou a mão.
Tocou o peito dele.
Sentindo o ritmo.
— Com você.
Ele fechou os olhos por um instante.
Sentindo.
— Sempre.
O silêncio voltou.
Mas agora…
Seguro.
Maphis respirou fundo.
E deu um passo ao lado.
— Deita.
Ela olhou para a cama.
Depois para ele.
— E você?
— Eu fico aqui.
— Por quê?
Ele sorriu de leve.
— Pra te deixar descansar.
Ela observou.
Por alguns segundos.
E então…
— Fica comigo.
A frase veio baixa.
Mas firme.
Maphis hesitou.
Não por dúvida.
Mas por cuidado.
— Lia…
Ela balançou a cabeça.
— Só… fica.
O silêncio caiu.
Mas não havia mais tensão.
Apenas… escolha.
Ele assentiu.
Devagar.
E se aproximou.
Sentou na beira da cama primeiro.
Esperando.
Lia se deitou.
Mais tranquila agora.
Mais leve.
Depois de um instante…
Ele deitou ao lado.
Mas mantendo espaço.
Respeitando.
O quarto ficou em silêncio novamente.
Mas, dessa vez…
Era paz.
Lia virou o rosto levemente.
— Você ainda tá se segurando?
Ele soltou um pequeno riso.
— Tô.
Ela sorriu.
— Então tá bom.
Uma pausa.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por não fazer bobagem.
Ele virou o rosto na direção dela.
— Eu não faria.
— Eu sei.
O silêncio veio.
Mas agora…
Leve.
Lia fechou os olhos.
Sentindo o corpo relaxar.
E, pela primeira vez naquela noite…
Ela descansou.
De verdade.
E Maphis…
Permaneceu ali.
Acordado por mais tempo.
Observando.
Cuidando.
Mas, acima de tudo…
Escolhendo.
Porque amar…
Também é isso.
Saber quando parar.
Quando esperar.
Quando proteger.
Até de si mesmo.
E, naquela noite…
Ele escolheu o tempo dela.
E isso…
Era o que tornava tudo tão forte.