Entrei no banco de trás do carro de Liam, um sedã prateado de um modelo recente. Prestei atenção na conversa enquanto falavam sobre o jantar e a apresentação. Parece que o alfa e seu herdeiro retornaram recentemente depois de outro confronto nas fronteiras sombrias. O pai de Annie era um dos guardas das fronteiras e estava quase sempre fora, então Annie estava especialmente animada com o fato de poder vê-lo, mesmo que por poucos dias. O jantar era para comemorar o momento de paz com os familiares e amigos mais próximos.
— Chegamos! — Disse Liam, estacionando em frente a uma grande casa de dois andares com um jardim enorme. A casa fica em um terreno elevado, com o primeiro andar um pouco acima do nível da rua e uma entrada de carros que parecia descer para uma garagem subterrânea. A localização da casa é relativamente próxima ao lugar onde Nicolas mora, o que faz todo sentido, afinal, o beta do clã é o pai dele.
— Vamos na cozinha primeiro, quero te apresentar para a minha mãe. — Annie me puxou pelo braço enquanto Liam tirava os equipamentos de som do carro.
A cozinha possui uma porta que se abre para o jardim lateral. Os aromas que pairavam no ar tinham um cheiro irresistível. A mãe de Annie, de porte médio e cabelos ruivos como os da filha, porém com menos sardas, estava um pouco acima do peso. Ela dirigia comandos constantes a outras duas mulheres na cozinha, que cortavam ingredientes e mexiam nas panelas.
— Mãe, essa é a minha amiga Eliza. Eliza, esta é minha mãe, Marta. — Apresentou-nos Annie.
Marta foi extremamente gentil comigo, abraçou-me e apresentou-me às outras cozinheiras. Ela colocou um pouco de caldo numa tigela, pediu que eu experimentasse e dissesse o que achava. Coloquei minhas luvas no bolso do sobretudo e aceitei a tigela. Ao aproximar a colher da boca, senti um aroma amadeirado no ar e meu coração disparou. Não! Logo agora que Lisa estava começando a superá-lo...
— O que ela faz aqui? — Disse uma voz alta e áspera. Segui a voz daquele homem frio, trajado com roupas formais, parado na porta que separava a cozinha da área dos fundos.
“Companheiro!” — Minha loba estava desesperada, gritando dentro de mim. A sensação como se houvesse um ímã me puxando até ele era insuportável. Acabei apertando a tigela com tanta força que ela se quebrou na minha mão. O calor do caldo queimando a pele da minha mão só não era pior do que o olhar furioso que aquele homem me lançava. Afinal de contas, por que ele me odiava tanto? O que eu fiz para ele?
— Eliza, você está bem? — Marta se apressou em me guiar até a torneira e me ajudou a lavar as mãos. Eu estava paralisada enquanto absorvia e renegava os sentimentos da minha loba. Isso piorou quando aquele homem se aproximou e me puxou rudemente para a porta de saída da frente.
— Espera, ela é do grupo! — Annie tentou se explicar, mas ele ignorou-a completamente.
— Não venham atrás de mim! Eu lido com isso. — Ordenou aquele homem com a voz autoritária. Ninguém ousou contrariá-lo, e percebi que estava sozinha nessa, enfrentando alguém que era algo mais do que apenas um simples professor.
— Me solta! — Exigi. Sua mão apertava meu braço com tanta força que parecia que ia quebrá-lo. De certa forma, ele me ouviu, pois me soltou bruscamente, empurrando-me para frente contra a calçada. Senti o tornozelo que havia ferido mais cedo vacilar por um instante, e perdi o equilíbrio, caindo de forma desajeitada.
Olhei incrédula, recusando-me a aceitar que este homem rude pudesse ser meu companheiro. Apesar de tudo, meu coração doía mais do que meu corpo machucado. Éramos apenas nós dois, em meio a essa confusão desconcertante.
— Foi você quem pediu. — Sua voz continha uma pitada de desdém e irritação. — Não volte aqui sem ser convidada.
— Mas eu fui convidada! — Respondi. Ele parecia não acreditar nas minhas palavras. Virou-se de costas, ignorando-me completamente, como naquele dia, mas ao primeiro passo que deu, fiz algo completamente impensado. — Seu brutamontes! e******o!
Senti as lágrimas começando a sair enquanto verificava o dano no meu tornozelo direito. Ele voltou-se contra mim novamente. Se os seus olhos pudessem m***r, eu estaria morta agora.
— Você tem alguma ideia de quem eu sou? — Soou com aquela mesma voz autoritária.
— Um e******o! — Repeti, sem medo.
— Sou William Stone, seu futuro alfa. Se ousar me desafiar novamente, posso não apenas revogar aquela vaga que você recebeu no Colégio Siram, mas também mandar prendê-la. Ficou claro?
— Quantos anos você tem? — Perguntei incisivamente. Eu não daria o braço a torcer tão facilmente.
— Isso não é da sua conta, criança. — Sentindo que o tornozelo não estava tão m*l, levantei-me enquanto negociava internamente com Lisa.
"Se ele realmente souber que sou sua companheira e não me quiser, pare de jogar esses sentimentos inúteis para cima de mim e assuma os meus sentimentos para ti."
Ela não me respondeu diretamente, mas senti que ia tentar me acatar.
— Se quer rejeitar a sua companheira, faça isso abertamente, e não agindo como um i****a.
Choque e pânico tomaram conta do rosto dele. Não sei o que ele pensava de mim, tampouco me importava depois de tudo o que aconteceu.
— Como se alguém como você fosse ser a minha companheira. Não seja ridícula! Você não seria digna. — Senti a voz dele vacilar. Deixei as garras saírem das minhas mãos e um rosnado escapou da minha boca, mostrando que Lisa estava começando a transbordar sobre meu corpo humano.
— Repita isso claramente para minha loba ouvir que você não a quer e podermos deixar de lado essa m***a de vínculo de companheiro e seguirmos com nossas vidas.
Sei que minha voz soou mais como um rosnado, mas não pude evitar. A raiva de Eliza se sobrepunha à tristeza no coração de Lisa.
William deu um passo para trás, visivelmente chocado ao perceber que eu já tinha uma loba e que não poderia me enganar. O silêncio mortal se instalara enquanto eu retomava o controle completamente e dominava o meu coração e o de Lisa com minha indiferença rotineira. Não havia razão para continuar perdendo tempo ali. Virei-me de costas, pronta para ir para casa.
— Não diga a ninguém sobre isso — pediu-me com a voz um pouco mais suave. Virei-me para ele uma última vez. Esperava não precisar vê-lo novamente.
— Não se preocupe, o meu interesse por você é o mesmo que você tem por mim. Eu não me envolveria com alguém tão rude como você de qualquer forma, então não espere nada de mim. Guarde bem essa sua rejeição e não a esqueça, porque para mim não há mais volta. — Virei as costas e, à medida que me distanciava dele, concluí: — Se você se esquecer, farei questão de lembrá-lo.