Capítulo 2

1416 Palavras
Por Saulo... Meu coração está descompassado, a ansiedade toma conta de todo o meu ser porque a qualquer momento me vejo livre desse inferno a qual me coloquei. Estou sentado em uma cama imunda sentido o cheiro fétido desse lugar onde passei seis últimos anos. Porém, me acostumei a todos os dias acordar e me deparar com isso, ou muitas vezes apenas ficar acordado olhando fixamente o teto de cimento e imaginando como ela está, se sente minha falta. Talvez sinta, ou não, não saberei. Olho mais uma vez o seu rosto pequeno e infantil, me sentindo um miserável por ter me apaixonado por uma adolescente. O quão desgraçado eu sou? Observo o seu olhar na fotografia vendo o quão linda ela fica quando está sorrindo. Nunca cansei de admirá-la e me pego as vezes como um i****a apaixonado. — Saulo! — A voz grossa e raivosa do carcereiro se faz presente, levanto apenas o olhar, ele acrescenta — Tem visitas. Ponho a fotografia em meu bolso e salto da beliche de cimento, caindo perfeitamente de pé no chão. Essa maldita roupa incomodando devido ao aumento dos músculos me deixando estressado e agoniado. Caminho até a grade esperando-o abrir. A sua maldita cara feia não me põe medo, é exatamente o contrário. O caminho até a sala de visitas não é demorado, entretanto passamos por várias outras celas onde outros presidiários estão gritando e chingando a todos. Já virou uma coisa rotineira e monótona. Eu ando em passos lentos e calculados, na verdade, tudo o que faço é calculado, desde palavras à coisas extremas e sempre foi assim. Minhas mãos estão frias e trêmulas, estou sentindo que minha liberdade está cada vez mais próxima. Paramos diante da porta de ferro enferrujado e espero pacientemente que Marcos a abra. E assim que faz eu não demoro a entrar, meu advogado, Charles, está de pé com os braços cruzados enquanto tem alguns documentos na pequena mesa de madeira. Cumprimento-o assim que Marcos fecha a porta. — Como vai Saulo? — Vou m*l Charles, estou ansioso, tentando me controlar e me manter firme como eu sempre fui, mas tá difícil. — Revelo e suspiro com as mãos na cabeça. — Entendo. — Com certeza isso é uma coisa que você não entende meu bom amigo. — Digo rindo sem humor e ele balança a cabeça. Charles organiza alguns papéis e me entrega, observo-os e não entendo porcaria nenhuma do que está escrito. — Que p***a é isso? — quero saber, voz sai mais alta do que desejo. — Essa é a sua liberdade Saulo, depois de anos preso você enfim será livre. As palavras saem da sua boca e em muito tempo me pego sorrindo largamente e esperançoso. — Que dia me verei livre desse maldito inferno? — Questiono, ouvindo durante os próximos minutos sobre a parte burocrática à ser resolvida e que no máximo em dois dias estarei fora daqui. E nessa noite eu demoro a dormir. ◇ Depois de passar na minha casa eu sigo para fora, entro em meu carro e dirijo para a casa dela, no caminho penso em passar em uma floricultura e compro rosas brancas. A sua preferida... Isabel nunca foi fresca como as garotas a qual eu costumava me relacionar. Mesmo com a pouca idade sempre teve uma maturidade assombrosa e eu sempre me orgulho disso. Minha menina madura. É com esses pensamentos que saio do carro com as flores nas mãos e apresso os passos até está diante da porta, levanto a mão fechada em punho prestes a bater quando uma certa baixinha abre e para diante de mim boquiaberta e surpresa. — Saulo?! — Exclama quase gritando olhando-me de cima a baixo. — É você? — Pergunta sussurrando. — Sou eu baixinha... Seu Saulo. — Abro os braços recebendo-a com amor e saudades. Isabel se aconchega em mim de uma maneira que só ela faz e então ficamos assim por minutos. — Precisamos conversar amor. — Digo mechendo em seu cabelo, ouvindo a respiração satisfeita que ela solta. — Eu não quero ouvir, passei tanto tempo sem você que não quero ouvir nada r**m, só aproveitar o tempo que nós temos. Diz — Como assim tempo que temos? — Pego em seu queixo levantando seu rosto para que olhe diretamente em meus olhos. Encontro os seus marejados e não entendo o porquê. — Eu vou... Vou me casar em dois dias. — Diz se afastando e eu fico estático. — Casar?! — Pergunto incrédulo. A minha mulher está casando... Com outro? Um som ruidoso sai da minha garganta fazendo-a se afastar para trás. Ela vai casar. E não é comigo! Outro homem verá o seu corpo e... Desperto com um grunhido alto, estou tremendo, à suor por todo o meu corpo e eu não consigo mais pensar em nada que não seja Isabel com outro homem. O sangue pulsa na minhas veias tamanha ira que vai se instalando em mim. p***a! Estou puto, muito puto, e agora a ansiedade em sair desse lugar duplicou. Suspiro frustado percorrendo meu olhar ao redor desse maldito quarto, observando meus companheiros de cela em um sono profundo, nos acostumamos tanto com esse estilo de vida que nem o colchão fino — realmente muito fino não nos impede de dormir, o odor impregnado já se tornou parte de nós, fazendo-se o incomodo não existir mais. Porém isso está chegando ao fim, pelo menos para mim. Eu só quero sair daqui e ir atrás dela, da minha menina que hoje já não é tão menina. Sei que está magoada e até com ódio de mim, mas não descansarei até que eu tenha o seu perdão. Sei que a feri, mas eu não podia fazer nada. Eu simplesmente não podia. Era para acontecer tudo isso. (...) Na manhã seguinte estou agitado, não conseguindo ficar sentado enquanto os outros presos conversam entre si. Eu poderia dizer que nesses anos todos eu fiz algum amigo, mas a verdade é que ninguém é confiável o bastante para mim. E nesse mundo onde faço parte não podemos vacilar porque até aquele que se diz amigo um dia te apunhala pelas costas. *** Os dias se seguiram dessa maneira, querendo me testar ao extremo, a cada vez que abriam a sela eu me via saindo desse inferno, ansioso para respirar o ar de fora. Não quis tomar banho de sol ou fazer qualquer coisa, o fato de esperar em si já me deixa puto. Deito no chão imundo, levo os braços para debaixo da cabeça e apoiando a mesma na mãos começo uma sequência contínua de abdominais. — Parece que hoje o passarinho canta liberdade. — Paro a ação ao ouvir a voz debochada de Marcos. — Tem gente querendo te ver Presidiário. — Eu sei o que está tentando fazer, — Falo olhando em seus olhos assim que levanto e ando lentamente até o mesmo — Você está perdendo o seu tempo. Eu não vou perder a cabeça Carcereiro. — Meu tom é desdenhoso. — É muito fácil se fingir de bom "menino" quando já está prestes a sair do castigo não é mesmo? — Indaga, fecho minhas mãos em punho tentando não acerta-lo com um soco para calar essa maldita boca. — Conheço o seu tipo. Paramos diante da porta e preciso espera-lo abrir. — Eu não preciso me fingir de bom moço Marcos. Já fui preso por assassinato e tráfico de drogas. Mas sabe de uma coisa? — Pergunto ameaçadoramente — Nunca fui preso por matar um carcereiro. Vejo quando engole seco e se afasta. — Homens como você não vai até a esquina. — Se afasta e eu entro rapidamente para não perder o resto de paciência. A porta foi fechada atrás de mim com um baque, mas não me atentei a isso e sim ao sorriso que meu amigo e advogado lançava para mim. Naquele momento eu soube que estava saindo do inferno! Algumas pessoas quando se vêem nessa situação demoram para se ver firme e ter um rumo, talvez a mente esteja se readaptando as ruas novamente, e principalmente se você não tem uma família, ou alguém que te espera, mas eu não, eu sabia desde o início para onde eu iria. E não foi difícil descobrir onde ela estava, eu só precisaria de tempo até que ela me perdoasse, mas não sou homem de desistir. Isso nunca foi uma opção, independente de ter outro em sua vida. Sou firme naquilo que quero! Isabel é minha!
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