Capítulo 09

2181 Palavras
Vrisan era apenas uma porção de terra distante no horizonte, e o sol coloria as ondas azuis do mar ondulante. Elisie esfregou as mãos, rangeu os dentes, relaxou os ombros, sair de Darkeng de uma forma estranha a fez se sentir menos deprimida. Alguém a cobriu com uma manta, apertando as mãos em torno dos seus ombros. ― Sempre esquece de se cobrir apropriadamente. Tome, enquanto está quente. ― Pediu Alex entregando a ela uma grande xícara de chá, ela levou-o aos lábios, sentiu o vapor quente e o sabor irresistível de menta. ― Obrigada. ― É incomum estar longe do trono de Darkeng. Sinto como se todo o peso das responsabilidades houvesse saído das minhas costas. ― Você nunca quis ser rei, estou certa, não estou? Fez isso apenas para que eu não fosse... ― Essa pergunta de novo? Eu já não disse? Eu sempre tive a ambição de tornar-me rei. O silêncio intrometeu-se entre eles, e assim ficou até que o chá esfriar nas mãos de Elisie. ― A bruxa... ― Começou Alex afastando-se do corrimão. ― Briana, chame-a de Briana. ― Sim, por que você a trouxe? Não pensa que ela esteja a tramar algo? Ela nem se opôs. ― Não deixarei que ela escape. No futuro se precisarmos dela, se ele... Bem, não sabemos do que tanto os filhos deformados são capazes. ― Mesmo que eles sejam poderosos, não creio que reviver os mortos seja algo possível. ― Elisie deu de ombros. ― Alex, o que aconteceu exatamente quando fui sequestrada? ― Olhe, vê aquele ponto mais alto de terra? ― Aponto Alex para uma região distante, ainda em Vrisan. ― Bem naquele canto há um rio de fogo. ― Como lava de vulcão? ― Sim. Foi lá que a deusa traída padeceu. ― Que deusa é essa? Não só viveram dois deuses aqui? ― Ela não viveu aqui. Apenas caiu nesse mundo, ela não era linda como todas as outras deusas. Tampouco poderosa como as demais, sua única habilidade era descobrir a maldade, a mentira e a deslealdade de quem quer que fosse com apenas um olhar para o coração. Nenhum dos outros deuses conseguia saber o que passava no coração dos humanos, mas Mastani sempre sabia e era grandiosa por isso. Ela tinha-os na palma da mão. ― Elisie se voltou para ele, capturada pela curiosidade. Alex olhou nos seus olhos por um instante, porém o coração começou a dar sinais, então desviou, dando um passo para trás. ― Vamos conversar lá dentro. ― Ela seguiu-o até a cabine. Se sentou na grande cama com almofadas ao redor, ele fez o mesmo, parecia exausto. Elisie aguardou, ele apenas apoiou a cabeça nas almofadas e suspirou, antes de prosseguir: ― Mastani caiu na terra ao tomar vinho do fogo. Não pergunte o que é vinho do fogo, não faço a menor ideia. É algo que só diz respeito aos deuses. Enfim, ela tomou-o e enfraqueceu-se e ao voltar para seu palácio, tropeçou e caiu aqui. ― É tão inacreditável, que começo a pensar que você está inventando essa estória. ― Elisie soltou uma risadinha, Alex a acompanhou, envergonhado. ― Não, não sou bom inventando estórias. ― Continue, ela caiu na terra e o que aconteceu depois? ― Enquanto esperava se recuperar, fez alguns serviços para as pessoas daquele tempo. Resolvia problemas dos mais graves aos mais leves. Até que Zarus ouviu que a deusa Mastani arrebatara o coração de quase todos os humanos. Ele contratou um caçador de monstros, porém ele sabia que ela ao ver o coração do caçador, a deusa descobriria os seus planos malignos. Por conta disso, Zarus arrancou uma flor do penhasco de Evi. ― Uma flor do penhasco de Evi? Nunca ouvi falar sobre isso. ― É o lugar onde nasciam as flores com o poder de Tempo. Enfim, Zarus colocou ela na frente do coração do caçador e a queimou, criando na pele uma cicatriz na forma de uma flor. E esse se aproximou da deusa. Ela achou curioso, como o coração dele era puro e não possuía nenhum traço de maldade. Ela amou-o por isso. Quem não amaria alguém diferente de todas as pessoas maldosas que já passaram por seu caminho? Mastani nunca confiava nas pessoas, nunca buscou por amor, pois sabia que um dia ele se esgotaria. E ela seria a primeira a sair ferida. ― É um amor trágico. Por que você sempre me conta amores trágicos? O meu já é trágico o suficiente. ― Você quem insistiu para eu contar. ― Sim, mas... devia ter me preparado primeiro. ― Brigou, mas aquela estória não a afetara de forma alguma. Acomodou a cabeça numa almofada, Alex a encarou, levou uma mão para colocar os fios de cabelo de Elisie atrás da orelha, os seus olhos encontraram-se. ― Seus olhos parecem guardar um segredo. ― Disse ela, tranquila. ― Muitos. ― Se mudarmos o destino, você poderá ser feliz no futuro. ― Poderei? ― Claro que poderá. ― Ele inclinou-se, aproximando-se dela, ela encolheu-se, desconfortável. Alex beijou a sua testa. ― Sim, poderei. *** Cinco dias depois, o navio atracou no porto de Saranta. Elisie observou toda a extensão daquele desconhecido continente. Analisou as montanhas enormes, as árvores de formatos incomuns. O calor agradável a fez se desfazer das grossas camadas de roupa. ― Aqui é o ponto final da nossa busca. ― Não diga coisas assim, Elisie. Dão azar. ― Não me importa. Trouxe as coordenadas? E os mapas? ― Alex mostrou o baú nas mãos do criado, Briana se aproximou. ― Majestade. ― Briana, me chame de Elisie. É incomodo ser chamada assim num lugar aonde não sou nada além de uma estrangeira. ― Certo, Elisie, aqui todos sabem onde fica o vulcão. Não é necessário todo esse preparo. O que será complicado é encontrar o filho deformado. Até então é um mito, como todos os outros. ― Isso lembra-me de algo, quando libertamos você do poço, como sabia que os filhos deformados ainda vivem? ― Às vezes as coisas surgem na minha memória, também consigo sentir o coração dos dois batendo e também da minha filha. ― Briana riu achando bizarro falar aquilo. Elisie e Alex a encaram perplexos, aguardando uma explicação, ela continuou sombria: ― Realmente não possuo as memórias, mas sinto o coração dela batendo, sinto a sua ligação comigo, sinto que sou sua mãe. Assim como sinto que sou tia dos filhos deformados. ― Sua filha, ela não aparece na história, nem sabia que existia. ― Elisie encarou Alex que parecia curioso pela nova descoberta, uma semideusa ainda vivia sobre a terra, e o mundo inteiro não tinha conhecimento. Ela também estava curiosa para descobrir quem seria essa semideusa. ― Devemos ir, há um longo caminho até o vulcão. ― Apressou, agarrando a mão estendida do guarda para descer na estreita tábua do navio, olhou para o mar atrás de si, uma longa faixa de água a separava de Florkya, embora no mapa Saranta fosse tão próximo de Florkya, olhando ninguém imaginária que poucas horas a mais, poderia pisar naquelas terras amaldiçoadas. Os servos retiraram a carruagem de dentro do navio, dando para o resto da viagem um confortável momento. As passagens dos dias foram tranquilas, paravam em determinada hora do dia para comer e alimentar os cavalos, durante a noite paravam em algum local com rio, assim os animais poderiam comer e beber à vontade. Elisie pensou até que os dias passavam estranhamente rápidos. ― Alex? Está acordado? ― Ele virou-se para encara-la, estavam enrolados cada um nos seus sacos de dormir. ― Você pensa que eles conseguem ressuscitar o Dixon? ― Eu... Não crie esperanças, eles podem não conseguir, ou podem. Só quando chegarmos lá é que teremos certeza de algo. ― Eu sou feliz de ter encontrado um amigo como você. Desculpa pelas coisas que lhe fiz passar nesses três anos. Sem Dixon, e descobrindo os segredos do meu pai, tudo isso deixou-me perversa. ― Não vamos pensar nessas coisas. Volte a dormir, amanhã chegaremos no vulcão. Nenhum dos dois conseguiu dormir, ficaram em silêncio olhando o céu. Fazia três anos que não viam um céu estrelado daquele jeito, e muito menos sentiam o aroma das plantas da primavera. Alex olhou de soslaio para Elisie, havia no canto dos seus lábios um discreto sorriso, ela continuava a nutrir esperanças de reviver o seu único amor. Ele suspirou, desejando que ela não se afundasse novamente em amargura. *** ― Lá está. Majestades, conseguimos sentir uma forte magia emanando daquele vulcão. ― Falou um dos bruxos que os acompanhavam. ― Obrigada, daqui só o rei e Briana irão comigo. ― Mas majestade. ― Não se preocupe, estaremos bem. Fiquem aqui, descansem um pouco. ― Elisie amarrou os cabelos, puxou o vestido até que ficassem nos joelhos. E encarou as calças marrons colada nas suas pernas, satisfeita. ― Querido. ― Chamou, pegando Alex de surpresa. O rosto dele foi banhado por rubro. ― Venha, vamos mudar os nossos destinos. ― Ele pegou a mão dela estendida e começaram a escalar com dificuldade. A bruxa usava uma vez ou outra magia para aliviar o cansaço e para que o caminho ficasse menor. ― Finalmente chegamos. ― Disse Elisie largando a mão de Alexyan. Só mais alguns passos e estariam na boca do vulcão. O calor era a única coisa que ajudava Elisie a acreditar que não sonhava. Deu um passo para dentro, os seus olhos foram tomados por uma imensidão de laranja brilhante. Arfou. ― Briana, como faço para chamar o filho deformado? ― A bruxa encarou a enorme piscina de lava borbulhante, não soube responder. Elisie deu um passo hesitante para mais perto do calor. ― Criança que foi lançado no vulcão por seu próprio pai, por favor, apareça e ajude-me. ― Por que devo ajudá-la? ― Respondeu uma voz infantil e doce. Eles viraram-se, o filho deformado não possuía nada de deformado, era um garotinho do tamanho de Jeremy, usando uma túnica branca maior do que ele. ― Você é um dos filhos deformados? ― Sim. Mas não sou deformado, o deus da beleza deu-me beleza devido ao meu coração puro. Agora diga o que quer? Ninguém vem aqui só para conversar. ― Soube que você e a sua irmã possuem poções poderosas. Uma que faz lembrar-nos das nossas vidas passadas. Se há uma poção para se lembrar de algo como isso, deve existir uma que faz alguém reviver, não é? ― Sim, há. ― Então peço que reviva o meu marido. ― A criança meteu a mão na lava e retirou um pequeno frasco de vidro contendo um líquido dourado. ― Coloque na boca dele. ― Elisie encarou Briana e Alex desesperada. ― Desculpe, ele... ele morreu três anos atrás. ― Respondeu Alex. ― Ah! Então não é possível revivê-lo. Sua alma já seguiu para o mundo dos mortos. Talvez já deva ter sido apagada e enviada para outro corpo. ― Elisie caiu no chão, sem forças para gritar. ― Não há nada que você possa fazer? Nada que nos ajude a ter... a ter o Leican de volta? ― A criança ficou em silêncio por um longo instante, até que sorriu satisfeito. ― Sim, tem uma. Vocês só querem ter ele de volta vivo, não é? ― Sim. ― Bem, posso levá-los para o passado. Um passado antes da sua morte. ― Pode nos mandar para um passado onde não existíamos? Um passado muito distante? ― Sim, posso. Mas tudo o que fizerem lá afetará o futuro, crianças podem nunca nascer. Os pais de vocês também podem nunca se encontrar. Estão bem com isso? ― Estamos. ― Briana encarou os reis como se eles fossem loucos, porém não disse nada. ― Ele não se lembrará de você. Tudo bem com isso? ― Elisie concordou. ― Quantos anos no passado? ― Trinta e três anos atrás. ― Respondeu Elisie, apressada. O filho deformado mordeu o próprio dedo e jogou duas gotas do seu sangue na lava do vulcão, aos poucos um pequeno círculo semelhante à água formou-se no meio da lava. Exibia uma estrada de terra, com árvores avermelhadas em pleno outono. ― Assim que pularem aqui o corpo de vocês sumirá e a alma voltará para seus corpos passados, se vocês viveram nessa época. Por isso não se assustem se tiverem uma aparência diferente. ― E para voltar? ― Quando estiverem satisfeitos com a mudança que fizeram, só precisam derramar isso. ― Ele entregou um frasco com líquido vermelho sangue. Elisie o guardou e agarrando a mão de Alex, se aproximaram do círculo de água. Briana deu um passo. ― E eu? Devo ir... ou ficar? ― Menininha, se ficar aqui, quando eles voltarem você voltará para onde estava, e nunca terá conhecido eles. ― O rosto de Briana ficou pálido, abraçou o próprio corpo se lembrando da frieza do poço. Correu até Elisie e a abraçou. ― Por favor, cuide de mim. ― Pediu choramingando. Elisie nada disse, apenas apertou a mão de ambos e aproximou-se mais, deu uma última olhada para o filho deformado, agradeceu e pulou.
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