Diversas mulheres, desde as mais jovens até as mais velhas usavam túnicas brancas com grossos colares dourados e pulseiras de opalas brancas.
Não sorriam, nem olhavam demoradamente para ninguém. Apenas rezavam quietas ajoelhadas no jardim. O som não era permitido ali, quem ousasse corromper o templo com barulho era disciplinado.
Elisie mexeu no colar no seu pescoço, o peso dele causava desconforto na sua pele nua. E as bolhas avermelhadas que tinha ao redor do pescoço ardiam em contato com o ouro, porém, não podia tirar o colar.
― Majestades, e senhorita, sentem-se ao ar livre do nosso templo, e peçam perdão ao deus tempo e a todos os outros. Implorem para darem fim a esse inverno que está matando o mundo.
A rainha sentou-se na grama verde, próxima de uma suntuosa roseira amarela, não conseguiu conter o choro que explodiu minutos depois, ela devia pedido aos bruxos que fizessem o jardim do Cordial florescer novamente, devia fazer nascer as ervinhas de cheiro, fazer o perfume alagar todo o castelo.
― Elisie, por favor, se acalme. Você incomoda as sacerdotisas ― Alex a abraçou apertado, abafando o seu choro convulso no seu peito.
― Ele ama o seu jardim...
― Sim, sim... e ainda ama, sei que ama, em qualquer lugar que esteja.
― Alex, quero vê-lo, quero apenas vê-lo e... não esquecer o seu rosto, seus olhos, seus cabelos loiros que me lembravam do pôr do sol. Quero vê-lo. ― Alex deu palmadinhas nas costas dela, aos poucos Elisie foi se acalmando, limpou as lágrimas do rosto, encarou a rosa por um instante e suspirou.
― Desculpe. ― Sussurrou para todas as sacerdotisas que haviam parado de rezar e observavam preocupadas. Depois daquela cena, Alex se perguntou infinitas vezes se o que estavam prestes a fazer era certo.
Elisie não gostava dos deuses, eles eram cruéis e como a feiticeira havia dito, eles não se importavam nenhum pouco com humanos que surgiram do coração do deus tempo, ele morreu, e do seu grande poder nasceu a vida humana. Todos que viviam na terra eram filhos do deus tempo, eram filhos de um deus morto.
Se não fosse pelos deuses transformarem o coração morto de Tempo no jardim para seus filhos Bruxins e Zarus, a vida que nasceu do poder de Tempo, não sobreviveria, e isso sim, os humanos deviam aos deuses.
Elisie encarou Briana rezando ajoelhada ao seu lado, o tecido branco e o colar de ouro intensificavam a sua beleza incomum, mesmo desnutrida e com aranhões no rosto a deusa transformada em bruxa era perfeita.
Era injusto, Elisie achava aquilo tão injusto, que desejava lançar a sua adaga contra a garganta daquela maldita bruxa, se pelo menos tivesse aparecido antes que fossem para aquele outro continente, antes de sofrerem naquele lugar contaminado com todos os tipos de criatura dos bruxos. Se tivesse sido assim, Dixon ainda viveria, a criança que carregava em ventre chegaria a nascer e ter um nome. Alex tocou no seu ombro.
― Acabou, vamos.
― Já se passou três horas?
― Sim, Elisie. Estava perdida em pensamentos como sempre? ― Ela assentiu olhando para a rosa. Alex agarrou o seu rosto com as duas mãos. Os olhos dele penetraram na sua alma naquele instante, como se recarregasse as suas energias. ― Aguente só um pouco mais. Não se destrua ainda, meu a... querida. Quando acharmos os filhos deformados, você... você escolherá o seu destino.
― Ele passou limpou as lágrimas que caiam do rosto dela com o seu polegar, beijou a sua testa demoradamente e então praticamente correu para dentro do templo, os olhos já ardiam prendendo as suas próprias lágrimas, bateu no peito repetindo para si mesmo preciso parar de amá-la, preciso definitivamente parar de amá-la.
***
― Senhorita? ― Chamou o sacerdote atrás de Briana.
― Que?
― A senhorita é... é a bruxa, não é? É a reencarnação da nossa deusa?
― Sou metade dela. Mas não precisa beijar a minha mão, nem ousar prender-me aqui para eu realizar todos os seus desejos. Estou com o rei e com a rainha de Darkeng, por consequência disso, devo ir aonde eles forem.
― É a primeira vez em todos esses anos que uma reencarnação da deusa, uma bruxa aparece no templo. Porquê? ― Ele parou para limpar o suor da testa, antes de continuar. ― Se vier ao templo sempre será bem recebia e terá todos nós como servos. Não entendo por que sempre se esconde e faz a sua existência parecer uma invenção.
Briana encostou a sua cabeça na janela, observando a rainha sentada sozinha no corredor do primeiro andar.
― Senhor, você gostaria de saber que é alguém que foi traído por seu único irmão, e que de um ser imortal perfeito, foi condenado a morrer e renascer como todos os seres humanos, perdendo o que os deuses mais prezam? A memória?
― Vir aqui te faz sentir miserável? Não vê que todos aqui só desejam que um dia possa se tornar novamente a deusa que lutou por livrar os humanos das mãos do seu maligno irmão?
Briana Suspirou, era impossível voltar a ser deusa, e mesmo que fosse, ela só queria as suas memórias de volta, viver sem lembrar das coisas que viveu e fez era sufocante, era diferente dos humanos, a alma de deusa fazia-a sentir uma necessidade insuportável de ter as suas memórias.
E iria ter, ao ouvir o rei e a rainha de Darkeng conversando sobre os filhos deformados, tomara uma decisão, iria atrás deles com os reis, pediria por suas memórias de volta. Briana deu as costas para o sacerdote que falava sem parar os benefícios que ela teria vivendo no templo, e seguiu até Elisie.
― Por que me salvou? Duas vezes? ― Foi direto ao ponto, Elisie a encarou com a face inexpressiva.
― O que?
― Por que você me salvou lá na estrada?
― Você é a bruxa.
― Então você quer que eu faça algo para você?
― Não mais. ― Briana se sentou ao lado da rainha.
― O que era? Quebrar a maldição de alguém? Não é? Eu lembro que você disse algo sobre maldição, quando me libertou do poço.
― Sim, a maldição do meu marido.
― O rei Alexyan tem uma maldição?
― Meu primeiro marido. Não precisa fazer essa expressão de incredulidade, eu realmente casei duas vezes, por inacreditável que pareça.
― O rei Alexyan é um homem admirável, não são todos que aceitam casar com uma viúva. É quase um crime casar com viúvas. ― Ela falou um pouco mais baixo, temendo que uma das sacerdotisas que andavam pelo templo pudesse ouvir.
― Para alguém que viveu num poço a vida inteira, você é bem informada sobre as regras sociais.
― Eu sou a bruxa, posso ouvir conversas até em outro reino com apenas um estalar de dedos.
― O que mais sabe fazer? Reviver os mortos... voltar ao passado?
― Não sei, mas já que sou apenas metade da bruxa, provavelmente não. ― Elisie se levantou.
― Vá para seu quarto, amanhã iremos para Saranta.
― Ao filho deformado que está no vulcão... ― Completou a bruxa, sentindo um medo incompreensível arrastando-se por sua nuca.
Na manhã seguinte, quando alguns dos guardas dos reis arrumavam as carruagens, o sacerdote acercou-se de Elisie, por um instante seu olhar bondoso deu espaço para desprezo.
― Majestade, não suspeita que a razão desse inverno eterno seja a desordem que causou ao casar novamente?
― Não há nenhum livro que impeça um segundo matrimônio. Ou tem?
― Nem todas as coisas impróprias precisam ser escritas para serem proibidas. ― Os lábios de Elisie se curvaram, carregados de indiferença.
― Reze. Reze para os deuses e peça que me perdoem por casar novamente. Adeus. ― O guarda a ajudou a subir na carruagem. Apenas Briana já estava sentada no seu lugar. Olhava pela janela, a mão segurando o queixo, pensativa.
― Também fugiu daquele sacerdote? ― Perguntou sem desviar a sua atenção da imagem na janela. Elisie se sentou.
― Detesto esses tipos de pessoas.
― Me admira muito, a senhora, majestade, falar isso. Não é no castelo o covil de todas as pessoas desse tipo?
― Sim, sorte a minha que o meu primeiro marido se livrou de quase todos da corte.
― Um castelo sem corte. Parece interessante.
― Não é, há uma infinita lista de trabalho. ― Briana resmungou um entendo, distraída. Elisie se aproximou da janela para ver o que a bruxa mirava com intensidade. O altar da deusa Bruxyns carregado de flores.
― O que sente quando vê isso?
― Nojo.
Alexyan entrou na carruagem resmungando sobre o longo caminho que teriam até Saranta.
Nojo, essa palavra incomodou Elisie todo o caminho, iam os três em silêncio, cada um enfrentando os seus demônios.
O céu brilhava num azul que Elisie nunca mais havia visto, e todo o campo estava coberto de grama e pequenas florezinhas que nasciam sem ninguém ter plantando. O vento não causava calafrio na pele, pareciam beijos calorosos.
― Elisie! ― Gritou ele, debaixo da cerejeira, os seus cabelos loiros dançavam para lá e para cá pela força do vento, as flores se prendiam aos fios por um tempo, mas logo caiam aos seus pés delicadas. Ele acenou novamente, dessa vez abriu um enorme sorriso.
― Elisie, venha, veja aqui dá para ver todo o reino e o rio.
― Dixon... ― Elisie se jogou nos seus braços, ele recebeu-a surpreso.
― Por que você está chorando? Pensei que gostaria desse lugar...
― Sinto a sua falta.
― Eu estou aqui, pare de chorar.
― Eu te amo. ― Ele parou de dar batidinhas nas costas dela, os olhos dilataram-se, a respiração tomou um rumo diferente. Ela repetiu analisando seu rosto. Porém, aos poucos Dixon foi se transformando num homem sem rosto, os olhos foram borrados, o sorriso sumiu e no fim, era só um corpo sem rosto.
― Dixon! ― Ela gritou abrindo os olhos, Alex segurava nos seus braços, o seu rosto estava pálido, Briana também a encarava muito perto. ― O que... o que aconteceu?
― Você não acordava, apenas chorava e gritava sem parar. ― Ela levou a mão ao rosto, estava encharcado.
― D-desculpa, eu preocupei vocês.
― Penso que devemos desistir disso. Você está criando esperanças. Não se pode reviver os mortos, pensei que tudo isso iria ajudar você e... Mas pelo que vejo você está pior.
― Não, Alex, por favor. Deixe-me tentar encontrá-lo. ― Ele suspirou, colocou a cabeça para fora da janela avisando o cocheiro que continuasse a viagem. A carruagem voltou a se mover.
O navio os aguardava ancorado no porto, exalando a sua grandiosidade com arrogância. Elisie engoliu em seco, foi em um navio que recebeu as duas notícias mais horríveis da sua vida. Apertou o pescoço, juntando coragem para subir a bordo.