A Primeira Verdade

487 Palavras
A noite havia caído, e com ela veio a coragem. Natasha havia passado o dia tentando organizar os sentimentos. Henri — sim, agora ela já conseguia pensar nele assim — parecia carregar um mundo nos olhos. Ela precisava saber mais. Mesmo que doesse. Ela o encontrou novamente no jardim da D.O.L, o lugar onde tudo parecia se conectar. — Você voltou. — disse ele, sem surpresa. — Eu precisava. Henri largou a mangueira de água e limpou as mãos num pano. — Sente-se. Ela obedeceu. O banco de pedra estava frio, mas seu coração estava quente demais para sentir. Silêncio. Até que Natasha falou: — Eu lembro do seu sorriso. Não do seu rosto. Nem da sua voz completa. Mas... do seu sorriso. Henri sorriu. O mesmo sorriso. — Você sempre dizia isso. Que meu sorriso era sua parte preferida. — E por que ninguém fala de você? Por que meu pai, Amy... todos parecem esconder você como se fosse um segredo? Henri abaixou a cabeça. Seus ombros pesaram. — Porque foi um acordo. — Acordo? Ele respirou fundo. — Quando você sofreu o acidente, sua mente... se apagou. E com ela, as lembranças de mim. Seu pai me procurou. Disse que era melhor assim. Que o trauma havia sido muito maior do que todos sabiam. E que, talvez, me afastar... fosse a única forma de permitir que você se curasse. Ela o encarava com olhos arregalados. — Ele te pediu pra sumir da minha vida? — Ele me pediu pra esperar. Sem forçar sua memória. Sem interferir. Sem reaparecer como um fantasma. — E você aceitou?! — Eu aceitei... porque prometi que estaria com você. Mesmo que fosse de longe. Mesmo que você não lembrasse. Mesmo que me odiasse quando descobrisse. Ela sentiu os olhos arderem. — Você foi embora. E eu fiquei quebrada. — Você ficou viva. E isso foi mais importante do que qualquer promessa. O silêncio caiu novamente. Mas agora havia um peso nele. Um peso antigo. Natasha se levantou e caminhou alguns passos para longe. Olhou para o céu noturno. — Você sabia que eu tinha perdido a memória. E mesmo assim... entrou na minha vida de novo como vice-presidente da empresa? — Era a única forma de ficar perto sem violar o acordo. Ela virou-se. — Mas por quê? Por que você ficou? Henri hesitou. Depois, respondeu com a voz baixa, mas firme: — Porque eu te amei antes do acidente. E continuo amando agora. Mesmo que você não se lembre. Mesmo que nunca lembre. Mesmo que tudo o que reste de mim em você... seja um sorriso. Natasha voltou para casa com o coração em pedaços. Ela abriu o diário de novo. Leu cada linha que ele havia escrito antes do acidente. E então, pegou uma caneta. Na última página, escreveu: "Eu não lembro de você, Henri. Mas hoje... meu coração doeu por você. E isso já é um começo."
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