A noite havia caído, e com ela veio a coragem.
Natasha havia passado o dia tentando organizar os sentimentos. Henri — sim, agora ela já conseguia pensar nele assim — parecia carregar um mundo nos olhos. Ela precisava saber mais. Mesmo que doesse.
Ela o encontrou novamente no jardim da D.O.L, o lugar onde tudo parecia se conectar.
— Você voltou. — disse ele, sem surpresa.
— Eu precisava.
Henri largou a mangueira de água e limpou as mãos num pano.
— Sente-se.
Ela obedeceu. O banco de pedra estava frio, mas seu coração estava quente demais para sentir.
Silêncio.
Até que Natasha falou:
— Eu lembro do seu sorriso. Não do seu rosto. Nem da sua voz completa. Mas... do seu sorriso.
Henri sorriu. O mesmo sorriso.
— Você sempre dizia isso. Que meu sorriso era sua parte preferida.
— E por que ninguém fala de você? Por que meu pai, Amy... todos parecem esconder você como se fosse um segredo?
Henri abaixou a cabeça. Seus ombros pesaram.
— Porque foi um acordo.
— Acordo?
Ele respirou fundo.
— Quando você sofreu o acidente, sua mente... se apagou. E com ela, as lembranças de mim. Seu pai me procurou. Disse que era melhor assim. Que o trauma havia sido muito maior do que todos sabiam. E que, talvez, me afastar... fosse a única forma de permitir que você se curasse.
Ela o encarava com olhos arregalados.
— Ele te pediu pra sumir da minha vida?
— Ele me pediu pra esperar. Sem forçar sua memória. Sem interferir. Sem reaparecer como um fantasma.
— E você aceitou?!
— Eu aceitei... porque prometi que estaria com você. Mesmo que fosse de longe. Mesmo que você não lembrasse. Mesmo que me odiasse quando descobrisse.
Ela sentiu os olhos arderem.
— Você foi embora. E eu fiquei quebrada.
— Você ficou viva. E isso foi mais importante do que qualquer promessa.
O silêncio caiu novamente. Mas agora havia um peso nele. Um peso antigo.
Natasha se levantou e caminhou alguns passos para longe. Olhou para o céu noturno.
— Você sabia que eu tinha perdido a memória. E mesmo assim... entrou na minha vida de novo como vice-presidente da empresa?
— Era a única forma de ficar perto sem violar o acordo.
Ela virou-se.
— Mas por quê? Por que você ficou?
Henri hesitou. Depois, respondeu com a voz baixa, mas firme:
— Porque eu te amei antes do acidente. E continuo amando agora. Mesmo que você não se lembre. Mesmo que nunca lembre. Mesmo que tudo o que reste de mim em você... seja um sorriso.
Natasha voltou para casa com o coração em pedaços.
Ela abriu o diário de novo. Leu cada linha que ele havia escrito antes do acidente. E então, pegou uma caneta.
Na última página, escreveu:
"Eu não lembro de você, Henri. Mas hoje... meu coração doeu por você. E isso já é um começo."