O Nome Que Ninguém Diz

588 Palavras
O dia amanheceu diferente. Não era o sol, nem o clima. Era ela. Natasha acordou com algo dentro de si que não conseguia explicar. Uma inquietação. Um chamado. O sonho da noite anterior ainda ecoava em sua mente como um segredo sussurrado: "Antes que eu te esqueça..." Mas o que mais a assombrava não era a frase. Era o sorriso. Era ele. E agora, mais do que nunca, ela precisava de respostas. — Pai, posso te perguntar uma coisa? — disse Natasha na mesa do café. O Sr. Lee ergueu os olhos do tablet, claramente surpreso com o tom direto da filha. — Claro, querida. — Você conheceu alguém chamado Henri? O silêncio que se seguiu foi revelador demais. Ele recostou-se na cadeira e desviou o olhar. — Henri...? — repetiu, como se buscasse tempo para montar uma resposta. — Sim. Henri. Eu sonhei com ele. E... acho que o conhecia antes do acidente. Seu pai pigarreou. — Você está confundindo. Deve ser influência de filmes, livros... seus sonhos andam mexendo com você. — Pai, não me trata como uma criança. Você sabe de algo. E por alguma razão, não quer me contar. Por quê? Ele permaneceu em silêncio por mais alguns segundos antes de se levantar, dobrando o guardanapo. — Algumas memórias voltam quando estamos prontos para enfrentá-las. E quando isso acontecer, eu estarei aqui. E saiu da cozinha. Mais tarde naquele dia, Natasha caminhava com Amy pelos corredores da D.O.L, ainda tentando absorver a estranha evasiva de seu pai. — Amy, preciso saber a verdade. Você já ouviu falar de alguém chamado Henri? Amy hesitou. Foi sutil. Mas Natasha percebeu. — Henri...? — disse Amy, tentando parecer desinteressada. — Não que eu lembre. Era algum professor? Aluno? — Não sei. Só sei que o nome aparece no meu diário. E nos meus sonhos. E que ontem à noite... eu o vi. Amy parou. — Viu? — O sorriso dele, Amy. Eu reconheci. — Reconheceu como? — a voz de Amy vacilou. — Porque é o mesmo sorriso do Enrique. — disse Natasha com firmeza. Silêncio. Amy desviou o olhar. A respiração pesada. — Se você sabe de alguma coisa, me diz. Por favor. Amy fechou os olhos por um segundo, depois respondeu: — Natasha... às vezes, não contar é a única forma que a gente encontra de proteger alguém que ama. Natasha sentiu o coração afundar. — Então você sabe. Amy não confirmou. Mas também não negou. Mais tarde, no final da tarde, Natasha encontrou Enrique no jardim da empresa. O mesmo lugar do sonho, da primeira frase, do silêncio entre dois tempos. Ele estava regando os girassóis. — Henri. — disse ela, sem querer. Ele parou. Devagar, se virou. — O que disse? Ela sentiu o ar sumir dos pulmões. — Nada. Me... confundi. Ele caminhou até ela, sério, mas gentil. — Você disse... Henri. — Sim. Porque é esse o nome que aparece em tudo que meu coração tenta me mostrar. — E o que você quer saber? — Se é você. — sussurrou. — Se você é ele. Ele segurou o colar que usava e olhou nos olhos dela. — Você está começando a lembrar, Natasha. Mas ainda não está pronta para tudo. — Você está dizendo que... é mesmo ele? — Estou dizendo que... estou aqui. Como prometi que estaria.  Ele não disse “sim”. Mas também não disse “não”. E, no fundo, ela sabia que só existia uma verdade. Mesmo que ninguém dissesse seu nome.
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