A noite chegou mais cedo do que Natasha esperava. Depois da visita tensa com Bryan, ela se recolheu em silêncio.
O diário permanecia ao lado da cama, como se fosse uma extensão de si mesma. O colar de girassol, agora limpo e reluzente, repousava sobre o criado-mudo. Ela não queria mais deixá-lo escondido. Algo dizia que ele era uma chave — não só para memórias, mas para algo maior.
Naquela noite, antes de dormir, ela orou baixinho.
— Deus... se ainda há algo que eu preciso lembrar, me mostra. Só... me mostra.
O sonho começou com o som do vento.
Natasha caminhava por um corredor de vidro. À esquerda, um jardim de girassóis; à direita, um céu acinzentado prestes a chover.
Ela não sabia para onde ia, mas continuava andando. Os passos não doíam, e ela sentia uma leveza estranha — como se não estivesse apenas sonhando, mas... revivendo.
Lá ao fundo, no fim do corredor, havia uma porta de madeira. Quando ela a empurrou, a cena mudou completamente.
Agora, estavam num terraço amplo, cercado por luzes suspensas, com uma vista panorâmica da cidade. Era fim de tarde. Um piano branco no canto tocava uma melodia suave, sozinho, como se lembrasse dela.
E então, ela o viu.
Ele estava de costas, com as mãos no bolso, observando o horizonte.
Ela se aproximou devagar. O coração batia mais forte a cada passo.
Quando ele se virou, ela o viu.
O sorriso.
Simples.
Calmo.
Sincero.
Aquele sorriso que, mesmo sem lembrar, ela sempre sentiu falta.
Ele não disse seu nome. Não disse "lembra de mim?". Apenas sorriu, como quem esperava por ela há anos, em silêncio.
— Você veio. — ele disse, a voz firme e gentil.
— Você é real? — ela perguntou, as palavras saindo como vapor.
— Mais do que você imagina.
— Quem é você...? — ela quis saber, mesmo já pressentindo a resposta.
Ele não respondeu. Apenas estendeu a mão.
E quando ela a segurou, uma enxurrada de lembranças a invadiu em segundos:
Gargalhadas no corredor da D.O.L, um beijo tímido no jardim, ele colocando o colar em seu pescoço.
E a promessa sussurrada ao ouvido:
"Se algum dia você esquecer... antes que eu te esqueça, eu volto pra te lembrar."
Natasha acordou ofegante, com os olhos úmidos.
Olhou para o teto por longos segundos, tentando processar o que acabara de viver.
Ela não viu o rosto.
Mas o sorriso... aquele sorriso... ela já tinha visto em algum lugar.
Ela se levantou de um salto, correu até a prateleira e pegou a foto da entrevista na D.O.L — uma imagem em que ela e Enrique apareciam lado a lado, sorrindo para os repórteres.
E então soube.
— É o mesmo sorriso.