capitulo 8 Maestro

735 Palavras
Ele se levantou, a cadeira arrastando com um guincho agudo que pareceu um grito de dor da própria casa. Ele era mais alto, sua sombra tentava me diminuir como sempre fez desde a minha infância, mas desta vez eu permaneci imóvel, uma rocha. Eu não era mais a menina que apanhava em silêncio. — Se você não aceita as minhas regras de santidade, o mundo lá fora está esperando por você e por aquele bastardo — ele disse, com o olhar destilando ódio puro. — "Bastardo"? — Repeti a palavra com um desprezo que o fez recuar um passo imperceptível. — Esse menino tem mais luz e verdade na ponta do dedo do que o senhor terá em toda a sua eternidade de hipocrisia. E não, Silas, eu não vou embora agora para te dar o prazer do silêncio. Eu vou ficar aqui, nesta casa que também era da minha mãe, e vou olhar na sua cara todos os dias para lembrar ao senhor o monstro que se esconde atrás desse terno. O senhor vai ter que conviver com a verdade que tanto tenta enterrar. Ele levantou a mão, a palma aberta, o rosto vermelho de fúria, pronto para me calar através da violência física, o seu último recurso. Eu não pisquei. Não recuei um milímetro. Ofereci o rosto, o olhar fixo e desafiador, convidando o covarde a completar o serviço diante da luz do dia. — Bate — eu disse, a voz fria como o interior de um necrotério. — Bate agora. Mostra para todo mundo que o grande Pastor Silas resolve seus problemas na agressão porque não tem caráter para ouvir a verdade. Mas saiba de uma coisa: se encostar um dedo em mim ou no meu filho, eu vou ao púlpito da sua igreja, na hora do culto lotado, e conto para cada um daqueles fiéis que o pastor deles defende o aborto e agride a própria filha pelas costas. Eu vou destruir a única coisa que o senhor realmente ama nesta vida: a sua imagem de santo. A mão dele tremeu no ar e baixou lentamente, derrotada pela minha determinação. O silêncio que se instalou foi pesado, carregado de uma repulsa mútua e definitiva. — Você é uma maldição na minha vida — ele sibilou, voltando a se sentar, mas a sua aura de poder estava em frangalhos, reduzida a pó. — Não, Silas. Eu sou a sua consciência cobrando a conta. E a partir de hoje, eu sou a única dona do meu destino. Eu vou trabalhar, vou cuidar do meu filho e vou transformar esta casa no purgatório particular do seu orgulho. O senhor prega sobre o inferno para os outros, mas é aqui, nesta mesa, que o senhor vai descobrir o que ele realmente significa. Saí da cozinha sem olhar para trás, sentindo o peso de toneladas de culpa imposta saindo das minhas costas. Eu não precisava fugir para ser livre; a liberdade estava na minha capacidade de encarar o carrasco e fazê-lo tremer. Voltei para o quarto e encontrei Samuel sentado na cama, abraçado à sua mochila gasta, com os olhos arregalados de quem ouviu o estrondo da batalha. — A gente vai embora, mamãe? O vovô está bravo? — ele perguntou, a vozinha trêmula. Eu me ajoelhei na frente dele e peguei suas mãos pequenas nas minhas. Sorri, um sorriso real, carregado de uma força ancestral que eu nunca soube que possuía. — Não hoje, meu pequeno guerreiro. Hoje a gente vai ficar e ocupar o que é nosso. Mas as coisas mudaram para sempre. Ninguém mais vai te fazer sentir pequeno nesta casa. A mamãe é uma leoa, lembra? E as leoas não fogem. Elas protegem o território e os seus. Eu o apertei forte contra mim. O sol de Porto n***o finalmente conseguia vencer a fresta da janela, mas a luz de verdade estava emanando de dentro de mim. Eu ia lutar. Eu ia entrar naquelas grades da Segurança Máxima amanhã, ia encarar os monstros de uniforme e os de terno, ia juntar cada centavo e garantir que o Samuel nunca mais tivesse que buscar afeto em um deserto de gelo. Eu estava pronta para o abismo, porque o abismo que eu vivia em casa já não podia mais me assustar. Silas tinha me quebrado tantas vezes que, no fim, ele acabou me reconstruindo como aço. E o aço não dobra. O aço corta.
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