Capitulo 13 continuação

1877 Palavras
(NARRADO POR: ROCCO FALCÃO) — Quero nada não, mestre! — Falei pro Pastor Silas, dando aquele tapinha camarada no ombro dele, sentindo o tecido do terno dele que devia ser sintético de quinta categoria, mas engomado com a soberba de quem se acha santo. — É que ouvi muito falar de vocês lá pelas bandas onde eu circulo, sabe? Dizem que a família Vaz tem uma "pegada" forte, uma disciplina de dar inveja. Já tava de saída, só vim conferir se o teclado era afinado mesmo. Nota oito, pastor! O músico tá precisando de umas aulas com o meu irmão, que é mestre em regência, mas o resto tá padrão. Fui dando aqueles passos pra trás, já mirando a porta e a liberdade do meu possante importado que brilhava lá fora, mas o Silas foi mais rápido que um bote de cascavel. Ele me grampeou pelo braço com uma força que eu não sabia que velho crente tinha, os dedos dele pareciam tenazes de ferro cravando na minha jaqueta de couro. — Hoje é o seu dia, meu jovem! — Ele soltou, com aquela voz de trovão ensaiado que faz as tiazinha desmaiar e os pecadores abrirem a carteira. — Por que você não aceita Jesus agora? Sinto uma energia muito... carregada em você. Você tem olhos de quem já viu o abismo, mas o Senhor quer te transformar em um vaso novo! "p**a que pariu, tô fodido!", pensei, sentindo um suor frio que não era medo, era puro desespero de ter que ouvir palestra de crente enquanto o mundo lá fora tava girando. Olhei pro teto da igreja, pros vitrais cafonas, e mentalmente pedi: "Henrique, se tu tiver algum pacto com o lá de baixo, manda um sinal, estoura uma lâmpada, faz um barulho, me tira daqui!". Mas o silêncio divino foi total e absoluto. O único som era o Silas começando o "set" dele só pra mim, num parlatório particular de salvação. — Sabe, meu filho, a igreja não é só parede. É cura! — Ele começou, me arrastando pra um banco de madeira maciça enquanto eu tentava manter o sorriso de comercial, que agora tava mais pra um espasmo de dor e tédio. — Muitos jovens como você chegam aqui perdidos, achando que o brilho do ouro e a velocidade dos carros são tudo. Mas o que adianta ganhar o mundo e perder a alma? O inimigo usa essas vaidades pra te levar pro fogo eterno! Ele começou a falar, e falar, e falar... Papo de dízimo, de libertação, de como a juventude tá perdida nas garras do "inimigo" — que no caso, devia ser eu e minha linhagem. Eu tava ali, sentado, com a cabeça pendendo pro lado, sentindo meus olhos pesarem mais que as correntes do presídio. O tom de voz dele era monótono, uma melodia que não tinha nenhum drop de batida, nenhum grave, só um agudo moralista que me dava sono. Era um tédio tão mortal que eu comecei a contar os pingos de suor que caíam do nariz dele no colarinho branco. — ...e porque a nossa missão é resgatar quem está no morro do pecado... — Silas continuava, gesticulando como se estivesse diante de uma multidão de milhares, e não só de um palhaço com jaqueta cara querendo dar o fora pra cheirar o asfalto. Eu já tava quase entrando em coma induzido pelo tédio gospel quando ele mencionou algo que me deu um estalo, um choque de realidade que me fez despertar como se tivesse tomado uma carreira de neve pura. — ...assim como eu cuido da minha casa, da minha filha Lorena, que hoje serve ao Estado, mas um dia servirá apenas ao altar... — Ele suspirou, fazendo uma cara de santo sofredor, aquele tipo de mártir de fachada que o Henrique tanto odeia. — Ela tem as provações dela, o fardo dela, mas a disciplina que eu dei é o que a mantém de pé naquela imundície de presídio. Ela carrega a culpa, mas carrega com obediência. "Opa, o sono passou!", pensei, dando uma piscadinha pra espantar o cansaço. O velho tava entregando o ouro sem nem precisar de tortura, sem precisar de alicate ou de pressão psicológica. Enquanto ele achava que tava me convertendo pra ovelha do rebanho dele, eu tava só anotando as notas da partitura do desastre dele na minha mente de estrategista do caos. — É isso aí, pastor! — Cortei a fala dele, levantando num pulo antes que ele começasse a ler o Gênesis inteiro e chegasse no Apocalipse. — Que palavra! Que impacto! Me sinto até mais... leve, tá ligado? Parece que um piano saiu das minhas costas! Acho que vou levar essa reflexão pra casa agora, meditar profundamente nela enquanto piso no acelerador a cento e oitenta por hora pra sentir a presença divina no vento. — Mas você ainda não fez a oração de aceitação! — Ele reclamou, estendendo a mão gorda e suada na minha direção. — Fica pra próxima, mestre! O Senhor entende a pressa de quem tem agenda cheia e corre pra fazer o bem! — Saí vazado, quase correndo pelo tapete vermelho, ignorando os olhares das beatas. — A gente se vê por aí! Manda um beijo pra Lorena e diz que o fã clube dela tá crescendo! Saí daquela igreja sentindo que meus ouvidos iam sangrar de tanta hipocrisia e tédio. O Silas fala mais que o radinho da polícia em dia de operação no morro, e o pior: o velho realmente acredita em cada palavra que cospe. Me joguei no couro do meu carro, dei um soco no volante pra tirar a nhaca de incenso e de "glória" que parecia ter grudado na minha pele e fiquei ali, na espreita, com o motor desligado e os olhos cravados no portão da "fábrica de milagres". Não demorou muito pro sedã prata do velho apontar na saída. Saí na cola, mantendo dois carros de distância, deslizando pelas ruas de Porto n***o como uma sombra, uma mancha de óleo no asfalto limpo. O trajeto foi curto, coisa de dez minutos, até ele embicar numa rua sem saída, daquelas que o asfalto é puro buraco e a iluminação pública é só um enfeite quebrado que serve de poleiro pra urubu. A casa era uma fortaleza de classe média baixa: muros altos, cerca elétrica e um portão de ferro que parecia pesado demais pra uma família de "bem". Estacionei na esquina, apaguei as luzes e virei parte do cenário, fundido com a escuridão do bairro. O tempo começou a se arrastar. Fiquei ali uma hora, duas... o tédio tava quase me fazendo ir lá bater no portão e pedir um copo d'água ou perguntar se tinham sinal de Wi-Fi só pra agitar a noite. Mas eu sou um Falcão, e a gente sabe que a melhor parte da caça é o momento do silêncio antes do bote. Já passava das oito da noite quando vi um vulto dobrando a esquina, caminhando sob a luz amarela e doentia dos postes. Ajustei a postura no banco, os olhos cerrados como os de um gato observando um passarinho ferido. Era ela. A ovelhinha. Mas não tava com aquela postura de "agente durona" que ela tenta sustentar na frente do Henrique no presídio. A Lorena tava com os ombros caídos, o passo lento de quem carregou o peso de uma cruz o dia inteiro. A farda azul dela tava amarrotada, o rosto pálido refletia o cansaço de quem viu o inferno de perto. Mas o que me fez travar o cigarro na boca e sentir o coração dar um solavanco de adrenalina pura não foi o cansaço dela. Foi a mão pequena que ela segurava com tanto zelo. — Caralho... — sussurrei, sentindo um arrepio elétrico subir pela minha espinha e explodir no meu cérebro. Do lado dela, saltitando como se aquele bairro imundo fosse a p***a da Disney, tava um moleque. Um garotinho que não devia ter mais de quatro anos, com uma mochila de bichinho nas costas. A luz do poste falhando bateu direto neles, e eu quase caí pra trás no banco. O guri era uma miniatura dela: o mesmo cabelo ruivo que parecia uma brasa acesa no meio da noite n***a, as bochechas pálidas e um sorriso que dava pra ver de longe, brilhando na penumbra. Eles pararam na frente do portão. Eu vi a Lorena se abaixar, ignorando a farda suja, ignorando a dignidade do cargo, e pegar o pequeno no colo com uma fome de afeto que deu pra sentir do meu carro. Ela deu um abraço nele, daqueles que parece que a pessoa tá tentando fundir uma alma na outra, protegendo-o do mundo, e deu um beijo estalado na bochecha do guri. O moleque riu, um som limpo, agudo, uma nota de alegria pura que cortou o silêncio de morte daquela rua. — Então é esse o teu segredo, ovelhinha? — Senti um sorriso doentio, largo e predatório rasgar o meu rosto. — Tu não é só uma filha desgarrada ou uma agente crente. Tu tem um ponto fraco de carne, osso, inocência e cabelo de fogo escondido debaixo das saias do pastor e dos muros desse sistema. Fiquei observando cada detalhe, como um diretor de cinema planejando a cena do crime. O jeito que ela olhava pros lados, desconfiada, antes de entrar... o cuidado quase paranoico pra não deixar o moleque correr pra rua, ouvi ela chamando pelo nome dele " Samuel" . Ela não tava protegendo só a dignidade dela lá no presídio; ela tava protegendo aquele pacotinho de vida da maldade que ela vê todo dia. E o Silas? O velho nem saiu pra receber a filha e o neto. O portão abriu por controle remoto, eles entraram como se fossem intrusos, e o metal bateu com um som pesado, trancando o mundo real lá fora. Eu tava em êxtase. O Henrique queria saber por que a Lorena não quebrava, o que mantinha aquela ruiva de pé depois de ele quase arrancar a alma dela com uma colher e arame farpado. E agora eu tinha a resposta bem aqui, na palma da minha mão, brilhando como ouro puro. É o moleque. O Samuel é a partitura dela. — Tu não sabe o perigo que corre, tampinha — murmurei pro nada, sentindo o gosto da vitória, ligando o motor do carro bem devagarinho pra não quebrar o encanto da descoberta. — O Maestro vai amar saber que a orquestra dele agora tem um solista mirim pra gente afinar do nosso jeito. Arranquei com o carro sem acender os faróis, deslizando pela escuridão, sentindo a adrenalina bombando nas minhas têmporas. O palhaço aqui tinha acabado de encontrar o mapa do tesouro, a chave mestra pra abrir qualquer porta na mente blindada da Lorena Vaz. O Henrique ia fazer um concerto inesquecível com essa informação, um épico de dor e controle, e eu ia tá na primeira fila, com a pipoca na mão e o deboche no rosto, vendo a "santinha" virar cinza e pó pra salvar o que ela tem de mais sagrado. Porto n***o ficou pequena pra você hoje, ovelhinha. O lobo descobriu exatamente onde tu guarda o teu filhote, e a nossa alcateia nunca perde o rastro de sangue doce.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR