capitulo 10

1022 Palavras
A polícia cercou o morro com tudo o que tinha: BOPE, Choque, Exército. Eles estavam lá embaixo, urinando de medo de subir. Eu tinha fuzis e homens suficientes para sustentar aquela guerra por meses, transformando o Alvorecer em um cemitério de fardados. Mas um verdadeiro estrategista sabe quando mudar o palco para manter o controle absoluto. Lá fora, eu era um alvo para snipers e traições políticas. Aqui dentro, na Segurança Máxima, eu sou intocável. Sou um mito que rege o crime dentro e fora da tranca com punho de ferro e luvas de pelúcia. Eu me deixei levar porque a Cela 13 é o meu centro de comando definitivo. O Estado acha que me venceu, mas eles apenas me deram um castelo de concreto com segurança particular paga pelos impostos dos otários. Entrei caminhando, cabeça erguida, cabelos loiros ao vento e um sorriso de quem sabe que o verdadeiro poder não precisa de liberdade física para ser exercido. Hoje, os diretores do presídio tremem ao ler meu nome nos relatórios e os guardas limpam o sangue do meu palco sem ousar fazer perguntas. Eles sabem que eu não sinto ódio. O ódio é uma emoção quente, vulgar, que turva o raciocínio. Eu sou o gelo. Sinto um prazer puramente estético na destruição, no momento exato em que a esperança morre nos olhos de um homem e ele percebe que não há salvação, nem divina, nem humana. É como o acorde final de uma ópera trágica. O calor do pátio da Penitenciária de Porto n***o era uma afronta, mas eu não me movia. Estava sentado em um banco de concreto que ninguém mais ousava tocar, com o sol batendo direto nos meus traços duros, destacando a frieza dos meus olhos cinzas. Eu estava tragando lentamente, deixando a fumaça da droga preencher meus pulmões enquanto observava os outros detentos circulando como baratas tontas. — Maestro — a voz de um dos carcereiros, um dos meus "roadies" comprados, rompeu o transe. Ele se aproximou com a cabeça baixa, a postura de quem sabe que está diante de um mestre da existência. — Desembucha. O que está acontecendo no Alvorecer que eu ainda não saiba? — perguntei, sem sequer olhar para ele, sentindo o prazer estético de ver o suor de pavor escorrer pela testa do fardado. — No morro está tudo sob controle. Mas o motivo de eu vir aqui é outro. Vai entrar uma agente nova no Setor de Segurança Máxima. Direto para a sua ala. É a filha daquele pastor que vive amaldiçoando o senhor na televisão. Eu soltei a fumaça devagar, sentindo um tédio profundo ser substituído por uma curiosidade perversa. A filha do homem que vomita sermões sobre moralidade enviada para o meu covil? O "Martelo de Deus" enviando sua linhagem para as mandíbulas do lobo? Peguei a foto que ele me estendeu. Cabelos ruivos cor de fogo e pele salpicada de sardas. Ela me encarava no papel com uma integridade que quase chegava a ser ofensiva. Ela parecia frágil, deslocada, uma ovelha que acabara de ser jogada no matadouro de concreto. No verso do papel, detalhes que aguçaram meu apetite: mãe solo, desesperada, técnica, fria. Dizem que ela não se dobra fácil. Eu não sinto ódio, mas sinto uma vontade irresistível de destruir o que se pretende puro. Quero ver quanto tempo essa fé de fachada resiste antes de se transformar em uivos de desespero. Eu gosto de novos instrumentos. Gosto de testar a resistência das cordas antes de fazê-las arrebentar. — Ela entra hoje? — perguntei, fechando a mão sobre a foto, esmagando o papel sob a minha palma, desfigurando aquele rosto ruivo que transbordava uma inocência que me dava náuseas. — No primeiro turno, Maestro. Já deve estar cruzando os portões. Eu dei uma risada curta, um som seco que não carregava nenhuma alegria. — Ninguém é inquebrável. Só ainda não encontraram o martelo certo. E o meu martelo é feito de sombras e arame farpado. O carcereiro inclinou-se um pouco mais, o cheiro de medo dele era quase palpável. — Tem outra coisa... Lembra do tal do Silva? O que tentou atravessar uma carga sua? Ele foi transferido para o isolamento. Está na sua cela agora, Maestro. Te esperando para o acerto. O diretor achou que seria... pedagógico. Um sorriso lento e c***l se desenhou no meu rosto. A orquestra estava se montando sozinha, sem que eu precisasse mover uma única nota. De um lado, um traidor esperando para ser silenciado. Do outro, a "santinha" vindo para assistir ao concerto de sangue. O cenário estava perfeito para o batismo de fogo dela. Caminhei em direção ao bloco de isolamento, sentindo o peso do meu domínio em cada passo. Os outros presos abriam caminho, desviando o olhar, sentindo a energia pesada que eu emanava. Eu não precisava de armas de fogo. Eu era a própria lâmina. A cada passo dado pelo corredor de concreto úmido, o som das minhas botas ecoava como o tique-taque de uma bomba relógio. Eu não sinto pressa. O tempo é meu aliado quando a intenção é desestruturar a mente de quem me espera. Ao chegar diante da grade da Cela 13, o cheiro de suor frio e medo absoluto atingiu minhas narinas. É o aroma da submissão. Lá dentro, o Silva já estava amarrado à cadeira de ferro, sua respiração era um chiado de agonia antecipada. Eu preparei meus instrumentos uma colher de metal afiada, arame farpado e a paciência de um deus c***l. Eu ia dar a ele a sua "aula de visão" e, ao mesmo tempo, prepararia a recepção para a filha do pastor. — Silva na minha cela e uma ruivinha no meu corredor... — sussurrei para a escuridão. — O Estado finalmente aprendeu a me dar um entretenimento de qualidade. A música estava prestes a começar, e eu já tinha escrito o acorde final na minha mente. Ela veria o que o seu Deus tenta esconder: que na minha sinfonia, a única salvação é a entrega total ao abismo. E eu seria o maestro que conduziria sua queda, nota por nota, gota de sangue por gota de sangue.
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