Reina voltava para casa naquela tarde com uma sensação rara de alegria. As vendas tinham sido boas, e pela primeira vez em dias, ela havia conseguido comprar alguns biscoitos que gostava, um pequeno mimo para si mesma. Caminhando com cuidado pelas ruas, sua bengala tateando o chão à sua frente, ela sentia o peso do dia mais leve em seus ombros. Naquele momento, tudo parecia suportável. Havia até separado parte do dinheiro para Guto, na esperança de que talvez pudessem conversar de forma mais calma, sem brigas ou ameaças.
Mas assim que abriu a porta de casa, algo mudou.
O ar parecia diferente, carregado. O perfume familiar que invadira a casa dias antes estava ali novamente, uma mistura forte de colônia barata e algo desagradável. Reina parou por um momento, franzindo a testa, tentando entender o que era aquilo. Havia algo mais no ar, um cheiro metálico, estranho. Ela sentiu o coração começar a bater mais rápido, uma sensação de desconforto crescendo em seu peito.
Tateando pela parede, ela entrou mais fundo na casa, o cheiro ficando cada vez mais forte. De repente, Reina se deu conta de que havia algo errado, muito errado.
— Guto? — chamou, com a voz hesitante.
Nenhuma resposta. Apenas o silêncio pesado.
Ela continuou avançando, seus sentidos mais aguçados tentando compensar a falta de visão. A textura do ambiente parecia carregada, o ar espesso, quase sufocante. Seus dedos tocaram algo úmido no chão. Reina parou de repente, a respiração presa. O que era aquilo? Seus dedos tocaram de novo, com mais cuidado, e então a verdade a atingiu como uma onda gelada. Era sangue.
O pânico começou a subir rapidamente dentro dela. O cheiro de ferro, o silêncio, a ausência de Guto. Tudo se conectou em sua mente, formando uma imagem terrível.
— Guto! — gritou, mais alto, quase desesperada, sua voz ecoando pela casa.
Ela tentou se orientar, usando a bengala para sondar o caminho à frente, mas cada passo era mais pesado que o anterior. Ela não sabia o que a esperava, mas sentia que estava prestes a descobrir algo terrível.
— Guto! — chamou mais uma vez, a voz agora tremendo de medo.
Quando chegou ao canto da sala, sentiu o corpo de Guto estendido no chão, sua respiração parou.
— Não se preocupe, pequena, ele não está morto. Apenas desmaiou — disse uma voz atrás de Reina, fria e calma.
Ela parou, o coração disparado no peito, reconhecendo imediatamente o timbre. Era o mesmo homem que havia estado ali antes, o mesmo que havia ameaçado Guto. A respiração dela ficou ofegante, o pânico tomando conta. Instintivamente, Reina agarrou sua bengala com força, e antes que pudesse pensar duas vezes, começou a desferir golpes desesperados no ar, tentando acertá-lo.
— Fique longe de mim! — Gritou, sua voz carregada de medo.
Ela não sabia onde ele estava, mas seu instinto a guiava. A bengala atingiu o nada algumas vezes até que um golpe mais forte se chocou contra algo ou alguém. Ela sentiu o impacto, mas não durou muito. O homem agarrou a bengala rapidamente e a torceu de sua mão, tirando-a com facilidade.
Antes que Reina pudesse reagir, ele a segurou por trás, envolvendo seus braços ao redor dela, como uma armadilha. A força com que ele a prendia era esmagadora, imobilizando-a completamente. Ela sentiu o peito dele contra suas costas, o cheiro forte do perfume invadindo seu olfato. Reina se debatia, tentando se soltar, mas era inútil. O pânico crescia dentro dela, sufocante, e seu corpo tremia de medo.
— Calma, pequena... — disse o homem em seu ouvido, a voz baixa e quase suave, o que só a aterrorizava mais. — Não adianta lutar. Você está em boas mãos, eu prometo.
Reina tentou gritar, mas as palavras morriam na garganta, substituídas por soluços de desespero. Ela estava presa, vulnerável, sem saber o que ele faria a seguir. O toque dele era controlado, calculado, como se estivesse se divertindo com a situação, alimentando-se do medo que ela sentia.
Guto foi despertando aos poucos, com gemidos baixos e movimentos lentos. Reina ouviu o som familiar e, apesar do medo que sentia, um alívio inesperado a invadiu.
— Guto? — perguntou, a voz trêmula, mas esperançosa. — Você está bem?
Antes que ele pudesse responder, Guto se virou para ela com um olhar que, mesmo sem ver, Reina podia sentir a dureza.
— Cala a boca, Reina! — gritou ele, a voz carregada de raiva, como se a presença dela fosse uma afronta. O tom c***l perfurou o peito de Reina, fazendo-a se encolher, ainda presa nos braços do homem atrás dela.
O outro homem — o chefe que parecia controlar toda a situação — observava a cena em silêncio, o rosto impassível, sem se abalar pela confusão entre os irmãos. Guto se ajeitou no chão, respirando fundo, e em um ato de desespero ou talvez de uma fria calculadora, se levantou com dificuldade e se dirigiu ao homem.
— Capo, eu tenho uma proposta pra você. — A voz de Guto estava mais controlada agora, tentando soar convincente, mas o nervosismo era evidente. — Vamos conversar.
O homem soltou Reina lentamente, seus braços se afastando dela como se não houvesse mais pressa. Ele deu um passo à frente, ignorando completamente Reina, que tremia ali ao lado, tentando recuperar o controle de sua respiração.
— Proposta? — disse o homem, com um tom desdenhoso. — Você me deve muito, Guto. Não estou aqui para negociações.
Reina ainda estava no chão, tentando processar a frieza com que Guto havia se dirigido a ela. Ele não parecia preocupado com a situação em que estavam, mas sim em salvar a própria pele.
— Eu sei... Eu sei que te devo, e é muito dinheiro, mas escuta — Guto insistiu, os olhos arregalados, quase suplicantes. — Eu tenho algo que você vai querer.
O chefe cruzou os braços, estreitando os olhos. Reina podia ouvir o som da respiração pesada de Guto e sentiu o medo aumentar. O que ele poderia oferecer? Ela já tinha uma ideia terrível.
— E o que seria isso? — perguntou o homem, com uma frieza quase letal.
Guto hesitou por um segundo, mas, em seguida, olhou para Reina. Mesmo sem enxergar, ela sentiu o olhar dele cair sobre ela, o estômago se revirando em um misto de pavor e resignação.
— Minha irmã — disse Guto, por fim, com um sorriso fraco, quase nervoso. — Ela pode ser útil pra você, de muitas maneiras.
Reina congelou, a realidade do que ele acabara de dizer a atingindo como um golpe c***l.