Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — A cirurgia de Marina
O cheiro de álcool hospitalar sempre fazia Helena Duarte sentir que o mundo estava prestes a desabar.
Era um cheiro frio, limpo demais, quase c***l. Ele grudava na garganta, nas roupas, na pele, como se quisesse lembrar a todos que ali dentro a vida era tratada com luvas, máquinas e boletos que não esperavam por milagres.
Helena estava sentada em uma cadeira dura no corredor do terceiro andar, com as mãos apertadas sobre a bolsa velha no colo. A alça descascada marcava seus dedos, mas ela não soltava. Dentro dela estavam todos os documentos da mãe: exames, receitas, laudos, cópias de identidade, orçamentos médicos e uma esperança cada vez mais fina.
Do outro lado da porta de vidro fosco, Marina Duarte dormia.
Ou tentava dormir.
Nas últimas semanas, o rosto de sua mãe tinha perdido cor. Os olhos, antes vivos e cheios de ternura, agora pareciam fundos, cansados, como se cada respiração exigisse uma negociação silenciosa com o próprio corpo.
Helena odiava vê-la assim.
Marina sempre fora pequena, delicada, mas nunca frágil. Tinha criado a filha praticamente sozinha, suportado humilhações que Helena só entendera quando cresceu, trabalhado com febre, costurado vestidos madrugada adentro, vendido doces, limpado casas, engolido orgulho. Era o tipo de mulher que sorria mesmo quando a comida era pouca, que dizia “amanhã melhora” mesmo quando o amanhã parecia ainda pior.
Mas agora ela não conseguia mais fingir.
A porta no fim do corredor se abriu, e o doutor Henrique apareceu segurando uma pasta azul.
Helena se levantou antes mesmo de ele chamá-la.
— Senhorita Duarte?
A formalidade na voz dele fez seu coração apertar.
— Sou eu. Como ela está?
O médico respirou fundo. Não foi um suspiro dramático. Foi pior. Foi o tipo de pausa que as pessoas usam quando precisam entregar uma notícia pesada com palavras leves.
— A sua mãe está estável no momento, mas a condição dela piorou desde o último exame.
Helena sentiu a bolsa escorregar um pouco do colo e a segurou com força.
— Piorou quanto?
Doutor Henrique olhou para a pasta, depois para ela.
— O problema cardíaco avançou. A medicação está ajudando a controlar os sintomas, mas não resolve a causa. Ela precisa passar por uma cirurgia o quanto antes.
Helena piscou devagar.
Cirurgia.
A palavra não era nova. Já tinha aparecido em conversas anteriores, sempre como possibilidade distante, algo que eles esperavam adiar. Mas dita daquele jeito, naquele corredor branco, parecia uma sentença.
— Quanto antes significa...?
— Nas próximas semanas. Idealmente, nos próximos dias.
O ar pareceu desaparecer.
Helena levou uma das mãos ao peito.
— Dias?
— Eu sei que é muito para processar. Mas, se esperarmos demais, o risco aumenta bastante.
— Mas ela está consciente. Ela conversou comigo hoje cedo. Disse que estava melhor.
O médico suavizou a expressão, e aquilo quase a irritou. Helena não queria pena. Pena não pagava cirurgias.
— Pacientes se acostumam à dor. E sua mãe é uma mulher forte. Talvez forte demais para admitir quando algo está errado.
Helena quase riu. Não de humor, mas de desespero.
Sim. Aquilo era Marina.
Forte demais.
Sempre forte demais.
— E quanto custa? — perguntou, embora já soubesse que não queria ouvir a resposta.
Doutor Henrique abriu a pasta, retirou uma folha e entregou a ela.
Helena olhou para os números.
Por um segundo, achou que tivesse lido errado.
Depois leu de novo.
E de novo.
O valor continuou o mesmo, absurdo e inalcançável, ocupando a página como se zombasse de sua realidade.
— Isso... isso inclui tudo?
— Cirurgia, internação, equipe, exames pré-operatórios e acompanhamento inicial. Parte pode ser negociada com o hospital, mas não muito. Infelizmente, pelo quadro dela, não recomendo esperar pela fila pública.
Helena sentiu os olhos arderem, mas não chorou. Não ali. Não diante dele.
Ela dobrou a folha com cuidado, como se fosse possível diminuir o problema ao reduzir o tamanho do papel.
— Eu preciso conseguir esse dinheiro.
— Entendo.
Não, ele não entendia.
Pessoas que diziam “entendo” geralmente não entendiam nada. Não sabiam o que era contar moedas para decidir entre comprar remédio ou gás. Não sabiam o que era sorrir para a própria mãe enquanto escondia mensagens de cobrança. Não sabiam o que era olhar para um orçamento médico e perceber que o preço da vida de alguém amado tinha sido convertido em uma quantia impossível.
— Ela sabe? — Helena perguntou.
— Ainda não conversamos sobre todos os detalhes.
— Não conte o valor a ela. Por favor.
O médico a observou por um instante.
— Senhorita Duarte...
— Por favor — repetiu, a voz falhando. — Ela vai se culpar. Vai dizer que não precisa. Vai querer desistir para não me dar trabalho. Eu conheço minha mãe.
Doutor Henrique assentiu lentamente.
— Falaremos com cuidado. Mas ela precisa entender a gravidade.
— Eu vou resolver.
As palavras saíram firmes, quase agressivas.
O médico não discutiu. Talvez estivesse acostumado com promessas impossíveis feitas em corredores de hospital.
— Vou deixar você entrar por alguns minutos. Ela está fraca, mas perguntou por você.
Helena agradeceu com a cabeça.
Antes de abrir a porta do quarto, respirou fundo e guardou o papel dentro da bolsa.
Quando entrou, Marina estava acordada.
A mãe virou o rosto no travesseiro e abriu um sorriso pequeno.
— Você fez essa cara de novo.
Helena parou ao lado da cama.
— Que cara?
— Cara de quem está carregando o teto nas costas.
Helena tentou sorrir.
— O teto é leve.
— Mentira. Você nunca soube mentir para mim.
Marina estendeu a mão, e Helena a segurou com cuidado. A pele da mãe estava fria.
— O médico falou com você? — Marina perguntou.
— Falou.
— E?
Helena sentou-se na cadeira ao lado da cama.
— Disse que você precisa descansar e parar de agir como se fosse invencível.
Marina soltou uma risada fraca, que logo se transformou em tosse.
Helena se inclinou imediatamente.
— Mãe...
— Estou bem. Só velha.
— Você não é velha.
— Estou usada, então.
— Também não.
Marina apertou de leve os dedos da filha.
— Helena.
A voz dela mudou. Ficou mais baixa, mais séria.
Helena baixou os olhos.
— Não começa.
— Eu conheço esse silêncio.
— Que silêncio?
— O silêncio de quando você está tentando decidir que parte da sua vida vai vender para me salvar.
Helena ergueu o rosto de uma vez.
— Eu não vou vender nada.
— Ainda.
A palavra atingiu Helena como uma lâmina pequena.
Marina fechou os olhos por um segundo.
— Prometa que não vai procurar seu pai.
Helena ficou imóvel.
O corredor lá fora parecia distante demais. O bip da máquina ao lado da cama soou mais alto.
— Mãe...
— Prometa.
— Você precisa de cirurgia.
Marina abriu os olhos. Havia cansaço neles, mas também uma lucidez dolorosa.
— Então é grave.
Helena mordeu o interior da bochecha.
— É tratável.
— Não foi isso que perguntei.
— Mãe, por favor.
— Helena, olhe para mim.
Ela olhou.
Marina tinha aquele jeito de enxergar através dela, como se ainda segurasse a menina de sete anos que se escondia atrás da porta quando Otávio visitava a casa e saía sem olhar para a filha.
— Seu pai nunca dá nada de graça — Marina disse. — Nada. Se você pedir ajuda a ele, ele vai cobrar de um jeito que pode custar mais do que dinheiro.
Helena sentiu o estômago apertar.
— Eu sei quem ele é.
— Sabe?
A pergunta não veio dura. Veio triste.
Helena desviou o olhar para a janela. A cidade lá fora seguia viva, indiferente. Carros passavam, pessoas atravessavam a rua, prédios brilhavam ao sol da tarde. Para o mundo, aquele era só mais um dia.
Para Helena, era o dia em que a vida da mãe ganhou preço.
— Eu sei que ele não presta — ela murmurou. — Mas ele tem dinheiro. E contatos. E se existir qualquer chance...
— Não.
— Você quer que eu faça o quê? — A voz dela saiu mais alta do que pretendia. Helena respirou fundo e baixou o tom. — Desculpa. Eu só... eu não posso perder você.
Marina levantou a mão com esforço e tocou o rosto da filha.
— E eu não posso ver você se perder tentando me manter aqui.
As lágrimas vieram, finalmente. Helena tentou segurá-las, mas uma escapou.
— Não fala assim.
— Minha menina...
— Não. Não sou menina. Sou sua filha, e vou resolver.
Marina pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas o cansaço venceu. Seus dedos afrouxaram sobre a mão de Helena.
— Só não deixe que eles transformem seu amor por mim em uma corrente — sussurrou.
Helena permaneceu ali até a mãe adormecer novamente.
Quando saiu do quarto, a folha com o orçamento parecia queimar dentro da bolsa.
Ela caminhou pelo corredor sem saber direito para onde ia. Passou pela recepção, pelo elevador, pela pequena capela do hospital, pela máquina de café que sempre engolia moedas e devolvia um líquido amargo. Só parou do lado de fora, na calçada, quando o ar quente da cidade bateu em seu rosto.
Puxou o celular.
Havia três mensagens não lidas da oficina onde trabalhava.
Uma da farmácia cobrando uma conta atrasada.
Duas ligações perdidas de Isadora.
E o contato que ela evitava havia anos.
Otávio Duarte.
Helena encarou o nome na tela.
Seu pai.
A palavra ainda soava errada, mesmo depois de tantos anos. Pai era quem levantava a filha quando ela caía, quem perguntava se ela tinha comido, quem aparecia no aniversário, quem sabia o nome da professora, o medo secreto, o doce preferido.
Otávio Duarte tinha dado a ela apenas o sobrenome.
E, mesmo esse, Helena carregava como uma mancha.
Ela apertou o botão de chamada antes que a coragem acabasse.
Chamou uma vez.
Duas.
Três.
Quando a ligação estava quase caindo, uma voz masculina atendeu, impaciente.
— Sim?
Helena fechou os olhos.
— Sou eu.
Silêncio.
Depois, uma risada curta, sem afeto.
— Helena. Quanto tempo.
Ela apertou o celular contra o ouvido.
— Preciso falar com você.
— Agora?
— É urgente.
— Tudo para você sempre foi urgente quando envolvia dinheiro.
A frase a atingiu, mas Helena já esperava algo assim.
— É sobre a minha mãe.
Outra pausa.
— Marina?
O modo como ele disse o nome dela fez Helena sentir náusea. Como se Marina fosse uma lembrança incômoda guardada em uma gaveta velha.
— Ela precisa de uma cirurgia.
— Sinto muito.
— Não pedi sentimento. Pedi ajuda.
Do outro lado, Otávio ficou em silêncio por tempo suficiente para ela ouvir ao fundo vozes, taças, talvez uma reunião ou almoço elegante. A vida dele nunca parava por causa da dor dos outros.
— Quanto?
Helena disse o valor.
Houve uma pausa.
— Bastante dinheiro.
— Para você, não é impossível.
— Para mim, nada é impossível. A questão é: por que eu deveria pagar?
Helena sentiu os dedos tremerem.
— Porque ela foi sua esposa.
— Há muitos anos.
— Porque eu sou sua filha.
A risada dele veio baixa.
— Agora você lembra disso?
Helena fechou os olhos com força.
— Nunca esqueci. Você que fez questão de não lembrar.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Quando Otávio falou de novo, sua voz havia mudado. Estava menos debochada. Mais calculista.
— Venha até a mansão hoje à noite.
Helena abriu os olhos.
— Para quê?
— Você pediu ajuda. Não vou discutir isso por telefone.
— Eu preciso saber se você vai pagar.
— Venha até aqui, Helena.
— Minha mãe não tem tempo para jogos.
— Então não perca tempo discutindo.
A ligação caiu.
Helena ficou parada na calçada, com o celular ainda encostado no ouvido.
O céu estava escurecendo aos poucos, tingido de laranja e cinza. Uma ambulância passou com a sirene ligada, e ela se obrigou a respirar.
Podia ouvir a voz da mãe dentro da cabeça.
Seu pai nunca dá nada de graça.
Helena sabia.
Sabia tão bem que seu corpo inteiro gritava para não ir.
Mas então lembrou do rosto pálido de Marina, da mão fria sobre a sua, da folha dobrada dentro da bolsa, do valor impossível e do médico dizendo “dias”.
Algumas escolhas não pareciam escolhas.
Pareciam portas fechando atrás de você até restar apenas uma saída.
Às sete e meia da noite, Helena desceu de um ônibus a duas quadras da mansão Duarte.
O contraste entre seu mundo e aquele bairro sempre a deixava tonta. Ruas largas, árvores perfeitamente podadas, muros altos, câmeras discretas e casas tão grandes que pareciam construídas para pessoas que tinham medo de encostar na realidade.
A mansão Duarte brilhava no fim da rua como uma promessa falsa.
Portões pretos. Jardins iluminados. Fachada branca. Janelas altas. Tudo no lugar, tudo impecável, tudo mentiroso.
Helena parou diante do interfone.
Antes que apertasse, o portão começou a abrir.
Como se já a esperassem.
Ela entrou.
Cada passo pelo caminho de pedra pareceu levá-la de volta à infância. Lembrou-se de visitas raras, sempre rápidas, em que era mandada ficar quieta enquanto Bianca exibia bonecas importadas e vestidos caros. Lembrou-se de Otávio colocando a mão em seu ombro diante de convidados e chamando-a de “minha outra filha”, como se até o afeto tivesse hierarquia. Lembrou-se de sair dali com Marina, as duas em silêncio, fingindo que aquilo não doía.
A porta principal se abriu antes que ela tocasse a campainha.
Uma empregada a conduziu até a sala.
Otávio estava sentado em uma poltrona de couro, segurando uma taça de uísque. Continuava elegante, bem vestido, com os cabelos grisalhos perfeitamente alinhados e o rosto de homem que envelhecia sem perder poder.
Ao lado dele, Bianca Duarte andava de um lado para o outro, usando um robe de seda cor champanhe. Linda, mimada, irritada.
Quando viu Helena, parou.
Seus olhos desceram pelo jeans simples, pela blusa clara, pela bolsa velha.
— Você chamou ela? — Bianca perguntou ao pai, como se Helena não estivesse ali.
Otávio ergueu a taça.
— Boa noite, Helena.
Ela ficou no centro da sala, sem se sentar.
— Eu não vim para jantar. Vim pela minha mãe.
Bianca soltou uma risada sem humor.
— Sempre dramática.
Helena virou o rosto para ela.
— E você continua igual.
Os olhos de Bianca brilharam de raiva.
— Cuidado com o tom.
— Minha mãe está no hospital. Não tenho paciência para o seu teatro hoje.
Otávio pousou a taça na mesa.
— Chega.
A autoridade na voz dele ainda era afiada, mas Helena já não era criança.
— Você vai pagar a cirurgia? — ela perguntou.
Otávio a observou por alguns segundos.
— Posso pagar.
O coração de Helena deu um salto.
— Então pague.
— Posso — ele repetiu. — Mas preciso de algo em troca.
Ali estava.
A corrente.
Helena sentiu um frio subir pela nuca.
— O quê?
Bianca cruzou os braços e desviou o olhar, nervosa.
Otávio se levantou devagar.
— Sua irmã está prestes a cometer um erro que pode destruir esta família.
— Que surpresa.
— Bianca deveria se casar amanhã com Rafael Montese.
Helena já ouvira aquele nome.
Todos ouviam.
Rafael Montese era o tipo de homem que aparecia em revistas de negócios, sites de fofoca e conversas sussurradas. CEO do Grupo Montese. Bilionário. Frio. Solteiro. Implacável. Um homem jovem demais para ser tão poderoso e temido demais para ser ignorado.
— E o que isso tem a ver comigo?
Bianca respondeu antes do pai:
— Eu não vou me casar com aquele homem.
Helena olhou para ela.
— Então não case.
Bianca riu, nervosa.
— Você não entende nada.
Otávio aproximou-se de Helena.
— O contrato com os Montese mantém a Duarte Holdings viva. Sem esse casamento, perdemos investidores, crédito e p******o. Amanhã, a família Duarte precisa entregar uma noiva.
Helena levou alguns segundos para compreender.
Quando compreendeu, deu um passo para trás.
— Não.
Otávio não piscou.
— Você ainda nem ouviu a proposta.
— Eu ouvi o suficiente.
— A cirurgia de Marina será paga integralmente.
O nome da mãe paralisou Helena.
Otávio continuou, cada palavra colocada com precisão c***l:
— Hospital particular. Melhor equipe. Todos os medicamentos. Recuperação. E uma quantia mensal para garantir que ela não volte a depender de trabalhos pequenos.
Helena sentiu a garganta fechar.
Bianca a encarava com desprezo, mas havia alívio escondido em seu rosto. Alívio por ter encontrado alguém para carregar seu castigo.
— Você quer que eu me case no lugar dela — Helena disse, a voz baixa.
Otávio sorriu.
— Por um ano. Apenas aparências. Rafael Montese precisa de uma esposa Duarte. Bianca não quer ser essa esposa. Você precisa salvar sua mãe. Parece uma troca conveniente.
Conveniente.
Como se a vida dela fosse uma peça movida em um tabuleiro.
Helena apertou a alça da bolsa.
— E Rafael sabe?
Otávio desviou o olhar por um instante.
Foi o bastante.
Helena riu sem acreditar.
— Ele não sabe.
— Saberá quando for necessário.
— Isso é loucura.
— Loucura é deixar sua mãe morrer por orgulho.
A frase a atravessou com violência.
Helena sentiu o rosto esquentar.
— Nunca mais diga isso.
Otávio inclinou a cabeça.
— Então me prove que estou errado.
A sala ficou silenciosa.
Helena pensou em Marina. No hospital. Na pele fria. Na voz fraca pedindo que ela não procurasse o pai.
Pensou em si mesma, usando um vestido que não era seu, entrando em um casamento que não queria, ao lado de um homem que provavelmente a desprezaria assim que descobrisse a troca.
Pensou em fugir.
Pensou em gritar.
Pensou em dizer que não.
Mas, no fim, o amor por sua mãe falou mais alto do que qualquer instinto de autopreservação.
— Se eu aceitar — Helena disse devagar — a cirurgia será marcada imediatamente.
Otávio sorriu como se já soubesse que venceria.
— Amanhã cedo.
— Hoje. Você transfere o valor hoje e envia a confirmação ao hospital.
O sorriso dele diminuiu.
Pela primeira vez naquela noite, Helena viu surpresa em seu rosto.
— Você está impondo condições?
— Estou vendendo um ano da minha vida. Posso escolher o preço.
Bianca arregalou os olhos.
Otávio a encarou por alguns segundos. Depois riu baixo.
— Talvez você tenha mais sangue Duarte do que pensei.
Helena sentiu nojo da comparação.
— Não. Eu tenho sangue da minha mãe. É por isso que ainda estou aqui.
Otávio foi até a mesa, pegou um envelope e o estendeu.
— Leia. Amanhã, às nove, você estará pronta.
Helena pegou o envelope, mas não abriu.
— E se Rafael recusar?
O sorriso de Otávio voltou, lento e perigoso.
— Rafael Montese não é o tipo de homem que recusa uma oportunidade de vingança.
Helena franziu a testa.
— Vingança?
Antes que Otávio respondesse, Bianca soltou:
— Você não sabe mesmo, não é?
Helena olhou para ela.
Bianca sorriu, c***l.
— Os Montese odeiam nossa família.
O silêncio ficou pesado.
Otávio lançou um olhar de advertência à filha, mas era tarde.
Helena sentiu o mundo inclinar de novo.
— Por quê?
Otávio pegou a taça de uísque e deu um gole.
— Isso não importa agora.
Mas importava.
Importava muito.
Helena olhou para o envelope em suas mãos, depois para o pai, depois para Bianca.
De repente, compreendeu que a proposta era ainda pior do que parecia.
Não estavam apenas enviando uma noiva substituta.
Estavam oferecendo uma vítima.
E, por causa da mãe, Helena já estava presa à armadilha antes mesmo de vestir o branco.
Naquela noite, ao sair da mansão Duarte com o contrato dentro da bolsa e a confirmação da transferência no celular, Helena parou no meio do jardim iluminado.
O vento moveu seus cabelos, e pela primeira vez desde que o médico falara a palavra cirurgia, ela permitiu que uma lágrima caísse.
Não era alívio.
Não era arrependimento.
Era medo.
Porque, no dia seguinte, ela entraria em um altar no lugar de outra mulher.
E se casaria com um homem que talvez já a odiasse antes mesmo de saber seu nome.