CAPÍTULO 12

1102 Palavras
Capítulo 12 — A Linha que Nos Separa O voo de volta foi silencioso. Enquanto o avião cortava as nuvens, Aline observava a paisagem cinzenta lá fora e tentava organizar os pensamentos. Paris havia sido um ponto de virada — um tempo suspenso, onde o impossível parecia possível. Mas agora, voltando para a rotina, a realidade parecia mais fria, mais exigente. Paulo lia um relatório à sua frente, fingindo concentração. Mas, de tempos em tempos, seu olhar desviava para ela — o cabelo preso de modo displicente, o rosto voltado para a janela, o ar distraído e distante. Ele se perguntou o que se passava na mente dela. E, no fundo, sabia que pensavam no mesmo: o que aconteceria agora? --- Os dias seguintes foram um turbilhão. Reuniões, entrevistas, balanços trimestrais — o retorno exigia foco total. Mas algo entre eles havia mudado. Não era apenas o olhar, ou o tom de voz. Era o cuidado. O modo como ele perguntava se ela havia almoçado, ou como ela antecipava as necessidades dele antes mesmo que ele percebesse. Era a sincronia silenciosa que agora se tornara inevitável. Mas, quanto mais próximos ficavam, mais visíveis se tornavam. E, inevitavelmente, as pessoas começaram a notar. --- — Você e o doutor Bianchi andam bem próximos, não é? — comentou Juliana, a nova assistente do setor administrativo, certa manhã. Aline levantou os olhos do computador. — Trabalhamos juntos todos os dias. É natural. Juliana deu um sorrisinho. — Natural, sim... para quem sabe esconder bem. Aline respirou fundo e decidiu ignorar. Mas as palavras ficaram ecoando dentro dela. Horas depois, ao encontrar Paulo no corredor, ela sentiu os olhares dos outros funcionários acompanhando. E, pela primeira vez, desviou o olhar. Não por culpa — mas por medo. --- Naquela tarde, Paulo a chamou à sala dele. Estava sério. — Feche a porta, por favor. Ela obedeceu, sentando-se à frente dele. — Aconteceu alguma coisa? — Aconteceu. — Ele passou a mão pelos cabelos, tenso. — Estão comentando. Ela ficou em silêncio. Sabia exatamente sobre o que ele falava. — Comentando... o quê, exatamente? — perguntou, tentando manter a calma. — Que temos algo além do profissional. — E quem disse isso? — Isso não importa. O que importa é que chegou até mim. Aline apertou as mãos sobre o colo. — Eu sabia que isso podia acontecer. Paulo a observou, atento. — E você está arrependida? A pergunta veio carregada de significado. Ela levantou o olhar, e por um instante, esqueceu o mundo lá fora. — Não. — Nem eu. — respondeu ele, num tom baixo, quase confessional. Mas o silêncio seguinte foi pesado. Ambos sabiam que o problema não era o que sentiam — e sim o que o mundo veria nisso. --- Naquela noite, Aline chegou em casa exausta. Jogou a bolsa no sofá e se deixou cair, olhando o teto por longos minutos. A mente não parava. O coração, tampouco. Pegou o celular, abriu o perfil falso de Nina Alves e ficou encarando a tela. O nome, a foto, as memórias. Era estranho: a mulher que ela havia criado para ser livre agora parecia um fantasma que a observava de longe. Nina fora um refúgio — mas agora, talvez, fosse uma ameaça. E, pela primeira vez, Aline se perguntou se teria coragem de deixá-la morrer. --- Enquanto isso, Paulo estava em casa, diante da lareira acesa. O copo de uísque nas mãos já estava quase intocado. Ele não conseguia se desligar dela. Desde que a conheceu, tudo em sua vida parecia ter mudado de cor. Antes, os dias eram previsíveis, as metas claras, os caminhos seguros. Mas Aline havia trazido nuance, vida, incerteza — e, junto com isso, medo. Pegou o celular, pensou em mandar uma mensagem, mas desistiu. Sabia que o certo era manter distância, dar tempo. Mas o certo nem sempre era o que o coração queria. --- Na manhã seguinte, ao chegar ao trabalho, Aline encontrou um envelope sobre sua mesa. Reconheceu a caligrafia de Paulo imediatamente. > “Aline, Há momentos em que o silêncio se torna injusto. Não quero que o medo defina o que somos ou o que poderíamos ser. Sei que há uma linha que não devemos cruzar — mas, às vezes, penso que foi o destino quem a desenhou. — P.” Ela leu e releu a carta, o coração acelerado. Não havia promessa, nem confissão explícita — apenas sentimento. E, de certa forma, aquilo a confortou. Porque, ainda que o mundo não entendesse, havia algo entre eles que era puro, simples e verdadeiro. --- Nos dias seguintes, Aline se jogou no trabalho com mais afinco. Precisava mostrar que seu mérito era real, que sua competência não dependia de ninguém. E, a cada meta atingida, Paulo sentia um orgulho silencioso. Em uma reunião, o diretor internacional comentou: — Sua assistente é excepcional, Bianchi. Inteligente, ágil e muito discreta. Paulo apenas sorriu. — Eu sei. Mas, por dentro, sentiu um nó apertar no peito. Porque sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de escolher entre a mulher e a imagem que o mundo esperava que ele fosse. --- Certa noite, Aline ficou sozinha no escritório. O som distante da chuva batendo nas janelas tornava o ambiente melancólico. Ela aproveitou o silêncio para pensar — até que ouviu passos atrás de si. Paulo estava ali. Com o paletó nas mãos, o olhar cansado e o mesmo ar de quem carregava mais do que queria admitir. — Ainda aqui? — perguntou ele. — Só terminando uns relatórios. — E pensando demais, talvez. Ela sorriu, sem negar. — É difícil não pensar. Ele se aproximou devagar. — Eu também penso. O tempo todo. Ela o olhou, e por um instante, o mundo pareceu se calar. O som da chuva, o brilho tênue das luzes, a distância mínima entre eles — tudo conspirava para um instante que parecia inevitável. Mas, antes que algo fosse dito ou feito, Aline respirou fundo e deu um passo atrás. — Paulo... — Eu sei. — Ele assentiu. — Ainda não é hora. E, naquele momento, perceberam que, apesar de tudo, ambos lutavam pelo mesmo motivo: preservar o que havia de verdadeiro. O que nascia entre eles era bonito demais para ser destruído pela pressa ou pelos olhos dos outros. --- Ao deixarem o prédio, a chuva cessava, e um arco-íris tímido começava a se formar no horizonte. Aline olhou para o céu e sorriu. Talvez fosse um sinal. Porque, mesmo separados por uma linha quase invisível, havia algo maior que os unia — algo que nem o medo, nem as aparências poderiam apagar.
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