Capítulo 13 — Entre Verdades e Silêncios
As semanas que se seguiram pareciam correr em duas velocidades.
No trabalho, tudo era movimento e prazos.
Mas, dentro de Paulo, o tempo se arrastava, pesado, cheio de perguntas que ele ainda não sabia como formular.
Desde Paris, havia algo em Aline que o intrigava ainda mais.
Ela estava diferente — mais segura, mais serena.
Era como se uma parte dela tivesse finalmente despertado.
E, embora ele não soubesse nomear o motivo, começava a sentir que havia algo que ela escondia.
Algo que ele precisava entender.
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Certa noite, depois de um longo dia de reuniões, Paulo estava em casa, revisando relatórios, quando seu celular apitou com uma notificação de uma rede social.
Um novo comentário em uma publicação antiga sobre um evento de caridade do Grupo Bianchi.
Ele clicou sem pensar — e então viu o nome: Nina Alves.
A foto do perfil mostrava apenas um close de lábios pintados de vermelho.
O comentário era breve, espirituoso — e, de algum modo, provocante:
> “Alguns eventos valem mais pela companhia do que pelo propósito.”
Paulo franziu o cenho.
A frase soava familiar, quase como algo que Aline diria quando se permitia brincar com as palavras.
Mas não podia ser.
Não fazia sentido.
Ainda assim, algo o incomodou.
Havia uma semelhança sutil na forma de escrever, na escolha das palavras, na ironia leve.
Como se Nina Alves conhecesse o modo exato de fazê-lo prestar atenção.
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Nos dias seguintes, o nome começou a aparecer mais de uma vez.
Ora em um post sobre negócios, ora em comentários deixados por outras pessoas.
Sempre discretos, sempre insinuantes.
Até que, uma tarde, o próprio colega de conselho, Rodrigo Capanema, fez uma piada durante o almoço:
— Você viu? Tem uma tal de Nina Alves que anda encantada pelo “grande Bianchi”.
Paulo arqueou a sobrancelha. — Como é que é?
Rodrigo riu. — É sério. A mulher é um mistério, mas os comentários dela... bem, digamos que ela te conhece melhor do que deveria.
Paulo disfarçou o desconforto com um sorriso controlado, mas por dentro algo se agitou.
Quem era essa mulher?
E por que tudo nela parecia ecoar algo que ele já conhecia?
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Naquela noite, ele não conseguiu dormir.
Abriu o laptop e procurou o nome “Nina Alves”.
O perfil era reservado, sem muitas informações.
Mas havia algo nos textos, nas entrelinhas, que o prendia.
Ela falava de amor, de liberdade, de máscaras — e, de vez em quando, deixava frases que soavam quase confessionais:
> “Às vezes, nos escondemos para sermos vistos.”
“Nem toda mulher recatada é frágil. Às vezes, é apenas uma força contida.”
“A coragem mais bonita é aquela de quem ama em silêncio.”
Paulo leu e releu aquelas palavras.
E sentiu um arrepio.
Porque eram dela.
Tinham o mesmo ritmo, o mesmo peso de Aline quando, raramente, deixava escapar um pensamento profundo.
Mas o que o perturbava não era a semelhança.
Era o sentimento de estar diante de uma verdade que ele ainda não estava pronto para aceitar.
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No dia seguinte, chamou Aline à sala de reuniões.
O clima estava leve, o sol atravessando as janelas de vidro e tingindo o ambiente de dourado.
— Preciso que revise o material da próxima conferência — disse ele, entregando-lhe uma pasta.
Ela assentiu, sem perceber o olhar atento com que ele a observava.
— A propósito — comentou, com aparente casualidade — você já ouviu falar em uma influenciadora chamada Nina Alves?
Aline congelou por meio segundo.
Apenas o suficiente para ele perceber.
Mas logo recuperou o controle.
— Acho que sim. Vi alguns posts dela por aí. Por quê?
— Nada demais. — Ele sorriu, estudando cada detalhe da expressão dela. — Só me pareceu... curiosa.
Ela desviou o olhar, tentando disfarçar o nervosismo.
— Imagino que esse tipo de perfil não seja o seu estilo.
— Depende do que ela escreve — respondeu ele, sem desviar o olhar. — Algumas coisas são... intensas.
Aline sentiu o coração bater mais rápido.
— O senhor sempre se interessa por esse tipo de leitura?
— Quando me faz pensar, sim. — Ele se aproximou um pouco. — E essa mulher, de algum modo, me fez pensar.
Ela forçou um sorriso. — Então já valeu a pena.
Paulo inclinou a cabeça, intrigado.
— Por que diz isso?
— Porque é raro alguém te fazer pensar. Você está sempre um passo à frente.
Ele a olhou de modo diferente — não como chefe, nem como homem encantado, mas como alguém tentando decifrar um segredo.
E, por um instante, teve quase certeza.
Mas a certeza, naquele momento, teria destruído o encanto.
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À noite, Aline entrou em casa com o coração disparado.
Encostou-se à porta e respirou fundo.
Paulo estava perto demais da verdade.
E, se descobrisse... o que aconteceria?
Abriu o laptop e entrou no perfil de Nina.
O número de seguidores havia crescido.
As mensagens, também.
Mas o que mais a incomodava era a sensação de que a linha entre suas duas versões começava a desaparecer.
Digitou lentamente, como se as palavras a queimassem:
> “Quando a verdade se aproxima demais, o silêncio se torna o único disfarce possível.”
Publicou.
E fechou o computador, com o coração em chamas.
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Na mesma noite, Paulo, sem conseguir dormir, rolava pelo celular quando viu a nova publicação de Nina.
Leu, e um arrepio percorreu-lhe a espinha.
Era como se a frase tivesse sido escrita para ele.
> “Quando a verdade se aproxima demais, o silêncio se torna o único disfarce possível.”
Ele ficou parado, encarando a tela por longos minutos.
E, no fundo, já não havia dúvida.
Sabia.
Sabia quem ela era.
Mas, em vez de confrontá-la, sorriu.
Porque, talvez, parte do encanto fosse justamente isso — o jogo silencioso entre o que ambos sabiam e fingiam não saber.
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Na manhã seguinte, quando a viu chegar ao escritório, Aline vestia um vestido azul-marinho simples e os óculos de sempre.
Mas Paulo, ao olhá-la, viu algo mais.
Viu Nina.
Viu as duas mulheres coexistindo, enfim, sem máscara.
E, nesse instante, teve a certeza de que, quando o momento certo chegasse, ele não fugiria da verdade.
Porque, às vezes, a verdade não destrói — liberta.