Pré-visualização gratuita Capítulo 1: A Chegada à Mansão Lacerda.
Capítulo 1: A Chegada à Mansão Lacerda.
O vento cortante do final de tarde trazia o cheiro pesado de maresia e de uma tempestade que se armava no horizonte. Dentro do táxi antigo, que contrastava dolorosamente com os sedãs pretos e blindados daquela região da cidade, Ana colava a testa no vidro frio. Seus dedos miúdos apertavam as alças de uma mochila gasta, com a estampa desbotada. Ela tinha apenas onze anos, mas a rigidez nos ombros de sua mãe, Ellen, já lhe dizia que a vida como conheciam havia ficado para trás.
Quando o veículo cruzou os portões monumentais de ferro fundido, ostentando o brasão reluzente da família Lacerda, o estômago de Ana despencou.
A Mansão Lacerda não era apenas uma casa; era um monumento ao poder. Erguida sobre uma colina privada com vista para o oceano, a construção de arquitetura brutalista e mármore escuro parecia um titã vigiando o mar. Vidraças imensas refletiam o céu plúmbeo, e a simetria perfeita dos jardins milimetricamente podados exalava uma frieza intimidadora. Era o império de Valentim Lacerda, o CEO cuja multinacional de petróleo ditava os rumos da economia do país. E, agora, por um capricho do destino — e do amor —, aquele palácio de vidro e opulência seria o teto de Ana.
— Lembre-se do que conversamos, minha linha — sussurrou Ellen, ajeitando o colarinho do vestido simples de Ana com as mãos levemente trêmulas. — Educação, cabeça erguida e... tente ser receptiva. Eles são nossa família agora.
Família. A palavra soava estrangeira e pesada.
O táxi parou diante da imensa escadaria de entrada. A porta foi aberta por um funcionário de terno impecável, um choque de realidade que fez Ana recuar um passo. Mas foi quando ela pisou no saguão principal que o verdadeiro mundo dos Lacerda desabou sobre seus sentidos. O teto com pé-direito triplo ostentava um lustre de cristal que parecia uma constelação aprisionada. O chão de granito polido era tão espelhado que ela conseguia ver o próprio reflexo desajeitado: os tênis surrados, a calça jeans desfiada na barra.
No centro do saguão, Valentim Lacerda os aguardava. Ele emanava uma autoridade natural, o tipo de homem cujos passos faziam salas inteiras silenciarem. Ao seu lado, no entanto, havia uma sombra menor, mas igualmente imponente.
Ana congelou.
Ali, parado com os braços cruzados e o peso do corpo jogado ligeiramente para trás, estava Cooll.
Aos doze anos, ele já possuía a postura altiva e inabalável dos Lacerda. O cabelo loiro, clareado pelo sol das praias particulares que frequentava, caía em desalinho calculado sobre a testa. Mas foram os olhos que paralisaram Ana. Eram de um azul gélido, cortante como o mar de inverno, e estavam fixos nela com uma intensidade desconfortável. Não havia curiosidade infantil ali. Havia uma barreira intransponível, uma cara de poucos amigos que deixava claro, sem uma única palavra, que ela era uma intrusa em seu território protegido.
O primeiro contato visual foi como o choque de duas massas de ar de temperaturas opostas. Uma faísca invisível e tensa estalou no espaço que os separava.
— Ellen, minha querida. Sejam muito bem-vindas — a voz de Valentim ecoou, calorosa, quebrando o transe enquanto ele abraçava a mãe de Ana e depositava um beijo suave em sua testa. Em seguida, ele se inclinou para Ana com um sorriso acolhedor. — E você deve ser a Ana. É um prazer enorme finalmente tê-la em nossa casa.
— Obrigada, senhor... quer dizer, Valentim — Ana gaguejou, sentindo as bochechas arderem.
— Cooll, venha cá — chamou o pai, gesticulando para o garoto. — Esta é a Ellen, e esta é a Ana. A partir de hoje, vocês vão dividir este espaço. Quero que a receba bem.
Cooll deu dois passos à frente, os passos silenciosos e medidos. Ele não estendeu a mão. Apenas sustentou o olhar de Ana, os olhos azuis faiscando sob os cílios claros.
— Oi — ele disse. A voz já começava a engrossar, rouca, despida de qualquer entusiasmo.
— Oi — Ana respondeu, sustentando o olhar por puro orgulho, recusando-se a abaixar a cabeça, embora o coração batesse na garganta.
A trégua forçada durou menos de dez minutos.
Enquanto os adultos conversavam no início do corredor principal sobre a transição e as malas, o motorista começou a trazer a bagagem de Ana. Eram apenas duas malas de rodinha de tamanho médio, um pouco gastas, que pareciam patéticas perto do mobiliário de design assinado que decorava o rol.
Cooll, que observava o movimento com os braços nos bolsos da bermuda de grife, soltou um estalo com a língua e se colocou estrategicamente no início da imensa escadaria de mármore que levava aos quartos.
— Onde pensam que vão levar isso? — a voz de Cooll cortou o ambiente, fria e territorialista.
O funcionário hesitou, olhando para as malas.
— O senhor Valentim ordenou que a senhorita Ana ficasse na suíte da ala leste, jovem Cooll. Ao lado da sua.
Cooll deu um passo à frente, bloqueando o caminho com o próprio corpo. Seus olhos se estreitaram, fixos em Ana.
— Aquela ala é minha. O quarto ao lado era o meu closet de inverno e a sala de jogos. Meu pai não mudaria isso por causa de... — ele mediu Ana de cima a baixo com um desdém quase imperceptível, mas altamente eficaz — ...uma mochila de rodinha.
O sangue de Ana ferveu. Toda a intimidação que sentira ao entrar na mansão se transformou em uma indignação ardente. Ela deu três passos rápidos, plantando-se bem na frente dele, a diferença de um ano de idade e alguns centímetros de altura sumindo diante da sua fúria.
— A mala não é de rodinha, e eu não pedi para ficar do lado do seu quarto! — ela rebateu, a voz firme, embora levemente trêmula de raiva. — Mas se o seu pai disse que o quarto é meu, então ele é meu. Sai da frente.
— Você não manda aqui. Você acabou de chegar — Cooll retrucou, aproximando o rosto do dela, a expressão endurecida. — Essa casa tem dono, e não é você. Suas coisas nem deveriam estar cruzando essa porta.
— Cooll! — a voz de trovão de Valentim ecoou pelo saguão, fazendo o garoto tensionar as costas imediatamente.
Valentim e Ellen se aproximaram rapidamente. O rosto do empresário expressava uma severidade que Ana ainda não tinha visto, enquanto Ellen olhava para a filha com os olhos arregalados, temendo o pior logo no primeiro dia.
— O que significa isso? — perguntou Valentim, olhando fixamente para o filho.
— Ela está invadindo a ala leste, pai. Aquele espaço...
— Aquele espaço é desta família agora — Valentim o interrompeu com firmeza, colocando uma mão pesada sobre o ombro de Cooll, forçando-o a relaxar a postura, embora o garoto continuasse rígido. — Eu já conversei com você sobre isso. A Ellen e a Ana fazem parte da nossa vida agora. A partir de hoje, vocês dois são irmãos. E eu exijo, ouviu bem, Cooll? Eu exijo que se tratem como iguais e que se deem bem.
Ellen se aproximou de Ana, tocando seus ombros com delicadeza, tentando suavizar o ambiente.
— Está tudo bem, queridos. É apenas a mudança, os ânimos estão à flor da pele... Vocês vão ver que, com o tempo, vão se amar como irmãos de verdade.
Irmãos.
A palavra flutuou no ar pesado do saguão, mas não encontrou eco na realidade. Olhando para Cooll, que agora desviava o olhar com uma mandíbula trancada de puro ressentimento, Ana soube. E Cooll, ao lançar um último olhar lateral e cortante para ela antes de se virar de costas, confirmou.
Não havia um pingo do mesmo sangue correndo naquelas veias. Eles não eram irmãos, nunca seriam, e a insistência dos pais em criar uma harmonia artificial só tornava a rejeição mútuo mais palpável.
A primeira faísca havia sido acesa no topo daquela escadaria de mármore. E, pelo brilho incendiário que ficou no ar, aquela mansão de luxo absoluto seria pequena demais para segurar o fogo que nascia entre os dois.