Dogão abriu um sorriso discreto.
— A senhora sabe o quanto eu adoro aquela carne de panela que a senhora faz, né?
Gracinha riu.
— Sei.
— E não é só ela, não. Aquela costela... a galinha caipira... o feijão então, nem se fala. A senhora cozinha pra c*****o. Tô com saudade daquilo.
Gracinha ficou emocionada.
— Obrigada, meu filho.
Ela olhou para as filhas.
— Elas falaram justamente isso. Que o pessoal do morro tava sentindo falta da minha comida.
Dogão confirmou com a cabeça.
— E tá mesmo.
Ele apoiou uma das mãos na mesa.
— Além do mais, isso vai fazer bem pra senhora.
Gracinha o encarou.
— Trabalhar de novo vai distrair tua cabeça. Não que isso vá apagar a falta que o Gerson faz...
Ele fez uma breve pausa.
— Porque essa saudade ninguém tira.
O escritório ficou em silêncio por um instante.
— Mas acordar cedo, preparar as panelas, ver o povo chegando, ouvir um "obrigado, tia", ver o pessoal saindo de barriga cheia... isso aquece o coração de novo.
Gracinha sorriu, com os olhos marejados.
— É verdade, meu filho.
Ela respirou fundo.
— Concordo com você.
Dogão sorriu de volta.
— E eu tenho certeza que teu marido ia querer ver a senhora vivendo, não só sobrevivendo.
As palavras fizeram Gracinha abaixar a cabeça por alguns segundos.
Quando levantou novamente, havia um brilho diferente em seus olhos.
— Vou fazer isso.
Ula olhou para a mãe com orgulho.
Jéssica também sorriu.
Gracinha se levantou da cadeira.
— Bom... eu não vou tomar mais o seu tempo, meu filho.
Dogão balançou a cabeça.
— Que isso, dona Gracinha. A senhora não toma meu tempo nenhum.
Ela sorriu.
— Eu só queria vir agradecer pessoalmente... e pedir permissão pra reabrir a pensão.
Dogão respondeu sem pensar duas vezes.
— A permissão a senhora já tinha desde o momento que decidiu voltar.
Ele estendeu a mão para ela.
— Seja bem-vinda de volta.
Gracinha apertou a mão dele com firmeza.
— Muito obrigada.
— E quando inaugurar de novo...
Ele sorriu de canto.
— Guarda uma marmita de carne de panela pra mim.
Gracinha caiu na risada.
— Marmita, não. O senhor vai sentar lá e comer quentinha, igual fazia antes.
Dogão riu.
— Fechado.
Ula observava a cena em silêncio.
Ver a mãe sorrindo daquele jeito, rindo de verdade outra vez, fez seu coração ficar em paz. Talvez aquele fosse o primeiro passo para que a família voltasse a encontrar um pouco de felicidade depois de tanta dor.
As três se despediram.
— Obrigada mais uma vez, meu filho. — disse Gracinha.
— Sempre que precisar, dona Gracinha.
Ula apenas fez um aceno com a cabeça.
— Tchau, Dogão.
— Se cuida.
As três deixaram o escritório.
Do lado de fora, Orelha acompanhou elas com o olhar até começarem a descer a viela.
Quando a porta fechou, ele entrou novamente, já com aquele sorriso de quem ia encher o saco do chefe.
Dogão voltou para a mesa, pegou outro relatório e fingiu que estava concentrado.
Orelha cruzou os braços.
— E aí...
Dogão nem levantou a cabeça.
— Fala.
— Foi bom rever tua musa antes dos cinco dias, né?
Dogão soltou um riso pelo nariz.
— Tu não cansa de falar merda, não?
— E ainda teve a graça de rever a sogra e a cunhada.
Dogão levantou os olhos na hora.
— Tá maluco, p***a?
Orelha caiu na gargalhada.
— Ué, tô mentindo?
— Tá viajando legal.
— A dona Gracinha é gente boa pra c*****o. E a irmã dela também parece ser firmeza.
Dogão apoiou as costas na cadeira.
— As duas são pessoas de respeito.
Orelha fez cara de quem tinha descoberto alguma coisa.
— Ihhh... falou até com carinho.
Dogão pegou uma caneta e jogou na direção dele.
— Vai trabalhar, c*****o.
Orelha desviou rindo.
— Tá bom, chefe... mas vou te falar uma parada.
— Fala logo.
— Nunca vi tu levantar daquela cadeira tão rápido quando eu falei que a Ula tava lá fora.
Dogão ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois deu um sorriso de canto.
— Eu achei que tinha acontecido alguma coisa.
Orelha percebeu que a resposta era sincera e parou de brincar por um instante.
— Também pensei nisso.
Dogão olhou pela janela do escritório, vendo as três já quase no fim da viela.
— Ela cuida de todo mundo...
Fez uma breve pausa.
— Era o mínimo saber se tava tudo bem com ela.
Orelha sorriu de lado.
— Tá bom, chefe... vou fingir que a preocupação era só de cliente.
Dogão deu uma risada.
— Some daqui antes que eu mude de ideia.
— Já fui, p***a.
Orelha saiu gargalhando.
Dogão voltou a olhar os papéis sobre a mesa, mas, por alguns segundos, sua cabeça já não estava mais nos relatórios. Ela ainda tinha ficado na imagem de Ula sorrindo ao lado da mãe e da irmã enquanto descia o morro.
Assim que terminaram de descer o morro, Gracinha sorriu para as filhas.
— Filha, pode voltar pro teu salão. Eu vou pra casa.
Jéssica concordou.
— Eu levo a mamãe e depois volto, irmã.
Nesse instante, o celular de Ula vibrou.
Ela pegou o aparelho.
— Fala.
A recepcionista falou do outro lado:
— Ula, a cliente da Jéssica acabou de chegar.
— Tá. Pede pra ela aguardar um minutinho.
— Pode deixar.
Ula desligou.
Olhou para a irmã.
— A tua cliente já chegou.
Jéssica fez menção de continuar caminhando ao lado da mãe.
— Então eu espero vocês.
Gracinha balançou a cabeça.
— Não, minha filha. Eu vou pra casa sozinha.
— Nem pensar.
Ula respondeu na hora.
— A senhora não vai sozinha, não.
Ela virou para Jéssica.
— Faz o seguinte. Vai pro salão e atende tua cliente.
— Tem certeza?
— Tenho.
Jéssica ainda ficou meio sem jeito.
— Mas...
Ula sorriu.
— Vai, pô. A mulher não tem culpa de esperar.
Ela colocou a mão no ombro da irmã.
— Leva ela lá pra salinha, atende com calma. Faz igual eu te ensinei.
— Tá bom.
— Se precisar de qualquer material e não souber onde tá, pergunta pras meninas.
— Beleza.
— E capricha nessa sobrancelha. Quero a cliente saindo de lá apaixonada pelo teu trabalho.
Jéssica deu risada.
— Pode deixar, chefe.
Ula riu.
— Agora tu tá falando igual as meninas do salão.
As duas se abraçaram.
— Boa sorte.
— Valeu, irmã.
Jéssica saiu apressada em direção ao salão.
Gracinha observou a cena e sorriu.
— Tu confia muito nela, né?
Ula olhou a irmã se afastando.
— Confio.
— Nem ficou preocupada.
— Porque eu ensinei. E sei do potencial que ela tem. Uma hora ela precisa caminhar com as próprias pernas.
Gracinha segurou o braço da filha enquanto as duas seguiam devagar pela rua.
— Tu sempre cuidando de todo mundo.
Ula deu um sorriso discreto.
— Alguém teve que aprender isso cedo.
As duas continuaram caminhando tranquilamente em direção à casa, aproveitando aquele momento raro de paz antes de Ula voltar para a correria do salão.