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1189 Palavras
Dogão abriu um sorriso discreto. — A senhora sabe o quanto eu adoro aquela carne de panela que a senhora faz, né? Gracinha riu. — Sei. — E não é só ela, não. Aquela costela... a galinha caipira... o feijão então, nem se fala. A senhora cozinha pra c*****o. Tô com saudade daquilo. Gracinha ficou emocionada. — Obrigada, meu filho. Ela olhou para as filhas. — Elas falaram justamente isso. Que o pessoal do morro tava sentindo falta da minha comida. Dogão confirmou com a cabeça. — E tá mesmo. Ele apoiou uma das mãos na mesa. — Além do mais, isso vai fazer bem pra senhora. Gracinha o encarou. — Trabalhar de novo vai distrair tua cabeça. Não que isso vá apagar a falta que o Gerson faz... Ele fez uma breve pausa. — Porque essa saudade ninguém tira. O escritório ficou em silêncio por um instante. — Mas acordar cedo, preparar as panelas, ver o povo chegando, ouvir um "obrigado, tia", ver o pessoal saindo de barriga cheia... isso aquece o coração de novo. Gracinha sorriu, com os olhos marejados. — É verdade, meu filho. Ela respirou fundo. — Concordo com você. Dogão sorriu de volta. — E eu tenho certeza que teu marido ia querer ver a senhora vivendo, não só sobrevivendo. As palavras fizeram Gracinha abaixar a cabeça por alguns segundos. Quando levantou novamente, havia um brilho diferente em seus olhos. — Vou fazer isso. Ula olhou para a mãe com orgulho. Jéssica também sorriu. Gracinha se levantou da cadeira. — Bom... eu não vou tomar mais o seu tempo, meu filho. Dogão balançou a cabeça. — Que isso, dona Gracinha. A senhora não toma meu tempo nenhum. Ela sorriu. — Eu só queria vir agradecer pessoalmente... e pedir permissão pra reabrir a pensão. Dogão respondeu sem pensar duas vezes. — A permissão a senhora já tinha desde o momento que decidiu voltar. Ele estendeu a mão para ela. — Seja bem-vinda de volta. Gracinha apertou a mão dele com firmeza. — Muito obrigada. — E quando inaugurar de novo... Ele sorriu de canto. — Guarda uma marmita de carne de panela pra mim. Gracinha caiu na risada. — Marmita, não. O senhor vai sentar lá e comer quentinha, igual fazia antes. Dogão riu. — Fechado. Ula observava a cena em silêncio. Ver a mãe sorrindo daquele jeito, rindo de verdade outra vez, fez seu coração ficar em paz. Talvez aquele fosse o primeiro passo para que a família voltasse a encontrar um pouco de felicidade depois de tanta dor. As três se despediram. — Obrigada mais uma vez, meu filho. — disse Gracinha. — Sempre que precisar, dona Gracinha. Ula apenas fez um aceno com a cabeça. — Tchau, Dogão. — Se cuida. As três deixaram o escritório. Do lado de fora, Orelha acompanhou elas com o olhar até começarem a descer a viela. Quando a porta fechou, ele entrou novamente, já com aquele sorriso de quem ia encher o saco do chefe. Dogão voltou para a mesa, pegou outro relatório e fingiu que estava concentrado. Orelha cruzou os braços. — E aí... Dogão nem levantou a cabeça. — Fala. — Foi bom rever tua musa antes dos cinco dias, né? Dogão soltou um riso pelo nariz. — Tu não cansa de falar merda, não? — E ainda teve a graça de rever a sogra e a cunhada. Dogão levantou os olhos na hora. — Tá maluco, p***a? Orelha caiu na gargalhada. — Ué, tô mentindo? — Tá viajando legal. — A dona Gracinha é gente boa pra c*****o. E a irmã dela também parece ser firmeza. Dogão apoiou as costas na cadeira. — As duas são pessoas de respeito. Orelha fez cara de quem tinha descoberto alguma coisa. — Ihhh... falou até com carinho. Dogão pegou uma caneta e jogou na direção dele. — Vai trabalhar, c*****o. Orelha desviou rindo. — Tá bom, chefe... mas vou te falar uma parada. — Fala logo. — Nunca vi tu levantar daquela cadeira tão rápido quando eu falei que a Ula tava lá fora. Dogão ficou em silêncio por alguns segundos. Depois deu um sorriso de canto. — Eu achei que tinha acontecido alguma coisa. Orelha percebeu que a resposta era sincera e parou de brincar por um instante. — Também pensei nisso. Dogão olhou pela janela do escritório, vendo as três já quase no fim da viela. — Ela cuida de todo mundo... Fez uma breve pausa. — Era o mínimo saber se tava tudo bem com ela. Orelha sorriu de lado. — Tá bom, chefe... vou fingir que a preocupação era só de cliente. Dogão deu uma risada. — Some daqui antes que eu mude de ideia. — Já fui, p***a. Orelha saiu gargalhando. Dogão voltou a olhar os papéis sobre a mesa, mas, por alguns segundos, sua cabeça já não estava mais nos relatórios. Ela ainda tinha ficado na imagem de Ula sorrindo ao lado da mãe e da irmã enquanto descia o morro. Assim que terminaram de descer o morro, Gracinha sorriu para as filhas. — Filha, pode voltar pro teu salão. Eu vou pra casa. Jéssica concordou. — Eu levo a mamãe e depois volto, irmã. Nesse instante, o celular de Ula vibrou. Ela pegou o aparelho. — Fala. A recepcionista falou do outro lado: — Ula, a cliente da Jéssica acabou de chegar. — Tá. Pede pra ela aguardar um minutinho. — Pode deixar. Ula desligou. Olhou para a irmã. — A tua cliente já chegou. Jéssica fez menção de continuar caminhando ao lado da mãe. — Então eu espero vocês. Gracinha balançou a cabeça. — Não, minha filha. Eu vou pra casa sozinha. — Nem pensar. Ula respondeu na hora. — A senhora não vai sozinha, não. Ela virou para Jéssica. — Faz o seguinte. Vai pro salão e atende tua cliente. — Tem certeza? — Tenho. Jéssica ainda ficou meio sem jeito. — Mas... Ula sorriu. — Vai, pô. A mulher não tem culpa de esperar. Ela colocou a mão no ombro da irmã. — Leva ela lá pra salinha, atende com calma. Faz igual eu te ensinei. — Tá bom. — Se precisar de qualquer material e não souber onde tá, pergunta pras meninas. — Beleza. — E capricha nessa sobrancelha. Quero a cliente saindo de lá apaixonada pelo teu trabalho. Jéssica deu risada. — Pode deixar, chefe. Ula riu. — Agora tu tá falando igual as meninas do salão. As duas se abraçaram. — Boa sorte. — Valeu, irmã. Jéssica saiu apressada em direção ao salão. Gracinha observou a cena e sorriu. — Tu confia muito nela, né? Ula olhou a irmã se afastando. — Confio. — Nem ficou preocupada. — Porque eu ensinei. E sei do potencial que ela tem. Uma hora ela precisa caminhar com as próprias pernas. Gracinha segurou o braço da filha enquanto as duas seguiam devagar pela rua. — Tu sempre cuidando de todo mundo. Ula deu um sorriso discreto. — Alguém teve que aprender isso cedo. As duas continuaram caminhando tranquilamente em direção à casa, aproveitando aquele momento raro de paz antes de Ula voltar para a correria do salão.
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