CAPÍTULO – O CÃO NÃO ESQUECE [NARRADO POR MARTÍN DELGADO – HAVANA, CUBA] Acordei antes do sol nascer. Como sempre. Velho hábito de quem já dormiu em toca de guerrilha, porão de traficante e buraco de cemitério. A cidade ainda tava escura. Mas meu peito… aceso. Forte. Com aquela velha dor que avisa: a guerra vai começar de novo. Levantei da cama sem acender a luz. Meus pés sabiam o caminho. A alma, também. Fui até a varanda. A madeira estalava como se também lembrasse. Lá fora, o cheiro de mar, rum barato e pólvora antiga. Peguei o charuto. Acendi. Primeira tragada. O gosto de sempre: fumaça e passado. Havana é uma cidade de fantasmas. E eu sou um deles. Meu nome é Martín Delgado. Tenho sessenta e sete anos. E já matei mais gente do que caberia num cemitério pequeno.

