Um simples esbarrão. Foi só isso. Nada que qualquer pessoa não vivencie num corredor cheio da faculdade. Mas não para mim. Não com ele. Não com Noah.
Eu estava saindo da aula de Teoria da Literatura, com meus livros colados ao peito, tentando me lembrar de respirar normalmente. O calor dele ainda estava na minha pele. Ou melhor, a ideia dele. A memória de todos os olhares não ditos, dos silêncios gritantes, da tensão que crescia a cada dia.
Aquele dia começou como outro qualquer. Acordei atrasada, o café esfriou, e meu cabelo insistiu em ficar rebelde como meu coração. Ana tinha ido mais cedo para estudar para a prova de bioquímica, então fui sozinha, o que não ajudou muito a manter meus pensamentos afastados de Noah.
Estava distraída, caminhando entre estudantes que conversavam animados, quando virei no corredor do segundo andar e... esbarrei.
Foi forte. Não o bastante para me derrubar, mas o suficiente para meus livros escorregarem e meu equilíbrio vacilar. Dois braços firmes me seguraram.
Dois braços que eu conhecia.
Dois olhos que queimavam os meus.
— Devia olhar por onde anda — ele disse, mas a voz não tinha raiva. Tinha algo mais. Algo baixo, rouco. Quase... roubo.
Meus olhos subiram para o rosto dele, e eu o odiei por um segundo. Por estar tão perto. Por ter esse cheiro. Por ter essa pele. Por me fazer querer esquecer tudo o que ele já tinha feito.
— Foi você quem virou a esquina igual a um furacão — respondi, irritada.
Ele arqueou uma sobrancelha, um meio sorriso curvando seus lábios.
— Gosto de furacões. Eles não pedem licença.
Aquilo me pegou desprevenida. Como tudo que ele fazia. Como o modo como seus dedos ainda estavam em meus braços, como se o tempo tivesse congelado e ele esquecesse de soltar. Ou não quisesse.
— Pode soltar — falei baixo.
Ele soltou. Devagar.
Me abaixei para pegar meus livros e, para minha surpresa, ele fez o mesmo. Suas mãos tocaram as minhas por um segundo, e senti como se uma corrente elétrica tivesse subido pela minha espinha.
Puxei os dedos de volta como se queimassem.
— Não precisa me ajudar — murmurei.
— Sei que não precisa. Mas quero.
A frase flutuou no ar entre nós. Olhei para ele, tentando encontrar o sarcasmo habitual. Mas ele não estava sorrindo. Ele estava... sério.
— Por quê?
Ele ficou em silêncio por um instante, depois respondeu:
— Porque você me irrita.
— E isso faz você querer me ajudar?
— Isso faz eu querer entender o porquê você consegue entrar na minha pele sem sequer me tocar.
Meus olhos arregalaram. Não esperava sinceridade. Não esperava esse tipo de confissão. Ainda mais de Noah.
— Não sei o que você quer de mim — disse, me afastando.
Ele não me impediu. Não tentou me segurar. Mas seus olhos ficaram presos nos meus, como se ele estivesse lutando contra alguma coisa dentro dele.
— Eu também não sei. Mas sei que você sente.
Virei as costas, tentando me recompor. O corredor seguia em movimento, mas parecia distante, borrado, como se minha pele ainda vibrasse com o toque dele.
Porque vibrava.
A partir daquele esbarrão, tudo mudou. As provocações se intensificaram. Os olhares, mais demorados. As palavras, mais afiadas. Como se estivéssemos num jogo que nenhum dos dois queria parar, mas também temíamos ganhar.
Ele me seguia com o olhar sempre que entrava numa sala. Eu fingia ignorar, mas meu coração não fingia nada. Ele acelerava. Me traía. Gritava o nome dele em silêncio.
E, uma noite, o inevitável aconteceu.
Estava saindo da biblioteca. Tarde. Chovia lá fora. A faculdade estava quase vazia. Virei para o estacionamento, onde meu carro me esperava sozinho, e lá estava ele.
Encostado em sua moto, molhado da chuva, com uma expressão que eu não sabia decifrar. Algo entre fúria e desejo.
— Vai me seguir agora? — perguntei.
— Vim te levar pra casa.
— Não preciso.
— Eu sei. Mas quero.
De novo, aquela frase. Mas agora, ela doía. Porque ele queria... mas não sabia como. Porque eu queria... e não conseguia resistir.
Me aproximei.
— Por que você faz isso, Noah?
— Faço o quê?
— Me confunde. Me provoca. Me evita. Me persegue. Me toca como se eu fosse sua... e depois finge que não me vê.
Ele respirou fundo. Seus olhos arderam nos meus.
— Porque você é a única coisa que faz sentido nesse caos que eu sou. E isso me assusta.
Antes que eu pudesse reagir, ele deu um passo. E outro. Até estar perto o suficiente para eu sentir o calor de sua pele, mesmo com a chuva.
— E se eu te beijar agora... você vai fugir?
Engoli seco. Não consegui responder. Porque eu queria. Com todas as minhas forças. Mas também queria me proteger.
Ele não esperou resposta.
A mão dele foi para minha nuca. A outra, para minha cintura. E seu rosto veio devagar, como se me desse tempo de recuar. Mas eu não recuei.
Fechei os olhos.
E esperei o toque.
Mas ele não veio.
Seus lábios pararam a um centímetro dos meus. E ali, no meio da chuva, com nossos corpos colados, ele disse:
— Ainda não. Você vai me odiar se for agora. E eu quero que você me deseje mais do que me odeia.
E então... ele se afastou.
Me deixando lá, tremendo. Molhada. Desejando o que ainda não foi. E temendo o que virá.
Ela estava lá. Clara. Alta, perfeita, a pele bronzeada pelo sol artificial e os olhos cravados em Noah como se ele fosse um troféu que ela nunca permitiria que ninguém tocasse.
O problema?
Ele já tinha me tocado.
Mesmo que tivesse sido só um toque acidental. Mesmo que ele tenha fingido que nada aconteceu. Mesmo que ele tenha saído andando como se o calor que me atravessou o corpo inteiro não tivesse incendiado ele também.
Mas eu vi. Eu senti.
E, pior, ela também.
Clara me olhou como se eu tivesse roubado algo dela. Como se eu tivesse violado uma regra silenciosa que só os populares conhecem. Como se eu, a garota invisível, tivesse cometido o pecado imperdoável: ser notada por ele.
E ela odiou.
Odiou o jeito como ele me encarou quando pensou que ninguém estava vendo.
Odiou a maneira como eu sorri — sem querer — depois que ele passou por mim no corredor.
Odiou, porque naquele segundo, por menor que tenha sido, eu existi no mundo dele.
E quando ele me deixou ali, sozinha, com o coração acelerado e a respiração presa, ela sorriu. Um sorriso vitorioso, venenoso, como quem diz: Você nunca vai ser suficiente.
Mas o que ela não sabia… era que eu também estava começando a odiar.
Odiar o poder que ele tinha sobre mim.
Odiar o fato de que um simples olhar dele desestrutura tudo o que eu acreditava sobre mim.
Odiar ainda querer mais.
E mesmo assim… quando ele olhou para trás — só por um segundo, só por mim — eu soube. Ainda não tinha acabado.
Na verdade, estava só começando.
Ele me questiona, me provoca, me incendeia com palavras.
Eu debocho, como se depois do beijo tivesse uma força interior.
E eu o deixo em chamas. E me vingo o fazendo sentir frágil com o meu toque.
Ele me seguiu no corredor como uma sombra que não sabia ser discreta.
E eu deixei. Parte de mim queria isso. Ver até onde ele ia. Sentir se era apenas um jogo… ou se ele estava mesmo quebrando por dentro.
— Você me evitou de propósito? — ele perguntou, a voz rouca, carregada de frustração e desejo contido.
Virei-me devagar, parando diante da parede, onde ele me encurralou com o corpo sem precisar me tocar.
— Eu me respeitei — rebati. — Coisa que você deveria tentar.
Ele passou a língua pelos lábios, tenso.
— Você não sabe o que está fazendo comigo.
— E você não faz ideia do que já fez comigo, Noah.
A dor que me consumiu depois da rejeição ainda vibrava sob a pele, mas agora tinha se transformado em algo mais afiado. Forte.
E, estranhamente, sensual.
— Eu pensei em você todos esses dias — ele confessou. — Em como você me olha. Como me desafia. Em como seus olhos me olha como se quisesse que te beijasse até me destruir.
Abaixei os olhos por um instante, sentindo o sangue ferver. Quando voltei a encara, meu sorriso era ácido.
— Talvez eu queira.
— E se eu gostar disso?
Aquilo me desmontou por dentro.
Porque, no fundo, eu também gostava.
Da raiva.
Da tensão.
Do jogo.
Então, fiz o que ele não esperava.
Aproximei meu rosto dele.
E com a voz baixa, quase um sussurro, disse:
— Então torça para eu não te tocar de novo. Porque, da próxima vez, você não vai conseguir se afastar.
Vi o impacto da minha frase nos olhos dele.
Foi como dar um tiro certeiro no ego inflado que ele exibia como armadura.
Ele recuou.
Não muito.
Mas o suficiente para eu perceber…
Eu estava no controle agora.
E isso me deu um gosto viciante de poder.
Mas antes que eu pudesse virar as costas e sair vitoriosa da cena, ele segurou meu pulso. Com força, mas sem violência. Apenas firme.
Seu olhar era de súplica, de fúria, de desejo. Tudo ao mesmo tempo.
— Me odeia tanto assim?
Minha garganta apertou. Porque não.
Eu não o odiava.
E esse era o verdadeiro problema.
— Eu odeio o que você faz comigo — sussurrei. — Odeio não conseguir te ignorar. Odeio lembrar do seu olhar me despindo.Odeio que você ainda consiga me deixar assim...
Desviei o olhar, sentindo os olhos arderem. Ele soltou meu pulso. Devagar.
— Eu te feri. Eu sei. Mas você também me fere quando finge que nada aconteceu.
Engoli em seco, ainda sem conseguir encará-lo.
— Talvez seja isso que nos conecta, Noah. As nossas feridas.
Ele deu um passo para trás. Dessa vez, sem ironias, sem arrogância.
— E se for? O que a gente faz com elas?
Respirei fundo.
Ainda não sabia.
Mas uma coisa eu sabia:
Ele não era mais só o garoto que me humilhou.
Era o homem que, sem perceber, estava implorando para ser tocado de novo.
E eu estava perigosamente perto de ceder.