Capítulo 3 — Quando Tudo Mudou

1238 Palavras
Desde aquele dia na aula de Literatura, Noah não tentou mais se aproximar. Não me chamou, não me olhou, não me provocou. E isso me irritava mais do que todas as suas provocações juntas. Era como se ele tivesse perdido o interesse. Como se minha resposta ácida tivesse colocado um ponto final na nossa tensão. Mas não havia nada encerrado. Não para mim. Porque a cada vez que eu cruzava o pátio e não o via, sentia um vazio estranho. A cada vez que ele passava por mim e olhava para qualquer outra pessoa, menos para mim, uma pontada de raiva — e outra de algo que eu me recusava a admitir — tomava conta de mim. Curiosidade. O que ele estava pensando? Por que recuou? E por que, diabos, isso me incomodava tanto? — Você está obcecada — disse Ana, minha amiga de sempre, com o cenho franzido enquanto mordia um pedaço de pizza no refeitório. — Ele é só mais um garoto i****a com um rostinho bonito. Balancei a cabeça, tentando rir. Mas até meu riso soava falso. — Não estou obcecada. Só acho estranho. Ele me infernizou durante semanas e agora sumiu. É... incoerente. Ela arqueou a sobrancelha, limpando os dedos com um guardanapo. — Ah, sim. Porque Noah é conhecido por ser coerente. Suspirei. Ela tinha razão. Mas havia algo além. E então, dois dias depois, ele voltou a me olhar. Estávamos na biblioteca, por coincidência ou destino — eu ainda não sabia — sentados em mesas opostas. E pela primeira vez em dias, nossos olhos se encontraram. Foi um segundo. Um instante. Mas doeu. Como um choque. Ele não sorriu. Não debochou. Só olhou. De verdade. Como se me visse. Como se estivesse tentando decifrar algo dentro de mim. E então, como se não suportasse o que viu, desviou os olhos. A partir dali, as faíscas voltaram. Lentas. Discretas. Mas reais. Noah começou a aparecer em lugares onde nunca o vi antes. No café perto da sala dos veteranos. No jardim onde eu costumava sentar para ler. Na saída da minha aula de Psicologia. Mas ele não falava comigo. Ele apenas... estava. E isso me enlouquecia. Certa tarde, decidi acabar com a dúvida. Estava na cantina, pegando um café, quando senti sua presença atrás de mim. Era como um calor que se aproximava lentamente, encostando na pele mesmo sem tocar. Virei-me devagar. — Vai me seguir por quanto tempo antes de dizer alguma coisa? Ele sorriu, aquele sorriso que misturava charme com sarcasmo. Mas seus olhos estavam diferentes. Mais sombrios. Quase... melancólicos. — Eu não te sigo. Só esbarro em você com frequência — respondeu, a voz baixa e rouca. — Coincidência, então? Ele deu de ombros, pegando uma garrafinha de água do balcão. Ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer: — Às vezes, manter distância é o melhor jeito de evitar estragos. Aquilo me pegou de surpresa. — Estragos? Você acha que se aproximar de mim causaria algum tipo de dano? Ele desviou os olhos, como se não quisesse responder. Mas respondeu mesmo assim: — Já causei estragos demais em outras pessoas. Meu coração apertou. Havia algo naquele tom. Uma ferida escondida. Um peso que ele carregava atrás daquela fachada de arrogância. — E comigo? — perguntei, desafiando. — Já causou? Ele me olhou como se minha pergunta tivesse cortado algo nele. Então deu um passo em minha direção. — Ainda não. Mas talvez cause. É por isso que estou tentando... manter distância. Sorri. Um sorriso ácido, ferido. — Já fez isso antes. E eu sobrevivi. Noah inclinou-se levemente, e seus olhos prenderam os meus. — Sobreviveu... mas ficou com raiva. E eu não consigo parar de pensar em como você fica linda quando está brava. Um silêncio pesado se instalou entre nós. Denso. Elétrico. Cheio de tudo que não podia ser dito. Naquele instante, percebi. Ele não tinha perdido o interesse. Ele estava lutando contra ele. Contra mim. E eu... estava começando a perder essa luta. Porque no dia seguinte, quando ele apareceu com outra garota nos braços, sorrindo como se eu nunca tivesse existido... algo dentro de mim mudou para sempre. Tentei agir como se aquilo não tivesse mexido comigo. Como se o que ele dissera não tivesse feito algo derreter dentro do meu peito. Mas fez. A maneira como Noah falou... como se estivesse tentando me proteger dele mesmo, me confundia e me atraía na mesma medida. E eu odiava isso. Eu não queria me sentir atraída por alguém que já havia me ferido. Eu não queria sentir esse arrepio estranho sempre que o via se aproximar. Mas o fato era: eu sentia. E ele sabia. Nos dias seguintes, o jogo recomeçou. Só que agora era mais sutil. Mais perigoso. Ele se aproximava sem tocar. Olhava sem sorrir. Falava com outros, mas seus olhos me buscavam no meio da multidão. Na sala de aula, quando eu respondia algo que o professor perguntava, ele era o primeiro a reagir com aquele sorrisinho no canto da boca. Como se dissesse: “Essa é a garota que me desafia.” Mas ele nunca dizia nada direto. Nunca dava o próximo passo. Era como se me cercasse sem me alcançar. Como se estivesse criando uma tensão só para depois me abandonar com ela presa no corpo. E eu comecei a explodir por dentro. Até que, numa quarta-feira qualquer, depois de mais um desses encontros silenciosos na biblioteca, resolvi fazer o que sempre evitei: conversar sobre ele com Ana. — Você acha que ele gosta de mim? Ela me olhou por cima dos óculos, desconfiada. — Acho que ele está obcecado. Mas gostar...? Não sei, amiga. Ele é um caos ambulante. — Mas tem algo ali, você não sente? — Sinto que ele te olha como se quisesse te devorar viva. Isso é óbvio. Mas sentimentos...? Noah parece não permitir isso nem pra ele mesmo. As palavras dela ficaram ecoando na minha mente. Talvez ela tivesse razão. Talvez fosse isso o que me atraía tanto: ele era como uma tempestade prestes a acontecer. E eu estava cansada de ser a brisa controlada. Eu queria sentir o raio. O trovão. O vendaval. Queria sentir tudo que ele me fazia desejar... mesmo sem dizer uma única palavra. Naquela mesma noite, fui a uma festa do campus. Por insistência de Ana. Prometi a mim mesma que me divertiria. Que esqueceria Noah, nem que fosse por algumas horas. Mas bastou entrar no salão e vê-lo encostado na parede, com uma cerveja na mão e uma garota sorrindo ao lado, para minha promessa se esfarelar. Ele me viu. E eu vi quando seus olhos pousaram em mim como se o mundo tivesse parado. Mas ele não saiu do lugar. Nem soltou a cintura da loira que estava com ele. Só me olhou. Firme. Feroz. Ardente. E eu... fui embora. Fingi que não doeu. Fingi que não importava. Mas no fundo, cada passo que eu dava longe dali parecia ecoar em mim como um grito preso. Naquela noite, deitada na cama, com o coração apertado e o corpo quente de raiva, percebi algo que tentava negar: Eu não queria distância. Eu queria confronto. Queria que ele me beijasse como se odiasse o fato de não conseguir se afastar. E no fundo, eu queria exatamente isso... Que ele me beijasse com raiva. Mas eu ainda não sabia que o próximo encontro não seria um olhar... e sim um impacto.
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