CAPÍTULO 3.

2162 Palavras
Pessoalmente, eu concordava quando meus colegas diziam que o último mês de aula era sempre o pior. Os alunos ficavam afoitos, afobados com as férias e com a ideia de faculdade. Com isso, tinha pouca concentração e muito barulho, não tinha Cristo nos céus nem na terra que contesse a animação daqueles quase adultos. Para completar, hoje era sexta-feira e todos só sabiam falar de festas, sair para beber e blá, blá, blá. — Pessoal... Eu sei que estão animados com o fim do ano letivo, mas preciso que façam silêncio para que eu possa fazer a chamada. Alguns resmugaram, rindo logo em seguida, mas ficaram quietos. Eu já estava acostumada com esse comportamento e, assim como eles, eu também estava esgotada e cansada. Deus é testumanha de como eu queria férias, necessitava de férias. Particularmente, esse ano foi o mais difícil para mim. Tive que esconder de toda forma que consegui o meu perfil no newadult e, talvez por sorte, ninguém que eu conhecia sabia que, além de professora, eu era camodel nas horas vagas. Talvez porque eu tenha optado por bloquear pessoas da minha região, mas, ainda assim, ficava insegura. Newadult era minha segunda renda. Era um site adulto onde as pessoas se exibiam na webcam. Não necessariamente de forma s****l, eu por exemplo, as vezes apenas batia papo com homens solitários e ganhava dinheiro por isso. Homens carentes e sem atenção eram os meus favoritos justamente por isso, bastava apenas dizer as palavras certas e eu tinha 200 dólares na minha conta. Eu vivia uma vida dupla a bastante tempo: de manhã, era a doce professora de ensino médio ou "dona" Abigail. A noite, eu me transformava em Laibaby, a provocante, travessa e sensual camgirl do newadult. Meu perfil lá, atualmente, era master. Por isso meu público — pelo menos parte dele — consistia em velhos ricos, alguns anônimos. Tinha alguns favoritos na plataforma, um ou dois, no máximo. Jamais deixei que a relação se estendesse além do próprio newadult, sabia quão perigoso isso era e não queria arriscar nem a minha identidade, muito menos a minha vida ou a vida da minha família. Não que fossem um risco de fato, já que a maioria morava nos Estados Unidos e duvido que viriam para o Brasil por causa de uma camgirl. Embora servisse como uma boa fonte de renda extra, eu não precisava tanto do dinheiro que conseguia no newadult. Já tinha guardado uma quantia muito, muito boa nos longos anos que trabalhei lá. Podia viver facilmente com o salário que estava ganhando trabalhando no Agnes Elite. Já tinha decidido a algum tempo que queria deixar essa parte da minha vida para trás. Eu gostava do site, adorava a atenção que recebia, mas tinha que botar um ponto final ou alguém podia acabar descobrindo. — Roberto. — houve silêncio, olhei em volta a procura do garoto e novamente, ele não estava presente. Já era o terceiro dia. — Ué, de novo, gente? — Ouvi dizer que a mãe tá querendo tirar ele da escola, dona. — foi a vez de Diego. Franzi as sobrancelhas em tom de surpresa. — Faltando um mês para terminar o ano letivo? — ele assentiu. Dei de ombros, prosseguindo com a chamada. Parando para pensar, nesses três dias Roberto não tinha me mandado nenhuma mensagem. Não tinha sequer respondido a última mensagem que eu enviei, o que era estranho porque ele podia demorar, mas sempre respondia. Prosseguindo e finalizando a chamada, me preparei para iniciar a aula. ㅤ ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ••• ㅤ Eu não costuvama deixar que os problemas pessoais dos meus alunos atrapalhassem no andamento das minhas aulas. Fazia o que podia, da forma mais profissional possível, para ajudá-los. Não me manifestava, a menos que eles viessem até mim. Entretanto, a situação com Roberto estava me deixando aflita. Faltavam exatamente uma semana e 3 dias para o termino das aulas, Roberto não aparecia desde o começo do mês, não tinha mandado mensagens, muito menos ligado. Perguntei a Diego, seu melhor amigo e a Lara, sua espécie de amiga colorida, nenhum dos dois tinha notícias do mesmo a dias. — Eu soube que a mãe pegou o celular dele, parece que ele aprontou algo sério dessa vez. Nunca vi a tia tão brava. Quando questionado, foi isso que Diego me respondeu hoje de manhã, após, por mais um dia, Roberto não responder a chamada na sua vez. Eu não podia deixar que isso afetasse o meu desempenho, por isso prossegui com minha aula. Acabei pegando meu celular algumas vezes, estava trocando mensagens com um Master do newadult já a alguns dias. O cara era rico, do tipo muito rico, e me fazia rir na maioria das nossas conversas. Como eu não estava em transmissão no momento ou numa secretroom com ele, nos limitavamos ao chat transmissor x assinante que a plataforma oferecia. Ele me parecia ser alguém muito sério, talvez mais velho do que eu achava que fosse — uns 40 anos ou mais — e embora eu soubesse que o interesse dele em mim era puramente por fetiche s****l, ainda assim gostava de manter nossas conversas, que era muito bem pagas, quando eu queria. Rickspd era o nome de usuário que ele usava e pelo visto, era um m****o do newadult a bastante tempo, contudo, ele não assistia a nenhum outro canal além do meu, pelo o que parecia. Talvez isso fizesse com que eu me sentisse um pouquinho especial. Ele, assim como outros usuários de influência, optara pelo anonimato e eu nunca soube muito sobre ele além das breves informações que ele me dava. — Abigail? — olhei para a diretora da escola parada a porta, me encarando. — Sim, diretora? — o olhar pelo óculos redondo de armação bege parecia furioso. Ainda assim, ela se manteve calma quando disse: — Pode me acompanhar, por favor... Senhorita? Assenti, deixando um aluno qualquer responsável por vistoriar a sala enquanto eu não voltava. A diretora estava com a cara de poucos amigos, não me disse do que se tratava quando perguntei, ao invés disso, suspirou profundamente como se estivesse controlando a raiva. Acompanhei ela até a direção, calada. Ao entrarmos na sua sala, encontrei a mãe de Roberto, seu marido e o próprio Roberto sentados ao redor da mesa. Franzi as sobrancelhas, Roberto estava o tempo todo encarando o chão, com uma expressão de medo no rosto. — Bom dia... — nenhum deles respondeu, ao invés disso, me encararam com desprezo e nojo. Era evidente o enorme ponto de interrogação estampado no meu rosto. Não estava entendendo absolutamente nada. — Esses são Denise e Jorge Menezes, pais do Roberto. E essa é... — A prostituta que seduziu meu filho! — a mãe dele disse um pouco alto demais e eu arregalei meus olhos levemente surpresa. — eu devia chamar a polícia! — Mãe! — Cale a boca, Roberto! — Senhora menezes, isto não é necessário. O intuito de estarmos aqui é justamente esclarecer tudo isso e entendermos o que está acontecendo. — Sabemos muito bem o que está acontecendo, diretora. — Foi a vez do pai — Essa... Essa mulher viu a posição do meu filho e quis se aproveitar dele, se aproveitar do nosso dinheiro. — Mas o que... — a diretora me lançou um olhar de censura, dizendo silenciosamente que eu calasse minha boca. Mas eu não ia ficar parada ali vendo aqueles dois me ofenderem por coisas que, em parte, eu obviamente fiz. Roberto não me olhou uma vez sequer. O que quer que ele tenha dito para os pais, os fez pensar que eu tinha seduzido ele, quando eu nunca o obriguei a nada. — Peço perdão, senhor e senhora Menezes. Mas eu não obriguei ninguém a fazer nada. — Espera mesmo que acreditemos nisso? Você não passa de uma mulher qualquer. — ela cuspiu as palavras na minha cara. — Eu não sabia, diretora, que vocês aceitavam qualquer um no corpo docente de vocês, é uma vergonha para essa escola, uma vergonha para nós que contribuímos tanto com ela! Os pais de Roberto de fato contribuíam bastante mensalmente com a escola. O filhinho i*****l deles estudou praticamente a vida toda aqui. A diretora ficou ainda mais branca quando a remota possibilidade de perder os principais patrocinadores passou pela sua cabeça. Ela engoliu o seco. — Está coberta de razão, senhora Menezes. As devidas providências serão tomadas, não se preocupe. — Vocês ao menos se deram o trabalho de pesquisar a vida de quem contratam para trabalhar aqui. Se tivessem procurado saberiam que o segundo trabalho dessa mulher é num site pornô! — eu quase parei de respirar quando ela disse aquilo. Seria possível que tivessem encontrado meu perfil no newadult? A megera Menezes se levantou e com o celular na mão mostrou algo pra diretora que me encarou, ainda mais pálida. — uma prostituta virtual! — Abigail... Isso não é possível, isso é verdade? — me aproximei das duas, observando o que tinha na tela. Quase respirei aliviada quando vi que o perfil, na verdade, era um perfil muito antigo meu, de quando eu tinha 17 anos. Não deixei que as duas velhas reparassem no meu súbito alívio. Estava morrendo de raiva, mas precisava manter a calma se quisesse manter meu emprego. — Esse perfil é de quase 8 anos atrás e não condiz de forma nenhuma com a pessoa que eu sou hoje — Ah, pois eu acho que condiz sim! E condiz muito. Uma pessoa capaz de se envolver com um aluno mais novo, é capaz de tudo. — Senhora, meu envolvimento com seu filho foi apenas uma vez e eu não sabia que seria professora dele... — Tenha a decência de dizer a verdade! Você entrou na cabeça do meu filho, manipulou ele por meses, fez ele se apaixonar por você! O encarei novamente e dessa vez, Roberto estava branco. Certamente não esperava que a mãe revelasse aquilo. — Não fiz a cabeça de ninguém. Caso não tenha notado, seu filho não é criança e como eu disse, nunca o obriguei a nada. Pude jurar que a vi se mexer, pronta para me bater, mas, ela apenas se recompôs e encarou a diretora. — Pra mim, isto basta! Vou tirar meus filhos dessa escola e quanto a você — ela apontou seu dedo magro medonho na minha direção. — vou fazer questão de garantir que nunca mais arrume um emprego nessa cidade, e nem em escola nenhuma. — Senhora menezes, vamos nos acalmar um pouco. Há bastante coisa a ser conversada aqui. — só então, a diretora voltou sua atenção para mim. — Quanto a você, me espere na sala dos professores. Aquilo certamente se estenderia a uma longa conversa tentando convence-la a não tirar seus filhos da escola e quanto a mim... Bom, com certeza eu seria demitida. Seja lá o que Roberto disse para mãe, distorceu totalmente o que acontecia entre nós dois e ainda me fez sair como a sedutora pornográfica de adolescentes. Já havia se passado 20 minutos desde que a diretora me pediu para espera-la aqui, quando a porta enfim se abriu. Ele veio até mim, me empurrando até a mesa e selando nossos lábios num beijo desesperado e estranho, estranho demais. O asfatei rapidamente e Roberto me olhou com raiva. — O que você tá fazendo... — Você endoidou se pensa que vamos continuar com isso, garoto. — ele parecia em choque. — me faz passar por pedófila na frente dos seus pais e espera que eu continue agindo normalmente? — você quer mesmo falar de mentiras? Nunca me contou que se prostituía na internet! Impulsivamente, dei um tapa no seu rosto. Roberto colocou a mão no lugar e me encarou chocado e com raiva, certamente, nunca tinha apanhado na vida. — Vá embora daqui. Não quero nunca mais ter que olhar pra sua cara. Me envolver com você foi o maior erro que cometi na minha vida. Ele apenas me encarava, atordoado. A porta se abriu novamente e dessa vez, a diretora estava parada lá, com minha bolsa, diários de classe e livros na mão. Roberto se virou, se mantendo calado, depois saiu. — Fracamente, achei que a essa altura você... — mas ela não continuou, apenas deixou minhas coisas em cima da mesa e me olhou novamente. — quero que pegue tudo o que for seu, e vá embora daqui. Está demitida. — Mas, diretora... — Não quero ouvir nenhum "mas"! Eu não vim aqui para negociar, vim aqui para impedir que você traga mais conflitos para essa escola. Já causou demais, e isso quase nos custou um dos maiores patrocinadores que temos. É caótico tudo isso, se descobrirem que uma ex professora se envolveu com um aluno, e pior... que essa professora está envolviida com prostituição virtual... Não vou arriscar e colocar tudo a perder. Não vou arriscar minha carreira! — Diretora... — Está demitida!
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