ANTES
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ABIGAIL LOUISE
Parei o carro no estacionamento da escola, podia ouvir a euforia dos alunos que vinha da parte de dentro do prédio. Por deus, eram 8h da manhã como eles tinham disposição para falar tão alto? Por sorte, minha primeira aula começava as 8h50, mas precisei vir mais cedo para terminar de corrigir alguns trabalhos. Se me perguntassem o porque eu escolhi essa profissão, eu não saberia dizer ao certo. Na verdade, saberia sim. Talvez gostasse do fato de que eram jovens burros adquirindo conhecimento graças a mim. Brincadeira.
O motivo real era minha mãe. O sonho dela sempre foi lecionar, ela sempre me mostrou a arte e o prazer que tinha em instruir jovens com a literatura. Por alguma razão, ela não foi atrás desse sonho quando mais nova e acabou projetando isso em mim. Eu até que gostava. Poder mostrar a eles como os livros podiam ser mágicos, como o prazer em escrever dava uma sensação de êxtase era algo que me agradava bastante.
Eu dava aulas no Agnes Elite a quase 1 ano e meio. Era uma escola particular da minha cidade e uma das mais famosas da região. Não que fosse uma região muito grande, pelo contrário.
Terminei o copo de café e o joguei no lixo que tinha na entrada para a secretária, bati meu dedo e, após o marcador de ponto confirmar a hora que eu estava entrando, liberaram a porta para que eu pudesse enfim, adentrar no meu local de trabalho. Ainda havia alguns alunos no pátio da escola rindo e conversando. Cumprimentei alguns brevemente e segui para a sala dos professores. Meus colegas de trabalho a essa hora já estavam todos em suas respectivas salas de aula, por isso eu ficaria por 50 minutos sozinhas ali. Não era r**m, afinal, todos eles eram velhos e completamente diferentes de mim. Fazia meu trabalho, mas interagia pouco com qualquer um deles.
A sala dos professores do Agnes Elite era ampla, no meio dela tinha uma grande e comprida mesa com cadeiras em volta. Normalmente, todos os professores, pelo menos todos que coubessem, sentavam ali para discutir alguns assuntos importantes sobre os alunos. No canto direito da sala tinha um pequeno hack com uma televisão e um aparelho de dvd, do lado dessa televisão tinha um sofá espaço de 4 lugares — que vários de meus colegas já foram flagrados dormindo, aliás. — do outro lado da sala tinha uma estante com livros sobre educação infantil, matemática e alguns títulos de filósofos importantes. Na mesma parede que a da estante haviam duas portas quase grudadas, uma dava para uma pequena cozinha, onde tinha uma geladeira, uma mesa com duas cadeiras e em uma grande prateleira grudada acima da mesa, dois microondas para esquentarmos nossas comidas. Na porta ao lado tinha um pequeno banheiro para os professores usarem. Alguns de meus colegas costumam fazer café aqui e isso é algo que eu agradeço imensamente. Eu amo café, meu dia não começa sem antes tomar um belo copo, de preferência um de 700ml. Me sentei de costas para a porta e comecei a corrigir os trabalhos que faltavam.
— "Como o uso da internet para ganhar dinheiro pode ser prejudicial"? — me assustei ao ouvi a voz rouca dele. — isso é algum tipo de zoação, prô?
Tombei minha cabeça para trás e encarei a figura que estava atrás de mim. Com um sorriso travesso nos lábios carnudos, meu aluno me encarou e inclinou seu corpo, deixando o rosto a poucos centímetros do meu.
— Eu odeio quando você me chama assim. — fiz questão de pronunciar cada palavra lentamente, sabendo exatamente que a atenção do garoto iria para os meus lábios. — você devia estar na aula, Roberto.
— vai me mandar para direção por isso, professora? — ele abaixou mais seu rosto e pude sentir seu hálito contra minha pele. — na verdade, tenho uma ideia que pode ser muito benéfica pra senhora.
— Que ideia?
— Você me leva pra direção e me castiga com uma série de bocetada na cara.
— Por deus. — não conseguia parar de rir.
Roberto podia ser extremamente deselegante quando queria, mas também sabia f***r tão bem quanto a maioria dos caras da minha idade que eu havia conhecido. Era de se esperar que um menino de 19 anos não soubesse quase nada sobre sexo, mas pra idade dele, Roberto sabia bastante. Me recompus, coloquei a expressão mais séria que consegui e me preparei para expulsa-lo de volta para sua sala. Me levantei calmamente, sabendo da proximidade dos nossos corpos e sabia que o volume que eu tinha na parte de trás estava próximo o suficiente para deixá-lo ereto.
— Já sei, já sei. Tô indo embora, mas me diga se não é um bom plano?
Ele sussurrou no meu ouvido, me segurou pela cintura e em seguida, mordiscou minha orelha. Roberto me puxou para si, colando de vez nossos corpos e traçou uma linha de beijos da orelha até meu pescoço. Me desvencilhei dele e me virei, pronta para expulsa-lo de vez, mas ele já tinha ido, tão silenciosamente quanto chegou, Roberto abriu a porta da sala e caminhou pela rampa que tava até o pátio da escola. Cretino. Era isso o que ele era, um cretino que poderia facilmente ser minha perdição. Estávamos jogando um jogo perigoso a muito pouco tempo. Não era fixo, tampouco era sério, mas Roberto era bastante conquistador quando queria ser e, admito, a adrenalina de me envolver com ele era prazerosa.
A minha história com Roberto, na verdade, não chegava a ser uma história, mas, basicamente, nos conhecemos numa festa em que eu fui convidada. Tinha acabado de descobrir que havia conseguido o meu primeiro emprego e resolvi sair para comemorar. Eu tive o prazer de conhece-lo naquela noite e em momento nenhum imaginei que ele seria meu aluno. Aquele dia foi a primeira vez em que me envolvi com alguém mais novo do que eu. Não que eu fosse muito velha, mas alguém de 18 anos não era bem alguém pra minha idade.
No meu primeiro dia como professora para alunos do ensino medio, tive talvez o azar — ou sorte, dependendo muito do ponto de vista — de ter a minha primeira aula justamente com a sala em que Roberto estudava. Faltava pouco para terminar o ano letivo e era o último ano dele. Eu não pretendia parar de dar aula no Agnes e saber que, muito provavelmente, Roberto iria para uma faculdade bem longe daqui era um alívio. Eu gostava do nosso envolvimento, gostava de ficar com ele sem me envolver emocionalmente, mas tinha plena noção do quão perigoso tudo isso era. Roberto, aparentemente, parecia ter a mesma linha de raciocínio. Ele tampouco demonstrava ter algum tipo de sentimento por mim e isso por si só, era um alívio. Eu me lembro perfeitamente da expressão de susto dele ao me ver, me lembrava do sorriso malicioso que tomou seus lábios.
Caminhei pela rampa que ligava a parte externa da escola até o pátio, refeitório e escadas — estas, nos dava acesso as salas de aula, na parte de cima do prédio. — O sinal de troca de professores tocou, e m*l entrei na sala de aula quando meus alunos começaram a gritar. Eu não era odiada, de início, foi difícil controlar uma sala com 35 alunos, ainda mais do ensino médio. Hoje em dia, nossa relação em mais leve, os deixava livres para conversarem depois da explicação e depois que todos me entregassem o que eu havia pedido.
— bom dia, turma. Como estamos hoje?
— Animados pra festa! — Thabata, uma aluna minha de 17 anos falou do fundo da sala.
— Que festa?
— A que eu vou dar, dona. Cê vai, né? — Diego, um rapaz loiro de olhos claros de 18 anos disse. Por diversas vezes diego havia tentando investir em mim, mas eu sempre me esquivei de forma direta.
— Cê vai, prô? — foi a vez de Roberto. O encarei e ele lançou uma picadinha para mim. Dei risada.
— Se é uma festa que você vai dar, não sei se é uma boa ideia, Diego... — todos eles riram. Diego também antes de murmurar um "poxa!" fingindo desapontamento. — Certo, certo. Quero a redação e as questões que pedi em cima da minha mesa. Pra hoje, comecem abrindo a apostila de vocês na página 27.
Aos resmungos e devagar, todos se levantaram e deixaram os papéis contendo as 15 linhas sobre modernismo brasileiro que eu havia pedido. Quando todos voltaram ao seus lugares, me sentei e peguei minha apostila.
— Luana, começa a ler pra mim?
A garota assentiu, iniciando a leitura. Luana é sem dúvida nenhuma, a minha aluna favorita. Era bolsista e tinha 16 anos, a mãe trabalhava na escola como merendeira. Luana estava grávida e o pai do bebê tinha sumido no mundo. Além de ter que estudar e lidar com a gravidez, Luana tinha que trabalhar pra ajudar em casa. Ela estudava de manhã e trabalhava a noite. Por vezes, dormiu na sala de aula porque chegava cansada do trabalho na noite anterior. Eu deixava que ela dormisse sempre que podia e se alguém viesse reclamar, que lidasse comigo depois. Também a ajudava quando ela permitia e entendia se, por algum motivo, ela não entregasse a lição de casa. Compreendia perfeitamente como tudo já estava sendo difícil para ela e não era eu quem iria dificultar ainda mais a vida acadêmica pra menina. Os olhares de pena, o preconceito de alguns pais já estavam sendo bem ruins para ela.
A aula prosseguiu normalmente, ao final do conteúdo que eu estava passando, deixei que eles ficassem livres para fazer o que quisessem. Sentindo meu celular vibrar no bolso da calça, peguei o aparelho e olhei a mensagem de Roberto que tinha acabado de chegar.
[12/11 9:42] Roberto: já disse como sua b***a fica ainda mais bonito nessa calça?
O respondi com uma mensagem provocante e observei o olhar desesperado para a porta que ele me lançou. Não era boba, eu sabia o que significava, mas não ia dar o que ele queria. Estava decidida a botar um fim nisso. Roberto me mandou um vídeo, mostrando o volume que estava se formando na calça social do uniforme.
[12/11 9:45] Roberto: venha aqui e faça algo
Suspirei.
Céus... Meu dia ia ser longo.