Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Sofia
Nunca antes tinha parado para pensar em como a vida aqui na cidade podia ser tão maravilhosa, mas nos últimos meses, tenho pensado também porque dela ter ficado cada vez mais insuportável e o motivo de tudo isso era um homem, se é que Rupert poderia ser chamado assim. Ele tinha um relacionamento com a minha mãe que consistia nele reclamando de mim e comendo o dia inteiro. Ele era praticamente sustentado pelo dinheiro que minha mãe recebia. Achava aquilo um absurdo completo.
Aquela relação deles já tinha sido motivo de várias discussões em casa. Eu achava um absurdo minha mãe aceitar toda aquela situação, mas ela me dizia que estava apaixonada e quanto mais ela falava isso, menos eu acreditava. Mesmo assim, já tinha visto relacionamentos daquele jeito, ele não a tratava m*l, o m*l comportamento e falta de educação eram todos direcionados à mim. O que era até que bom, porque se ela resolvesse tocar um dedo nela com intenção de a machucar...nossa, eu iria matá-lo.
Bom, meu nome é Sofia Song, tenho 21 anos e sou uma jovem mulher que corre sério risco de ser presa pelo assassinato do meu padrasto, que cara incrivelmente chato!
Eu estava atrasada para a faculdade, mas já tinha decidido que não iria. Hoje era o último teste para a apresentação da peça O lago dos cisnes no maior teatro de Nova York e eu tinha que pelo menos tentar uma vaga naquele espetáculo. Aquele sempre tinha sido o meu sonho. Quando minha professora de dança me falou sobre os testes, resolvi ao menos tentar. Eu não tinha falado com ninguém lá em casa sobre isso, tinha medo do que eu poderia escutar. Estava entre as seis finalistas que se apresentariam para o produtor da peça e não me perdoaria se desistisse e deixasse aquela oportunidade passar. As minhas faltas não poderiam ser repostas, mas eu tinha notas boas.
Me levantei do telhado onde estava sentada e andei até a janela do meu quarto, pulando ela e pegando minha mochila. Quando desci as escadas, vi Rupert abraçando minha mãe por trás e beijando sua bochecha. Eu até poderia dizer que eles eram fofos juntos, mas apenas se eu me retirasse da equação.
-Bom dia mãe.
-Bom dia, querida. Está atrasada.
-Como sempre. Amor, já posso escutar o telefone tocando, e vai ser a reitora.
-Rupert, está muito cedo pra isso tudo. Sente-se e vamos comer.
- Não consigo evitar, Sofia é frustrante, me irrita a falta de consideração que ela tem por você. -Rupert já começava a destilar seu veneno. Como se ele tivesse muita consideração com ela.
-Mãe, tô indo. - Disse olhando na direção dela e ela entendeu o que eu estava pensando.
-Leva uma maçã, pelo menos. Come no caminho.
-Tudo bem. Te amo, até mais.
Peguei a maçã de sua mão, dei um beijo em sua bochecha e sai pela porta de casa, colocando meus fones de ouvido e dando play no meu discman. Tive que pegar o metrô pra chegar no teatro e quando cheguei, já fui puxada até a camarim para me arrumar para o teste. Fiquei esperando na coxia e quando minha vez chegou e me chamaram eu estava tão nervosa que pensava até que minha sapatilha de balé iria se desmanchar no meu pé durante algum movimento de tão velha que ela estava, mas subi no palco mesmo assim e eu dancei como nunca tinha dançado antes.
Me libertei de todas as frustações e dúvidas sobre mim mesma naquele palco. Meu corpo se movimentava com a música e eu me sentia confortável ali como não me sentia em nenhum outro lugar. Quando minha apresentação terminou e eu voltei ao camarim, chequei a hora. Nem se eu conseguisse me teletransportar para a sala, pegaria alguma coisa da aula. Além do mais, a professora já devia ter me dado falta, então não valia a pena. O produtor disse que entraria em contato e eu peguei minhas coisas, saindo do teatro e andando calmamente pela rua.
Resolvi ir até o central park, já que estava perto e adorava aquele lugar. Fui andando pelo parque e vendo casais passeando e cachorrinhos passando por mim em suas caminhadas matinais com seus donos. Um garoto passou correndo e bateu em mim, derrubando minha bolsa no chão, ele gritou desculpa por cima do ombro e parou. Por um momento, achei que eu estivesse na trilha dos corredores, mas não estava.
O menino tinha um corte na bochecha que sangrava e segurava uma espada, eu me abaixei e peguei minha bolsa, quando levantei e arrumei a bolsa no meu ombro, levantei meus olhos e o que eu vi me fez rir. Nossa, será que eu estava no meio de alguma gravação para algum filme? Porque aquela era a única explicação que fazia sentido para o que estava acontecendo ali. Vindo na minha direção tinha uma coisa que só poderia ser considerado um monstro enorme com um olho só.
O pior de tudo é que ninguém a minha volta estava achando aquilo estranho. Ele passava entre as pessoas e ninguém fazia absolutamente nada. A cada passo dele o chão tremia e eu comecei a achar que aquilo estava muito real para ser apenas um vídeo caseiro. Gritei.
Mesmo assim, estava estática e não sabia o que fazer. Ele se aproximava e quase pisou na moça que segurava um bebê na grama, eu tentei chamar sua atenção, mas ela não me ouviu. Naquele momento, o menino com corte no rosto me puxou pelo braço e eu corri.
Nós fomos até perto da ponte, onde eu consegui me soltar de seu aperto. Ele me segurou pelo pulso de novo e me puxou para ficarmos agachados perto da ponte.
-Me solta garoto, você é maluco?
-Maluca é você! Ficou parada na frente do ciclope quase implorando pra ele te m***r. Perai, você viu o ciclope, quer dizer que...quer dizer que... ué?
-Do que você tá falando, garoto? Ah, quer saber, eu não ligo pra essa gravação de vocês, sei que é só uma brincadeira, ou você é um ator de algum filme bobo.
- Do que eu tô falando? Do que VOCE está falando? Que gravação?
-Ue, a do monstro, que nós vimos agora pouco. Aquilo é de mentira né? Deve ser alguma coisa de filme, eles sempre adoraram gravar em Nova York.
-Você acha que aquilo é de mentira? Pois pode saber que é bem real. É se você conseguiu ver quer dizer que provavelmente é uma de nós.
- Uma de nós o que menino, tá louco? - O garoto falava aquilo e eu tive certeza de que ele era maluco. Um deles, tipo o que, um culto? Eu ri e me levantei de onde estávamos escondidos.
Quando eu levantei, vi uma garota na árvore, ela desceu e pousou ao nosso lado. Ela era ruiva e também segurava sua espada. Na ponta dela, estava o olho do monstro. Eu gritei mais uma vez, dessa vez estava realmente surtando, com os olhos arregalados. Ela veio perto de mim e me deu um soco, acho que ela me nocauteou, porque logo depois disso eu desmaiei.
Fiquei um tempo desacordada, sei disso porque quando acordei novamente, estava amarrada no banco de pedra do parque, mas estava mais tarde, quase no fim da tarde. Eu podia ver o pôr do sol através das árvores. O garoto que tinha o corte na bochecha discutia algo com a garota ruiva que parecia mais velha que ele. Ou mesmo que não fosse, parecia a líder entre os dois. Eu respirei fundo e o garoto apontou na minha direção e os dois se aproximaram devagar. A menina apontou a espada para meu rosto.
-Abaixa isso, tá louca?
-Me diga o que você viu?
-Vi você me dando um soco. Posso denunciar vocês por isso, sabiam? - Disse levantando minhas mãos amarradas.
-Quero saber o que você viu do monstro, como ele era?
-Alto e f**o, e tinha o pequeno detalhe de ele ter um olho só.
-d***a.
-Calma, Susana. Ela pode ser uma mortal que enxerga através da névoa.
-Ainda assim é perigosa. Mortais assim são raras. Não, acho que ele é uma meio sangue, só não descobri de quem ainda.
-De quem o que? Do que vocês estão falando?
-Calma, estou pensando. Qual o seu nome e quantos anos você tem?
-Meu nome é Sofia e eu tenho vinte e um.
-Isso pode acontecer, Susana? Ela pode ter sobrevivido todos esses anos?
- Não sei, Jhon. Não consigo pensar com vocês fazendo tantas perguntas. Deixa eu fazer as perguntas aqui. Você sabe alguma coisa sobre mitologia?
-O básico do básico. Talvez menos que isso. Por que?
-Porque pensamos que você pode ser uma meio sangue. É o nome que se dá a filhos de deuses com mortais. Seria uma das explicações para o fato de você ter conseguido ver o ciclope.
-Ciclope?
-O nome do monstro que estava atrás de nós. Deuses, o básico do básico não era brincadeira. Enfim, não podemos explicar muito sobre isso, mas se quiser pode ir com a gente até o acampamento.
- Não, vocês podem muito bem ser dois sequestradores ou e**********s.
-Se fôssemos alguma dessas duas coisas, não acha que já teríamos te machucado de alguma forma? - O menino falou e eu parei pra pensar no que ele tinha falado, fazia sentido. -Nós só estamos tentando ajudar. Você pode ir conosco e se não quiser ficar, pode voltar quando quiser.
-Tenho que ir pra casa falar com a minha mãe sobre isso.
-Vamos com você. Não achamos nada por aqui mesmo. John, acho melhor dizermos ao Quiron que se ele quiser, ele que mande um dos sátiros dele pra fazer o trabalho. Eles são melhores que nós.
-O que vocês estavam procurando?
-Um escudo, aparentemente ele pertenceu a Midas e tem propriedades mágicas. Algum semideus o conseguiu e começou a transformar coisas aleatórias em ouro. Mas isso não é trabalho de missão, capturar semideuses fujões é responsabilidade dos sátiros.
-Então, sua mãe mora muito longe? - John perguntou andando ao meu lado enquanto seguíamos para fora do parque, a ruiva atrás de mim.
Nós pegamos o metrô de volta e estavam nos encarando durante todo o trajeto. Três adolescentes, dois vestidos com armaduras gregas completas e eu com metade de um uniforme de balé. Não era uma vista cotidiana. Nós saímos do metrô e fomos andando até minha casa. Quando chegamos, eu abri a porta, entrei com eles atrás de mim. Minha mãe estava em casa. Eu sabia porque tinha visto o carro dela estacionado.
-Mãe, cheguei.
-Estou na cozinha, querida.
Nós fomos até lá e quando minha mãe se virou com o pote de salada na mão, deixou ele cair no chão.
-Mãe.
-Eles vieram. Vieram mesmo.
-Do que você está falando?
Ela estava branca e foi até a sala, se sentando e batendo o pé. Me sentei ao seu lado e John e Susana ficaram encostados no portal da sala, como se estivessem prontos para fugir a qualquer momento.
-Amor, você sabe desde criança que eu adotei você bem pequenininha e te criei sozinha, não sabe?
-Sim, você me disse depois de eu perguntar muito durante o natal dos meus 9 anos.
-Sim. Bom, eu te disse quase toda a verdade naquele momento. Mas omiti algumas coisas.
-Tipo o que? - Ela parecia extremamente nervosa naquele momento, como se estivesse se sentindo culpada. Fiquei em silêncio e a deixei me contar a história toda.
-Você não foi exatamente adotada. Quando eu era mais nova eu queria um bebê, mas não consegui adotar, o sistema demorava tanto! Então em um dia do trabalho eu conheci um homem, ele era lindo e eu me apaixonei. Nós ficamos juntos e ele me contou de você. Disse que sua mãe tinha morrido no seu parto e eu fiquei extremamente triste. Comecei a cuidar de você enquanto nós namorávamos. Ele falava frequentemente que um dia viriam te buscar, para ir a um acampamento. E que eu deveria deixá-la ir, que seria o melhor pra você. Ele me disse que as pessoas iriam chegar vestindo armaduras e eu achei aquilo ridículo na época. Nunca achei que fosse acontecer. Um dia qualquer eu acordei e ele tinha sumido. Tinha deixado você comigo. Eu continuei cuidando de você como minha filha e esqueci esse assunto todo. Mas aqui estão eles, e você iria me falar sobre um acampamento, não é?
-Sim. Essa história está toda estranha. Por que você nunca me falou nada sobre isso antes? Por que nunca me disse o nome do meu pai?
- Sei que não faz muito sentido agora, minha querida. Mas seu pai disse que seria a única maneira de você ficar segura. E com a sua segurança eu não brinco nunca. Sei que você está confusa, mas se não confiar nesses meninos, confie em mim. Será o melhor pra você.
-Tenho que te contar o que eu vi no parque, não parecia real.
- Não deve contar a ela não. Ela é mortal e não precisa saber disso. É perigoso pra ela se envolver nesses assuntos. Nós devemos ir, demora pra chegarmos no acampamento.
- Mãe, não posso deixar tudo aqui. E minha faculdade, meu balé...Você?
-A faculdade eu vou trancar sua matrícula e o balé eu dou alguma desculpa, mas você pode tentar vir sempre que puder. Eu estarei esperando por você.
- Não quero ir e te deixar aqui sozinha.
-Nao posso ir a esse acampamento porque não sou como você, amor. Mas ficarei bem mais tranquila de saber que você estará segura. Ligue pra mim quando chegar lá.
-Nao podemos usar celulares no acampamento, atrai monstros. - Susana disse em um tom ríspido, trocando seu peso de um pé para o outro.
-Mas ela pode fazer uma chamada de Iris. - John disse complementando.
-Uma o que? - Perguntei mais uma vez confusa. Estava cansada de não saber nada sobre nada.
- Eu te explico quando chegarmos no acampamento. Vamos Sofia, temos que ir. Vamos te esperar na varanda, arrume uma mochila. - John disse saindo e Susana o seguiu.
Eles saíram e minha mãe me ajudou a arrumar uma mochila grande com roupas e me deu dinheiro. Coloquei meu discman na mochila e guardei também minhas sapatilhas de balé. Minha mãe estava chorando, o que só acabava com a minha vontade de seguir aquele plano maluco. Quando disse pela oitava vez que ia ficar, minha mãe disse que era bobagem e que eu deveria ir sim. Me despedi dela e apareci na varanda de mãos dadas com ela.
-Vamos?