Capítulo 3

1773 Palavras
Dioniso Aquela menina me intrigava. Não sabia o porquê de Apolo não tê-la reclamado antes. Todos sabem que eles deveriam ser reconhecidos e trazidos ao acampamento até os onze anos de idade. Ela era a única campista que tinha sido descoberta depois dos dezoito. Repito, TODOS os deuses sabiam o quão perigoso poderia ser para um semideus caminhar solto por aí, sendo sempre perseguidos por todos os tipos de monstros sem saber o porquê. Apolo com toda certeza tinha deixado a cabeça nas nuvens mais uma vez à respeito dessa filha. Não seria uma grande surpresa em se tratando do meu irmão. A não ser que ela não fosse perseguida de maneira nenhuma. Ninguém nunca tinha achado ela, nem mesmo os sátiros encarregados de buscar semideuses, e ela sabia extremamente pouco sobre mitologia, e aí a pergunta, porque ela não seria perseguida? Precisava dar um puxão de orelha em Apolo, desde o fiasco com Hércules, as crianças deveriam ser reclamadas até os onze anos. Era a regra. Ele estava sendo irresponsável esse tempo todo sem passar pelo radar de Zeus e eu, apenas por pisar na bola uma única vez, recebo esse tratamento de choque do deus dos raios. Eu divagava olhando para Sofia, a mais velha nova filha de Apolo. Ela não se parecia com ele. De jeito nenhum. Os cabelos eram escuros e os olhos coloridos. Ela tinha heterocromia, ou seus olhos eram coloridos? Acho que eram castanhos. Não sabia dizer com certeza. Ela era totalmente branca, sem nenhuma sombra de qualquer tipo de bronzeamento. Ela me olhou e sorriu e eu percebi que a olhava há muito tempo. Nessa hora desgrudei nossos olhares. -Dionísio? Alô? Alguém aí? - Quíron me chutou por baixo da mesa. Ele me encarava e eu foquei seus olhos. -Ahn, o que foi? O que disse? - Não queria que parecesse tão óbvio que eu estava completamente aéreo à tudo que acontecia ao meu redor. -Tinha perguntado como você estava, eu soube da separação. -Não estou soltando fogos de artifício, Quiron, se é isso que quer saber. -Se quiser minha opinião, eu acho que já não era sem tempo sabe, você não precisava sofrer mais adiando isso. -Por isso nunca se casou Quiron? - O que? - Nada, eu já volto...preciso de ar. Levantei da mesa e saí do refeitório, não estava no clima para conversar sobre meu divórcio com ninguém, poderia colocar a culpa do meu mau humor em toda essa situação, mas a verdade era que eu quase sempre estava de mau humor mesmo, Afinal, é impossível se sentir bem quando você está preso em um lugar completamente chato desse jeito. Estava do lado de fora pensando e olhando para os bosques quando ouvi um barulho. -Sabe que não precisa se infiltrar no acampamento, não é? Infelizmente, você é bem vindo aqui. Não que seja eu que tome essas decisões.- disse me virando com as mãos no bolso de meu terno risca de giz. -Tão arisco, Dionísio. Não sabia que Ariadne te deixaria assim tão magoado. Ou talvez seja uma falta desesperada do seu querido amante, o vinho. Mas saiba que eu vim em paz, nao precisa me transformar em uma planta, ou seja lá o que você faça com seus inimigos. -Apolo saiu da sombra se mostrando com seu sorriso zombeteiro de dentes perfeitos e seus cabelos loiros. Seus olhos azuis traziam um divertimento monstruoso por me ver sofrendo. -Não fale assim comigo. Você veio em paz mas nunca perde a voz irônica. O que faz aqui?- disse com a mandíbula trincada pronto para atacá-lo por suas ironias cansativas. -Vim dar um alô à minha filha. Ver como ela está e tudo mais. Fiquei sabendo que ela estava no acampamento, vim assim que pude. -Deveria receber o prêmio de pai do ano, a meu ver. Estava me perguntando há pouco por qual motivo ela não tinha sido reclamada antes, você sabe que foi imprudente. Poderia pelo menos tentar zelar mais pela vida de seus próprios filhos, não acha? -Não diga como eu devo ou não proceder com meus filhos, Dionísio. Não a mantive longe esse tempo todo por minha escolha. Eu e a mãe dela chegamos a um acordo e decidimos que não era seguro eu ficar por perto dela, por isso não pude protegê-la. Não me venha com sermões, você não tem filhos, não sabe como é a sensação de não poder vê-los quando bem quiser. Fiquei em silêncio e então ouvi outro barulho nas árvores perto de nós. -Quem é? Saia daí e pare de se esconder. Sofia saiu das árvores e tinha lágrimas nos olhos. Ela olhava para o pai pela primeira vez pelo que parecia, então chamei-a e ela se aproximou. -Papai? É você mesmo? -ela sussurrou relutante. Ela estava parada, mas suas mãos tremiam. Apolo terminou com a distância entre os dois e a abraçou segurando seus cabelos. -Minha filha. Minha Sofia. Tão linda...você ouviu o que nós estávamos conversando? Ela concordou com a cabeça e eu saí os deixando a sós. Voltei para a casa grande e fui tomar um banho antes de me deitar. Eles dois iriam conversar e Apolo contaria tudo a ela, o acordo de Zeus era simples, mas muito destrutivo, como tudo relacionado à ele. Os deuses não podiam ter contato recorrente com os filhos. Isso ajudava-os na p******o e os ajudava a não parar nossas vidas para cuidar deles, mas nunca os ajudou no quesito ter que se explicar sempre para seu filho porque você não era presente, mesmo que quisesse. Claro que nada disso já aconteceu comigo. Nunca tive filhos, Ariadne não os queria e eu acho que nunca senti essa necessidade também. Principalmente por morar no acampamento. Ariadne detestava esse lugar e não veio aqui mais de duas vezes depois do primeiro mês em que ficamos juntos depois do casamento. Por esse e outros motivos, não iria deixar ela cuidar de uma criança minha sozinha no Olimpo. E mesmo assim meu castigo ainda era cuidar dos filhos de todos do Olimpo. Zeus era muitas coisas, mas nunca pensei que poderia ser irônico. Sofia Eu tinha conhecido ele, meu pai. Minha mãe nunca contava muitas histórias sobre ele e ficava triste quando eu insistia, então eu não sabia de muita coisa. Na verdade, não sabia de nada. -Precisamos conversar. Apolo me levou até o chalé que ainda estava vazio, já que todos os campistas estavam no refeitório. -Então, antes das suas perguntas, eu vou tentar me explicar. Eu conheci sua mãe quando estava passando um tempo em Nova York, eu fugia de Zeus por uma coisa que tinha feito a ele, isso não vem ao caso. Trabalhei durante um tempo em uma empresa e nós nos conhecemos e ficamos juntos um bom tempo. Você já era nascida nessa época. Quis muito ficar com vocês duas e até consegui, durante uns meses. Zeus descobriu e eu precisei partir. Sua mãe nunca me perdoou, quando eu aparecia, ela não me deixava vê-la, então tive que te proteger de longe. Eu via que desde pequena você adorava coisas de bailarina. Comprei sapatilhas para você, só que elas não eram, como eu posso dizer, normais. -Mas minhas sapatilhas são normais. Sempre foram. Usei elas durante muito tempo. Perai, eu tenho as mesmas sapatilhas que eu tinha quando era criança. Minha mãe dizia que ia me dar uma nova, mas nunca deu. -Bom, Afrodite me ajudou um pouco nesse sentido. A sapatilha se ajustava ao seu pé e era encantada para excluir seu cheiro para os monstros. Foi a única coisa que eu consegui pensar para te proteger de longe. Pedi apenas à sua mãe que te levasse à uma aula de balé e foi apenas o que precisou. Você adorou e nunca mais parou. Deu tudo certo. Eu não sabia que você passaria acidentalmente por um ataque de ciclope, mas ainda bem que seu irmão Jhon e a outra campista, Susana, estavam lá para te salvar. Eu quero que você me conheça como seu pai e não como o cara que deixou um bebê para sua mãe cuidar sozinha. Quero me redimir, sei que é muito para pedir a você, mas você é a filha mais velha que eu tenho, então posso conversar coisas que os outros ainda não estão preparados para ouvir. O que me diz? -Tudo bem. Pai. Acho que posso te dar uma chance. -E suas perguntas. Imagino que sejam várias, não tenho muito tempo agora, mas posso tentar responder algumas. -Bom, eu queria saber quanto tempo eu vou precisar ficar aqui. Porque eu fiz um teste para um espetáculo em Nova York. -Eu sei. Eu vi você se apresentando. Você arrasou como sempre, o homem deu o resultado hoje e você foi aceita, mas eu sinto muito em te dizer que você vai precisar ficar aqui. Eu sinto muito mesmo, mas agora que você sabe que é uma meio sangue, nem as sapatilhas vão te proteger mais. E você não sabe se defender ainda. Nova York não é mais segura pra você. Não por enquanto. A cada palavra dele eu ficava mais triste. Eu não tinha pedido por aquilo. Eu sempre quis estrelar um espetáculo grande e agora que eu tinha conseguido, não podia participar. Não era culpa dele, mas isso não ajudava muito. Ele disse depois de um tempo que precisava ir e me entregou um presente. Disse que era para eu abrir quando ele fosse embora e beijou a minha testa, desaparecendo logo depois. Eu abri e vi que era um arco. Ele era prata e era cravado de louros. A aljava era preta e as flechas eram das duas cores. Tinha ficado feliz pelo presente, mas ainda estava triste pelo espetáculo de balé. Depois de um tempo as crianças chegaram e sentaram ao meu lado. -Arco bonito. Papai deu pra você? -Sim, ele veio aqui rapidinho. Mandou um beijo para vocês dois. -Agora podemos treinar com nossos arcos também...au!-Wes disse depois de receber um soco de Ruby. -Vocês tem um arco, e porque esconderam?-perguntei confusa. -Não queria que você sentisse que era a única a não ter um arco só seu. Desculpa. -Sem desculpas, vocês ainda precisam treinar comigo. Agora, já pra cama, dormir! Eles riram e foram dormir me deixando sozinha com meus pensamentos. Não estava conseguindo digerir a idéia de que teria que abrir mão de tudo, a faculdade, o balé, minha mãe, tudo por uma coisa que eu nem sabia que existia. Depois de um tempo me vesti e saí do chalé. Eu só precisava relaxar e esquecer tudo que eu perdi, pelo menos por algum tempo, e tinha uma idéia de como fazer isso.
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