Pré-visualização gratuita Capítulo 01 Damien
Damien Narrando
Sou Damien Reid, trinta e cinco anos. Para os poucos que se atrevem a chegar perto o bastante, sou só Dam. Dono e rosto de uma das maiores empresas de tecnologia do país. Dizem que sou implacável. E estão certos — não por maldade, mas por necessidade. Meu pai, Richard Reid, me ensinou desde menino que o mundo é uma selva onde só os mais fortes sobrevivem. E eu aprendi a lição muito bem: ou você comanda, ou é comandado. Não existe meio‑termo.
Meu império, minha imagem, o controle sobre tudo e todos… nada disso está à venda. E traição? Essa eu não aceito de jeito nenhum. Não aquelas que inventam em histórias de amor, mas a real: a de quem joga tudo ao vento, de quem vira as costas. Para mim, lealdade é o que sustenta tudo. Quem não está cem por cento do meu lado, não serve para estar em lugar nenhum.
A porta se abriu e Letícia entrou. Bastou um olhar rápido para perceber que algo estava muito errado. Ela vinha com a expressão fechada, uma pasta apertada contra o peito, e o ar da sala de repente ficou pesado, denso, como se uma tempestade estivesse prestes a desabar.
Ela estava comigo há exatos seis meses, como assistente administrativa. Sempre foi pontual, silenciosa, extremamente competente — daquelas pessoas que fazem tudo parecer fácil. Por isso mesmo, vê‑la assim, tão abalada, me deixou logo em estado de alerta.
— Desculpe, senhor Damien… mas preciso falar com o senhor.
Fiquei observando, desconfiado. Aquela postura submissa mas firme me dizia que não era problema pequeno.
— Pois fale. O que houve? — indaguei, com a voz que costuma fazer qualquer um tremer na base.
Ela hesitou. Um detalhe pequeno, mas que para mim foi um aviso claro.
— Eu… não posso mais continuar aqui. — Disse ela, calma demais, como se estivesse me acertando um relatório qualquer.
Dei uma risada seca, sem nenhum traço de humor.
— Não pode? Você ainda está em período de experiência, Letícia. Sabe muito bem como eu funciono, o quanto confiei e valorizei o seu trabalho. Agora vem com essa?
Colocou a pasta sobre a mesa. Ao abrir, senti o ódio tomar conta de mim de uma vez: ali estava a carta de demissão. Simples, direta, definitiva.
— Vou sair da empresa. Vou me casar. — Disse ela, com uma paz que parecia me ferir mais do que qualquer grito.
A raiva subiu forte e rápida.
— Casar? — repeti, sentindo a voz ficar mais áspera. — Você construiu espaço, se tornou indispensável, e joga tudo isso fora… por um casamento? O que esse homem tem que valha mais do que tudo o que conquistou aqui ao meu lado?
Ela ergueu o queixo, me encarando sem desviar o olhar nem um segundo.
— Ele me dá paz, Damien. E é isso que eu preciso mais do que qualquer coisa.
Paz. A palavra me bateu como um soco no estômago. Fraqueza. Coisa de quem não tem força para lutar. Minha mandíbula travou com força.
— Paz? — rebati, rindo de forma amarga. — O que acha que construiu aqui? Uma zona de conforto? A vida não é feita de paz, Letícia. Você devia saber melhor que ninguém.
— É a minha escolha. E eu vou seguir com ela. — Respondeu ela, inabalável.
Antes que eu pudesse descarregar toda a minha fúria, a porta foi aberta de repente, sem cerimônia nenhuma. Era Sérgia.
Entrou como se fosse dona de tudo — e fazia questão de deixar isso bem claro. Vestia um modelo que deixava pouco à imaginação, andando com aquela graça calculada, de quem sabe o efeito que causa. Seus olhos percorreram rápido por Letícia, com um desprezo explícito, e depois pousaram em mim como se eu fosse um prêmio que já pertencia a ela.
Ignorou completamente a presença da outra mulher e veio direto até mim. O perfume forte, doce e enjoativo tomou conta do ar antes mesmo que ela chegasse perto. Sem pedir licença, grudou o corpo ao meu, mãos ágeis subindo pelo meu peito até segurar firme na minha nuca e me arrastar para um beijo invasivo, exigente — feito de propósito, para marcar território, para humilhar quem estava ali vendo tudo.
Fiquei parado, rígido. Não era prazer que sentia, mas uma raiva fria: ela estava fazendo questão de mostrar poder, de se impor. Quando se afastou devagar, lambeu os lábios lentamente e me olhou com aquele brilho de vitória nos olhos.
Mas Letícia não abaixou a cabeça.
— Tem noção do que está fazendo, Sérgia? — perguntou ela, a voz fria, cortante, sem nenhum sinal de abalo. — Entra aqui como se fosse a dona e ainda se atreve a isso na minha frente?
Sérgia sorriu de lado, deu um passo para frente, desfilando superioridade.
— Melhor aprender a encarar a realidade, querida. — A voz dela era veneno puro. — Isso é o que ele quer. Você acha que pode oferecer algo que ele já não tenha ou queira mais? Está jogando tudo fora por uma ilusão… enquanto ele — olhou para mim de cima a baixo, com desejo escancarado — ele nunca vai se contentar com pouco, nem com quem só sabe obedecer.
— Respeite‑me. E saia daqui. — Ameaçou Letícia, cada palavra medida e firme.
— Respeito? De você? — Sérgia riu, se aproximando ainda mais, quase rosto a rosto. — Não se engane. Nunca foi tão importante quanto pensa.
— CHEGA. — Cortei seco, a voz pesada, autoritária, fazendo as duas se calarem de imediato.
Olhei para Letícia. Vi que ela apertava os punhos, mas mantinha o rosto duro, sem dar o gosto de ver qualquer sofrimento.
— Já fez a sua escolha. Agora vá. — Disse, sentindo cada palavra queimar na garganta. — E não espere que eu vá atrás.
Ela me encarou por um instante que pareceu durar uma eternidade. Não respondeu nada. Apenas pegou seus papéis, virou as costas e saiu — firme, segura, como se estivesse apagando todo o tempo que passou ao meu lado. A porta fechou devagar, com um clique seco e definitivo.
Fiquei só com Sérgia ali. Ela observava tudo, satisfeita, como se tivesse vencido uma batalha pessoal.
— É isso que quer, Damien? — provocou, aproximando‑se de novo e deslizando a mão pelo meu braço com carinho fingido. — Ficar sozinho, vazio, enquanto todo mundo vai embora ou trai? Eu poderia ser muito mais do que ela jamais foi… posso te dar tudo o que ela nunca conseguiria entender.
Sussurrou aquilo bem perto da minha orelha, aproveitando o momento de instabilidade, e depois saiu também — mas eu sabia que ainda estava ali por perto, esperando, vigiando.
Fiquei sozinho. O silêncio da sala parecia maior e mais pesado que nunca. A raiva que sentia se transformou em algo puro e profundo: desprezo, revolta, uma necessidade de controle que parecia explodir dentro de mim.
Agarrei o copo de uísque que estava sobre a mesa e o arremessei com força contra a parede. Vidro estilhaçado, líquido escorrendo devagar, como sangue derramado.
— Ing…rata! — rosnei entre dentes cerrados. — Acha que pode simplesmente virar as costas e desaparecer? Que vai ter paz e felicidade longe de mim?
Não vai.
Isso nunca vai acontecer. Enquanto eu estiver vivo, nada nem ninguém foge do que eu decido.
Sérgia apareceu de novo na porta, recostada com aquele ar de quem sabe tudo.
— Vai ficar aí só queimando tudo por dentro? Ou vai fazer alguma coisa para mostrar quem realmente manda?
Meus olhos encontraram os dela. A raiva deu lugar a uma determinação fria e absoluta.
Ela tinha razão de uma coisa: o fim não existia ali. Na verdade… tudo estava só começando.
Continua...