Capitulo 17

2599 Palavras
Keira — Há uma barreira em torno da floresta que ladeia o castelo. — Amon revelou e voltou a observar o meu rosto. — Iria voltar de qualquer forma, cada passo para longe foi uma tortura. — Bem, somos uma dupla de tolos desmiolados então. — Me contorci, tentei não fazer uma careta de dor e Amon ergueu as orelhas atento a cada movimento meu. — Estava esperando um momento adequado, mas se formos morrer aqui… — Amon se ergueu e se sentou nas patas traseiras. — Minha senhorita? — Quieto, me dê a sua pata direita. — Pedi, ele hesitou e lancei um olhar irritado, ele não iria contradizer uma moribunda. Ele me estendeu a pata. — Eu, Keira Brighid O’Donnell ofereço a você, Amondiel Doyle Cole, um teto sobre a sua cabeça, compartilharei o meu pão e o meu vinho, o protegerei com a minha vida se preciso, passarei toda a minha existência com você, é uma honra tê-lo como caelendus e guardião, você me aceita como a sua mestra? — Amon congelou, lágrimas escorreram sobre o pelo branco, devagar ele virou a pata no meu antebraço deixando-a por cima. — Eu, Amondiel Doyle Cole aceito a oferta, compartilharei o seu teto, aceitarei o seu pão e o seu vinho, a protegerei com a minha vida, passarei a minha existência com você, e até mesmo depois disso, é uma honra tê-la como a minha mestra e protegida, aceito ser seu guardião. — Lágrimas escorreram pelo meu rosto, uma luz dourada se entrelaçou onde as nossas mãos estavam unidas, uma tatuagem pequena e com arabescos se formou no meu antebraço, um lobo ganhou forma e dentro dele, havia o céu noturno em meio a uma montanha, observei a marca do nosso nó maravilhado. Observei a tatuagem fascinada. — Essa era Líber, minha terra natal. — Amon disse com orgulho, com curiosidade observei um desenho se formar e pairar sobre a parte interior da sua pata, ele fez uma careta quando a imagem se assentou e sumiu em meio a pelagem. — Não consigo mudar de forma. Disse com uma careta no rosto, ele ergueu a pata me mostrando a parte posterior onde tinha menos pelos. Uma imagem perfeita de mim em forma de lobo estava gravada ali, mas era uma versão coroada e contornada por arabescos esfumaçados, minhas sombras, sorri, dentro dela uma cidade luminosa banhada pelo céu estrelado, o lobo estava de focinho erguido sob arabescos que se movimentavam, me afastei um pouco e percebi que formavam uma árvore imensa, como se o lobo estivesse saudando-a com um uivo, ao fundo vi duas montanhas com os picos contornados em branco, franzi o cenho, aquilo não parecia com nenhuma cidade da Irlanda. — Essa era Caelestis, seu lar, minha senhorita. Lar. Olhei novamente para a pequena imagem, aquela palavra nunca teve nenhum significado para mim, a imagem não provocou nenhuma reação no meu coração, o lugar era belíssimo, pena que havia sido destruído e isso só fazia a minha raiva se inflamar ainda mais porque não conheci, não vivi lá e nem conheci as pessoas que ali moravam, aquele vazio que sempre sentia continuava aqui, o vazio de não pertencer a lugar nenhum, aquilo me deixava louca, sabia muito bem quem era o culpado disso, do m******e que destruiu aquele lugar e os seus moradores, meu povo, meus súditos, tudo para me matar, tudo por conta da ordem do seu rei. Amon se aproximou com cuidado, ele se deitou e apoiei a minha cabeça no seu corpo, o olhei de lado, ele me encarou, os olhos transbordando carinho. — Não consegue mudar de forma por que está machucado? — Ele me curou. Disse casualmente, tentei me levantar e fiquei tonta com a dor, Amon me empurrou novamente e me olhou com reprovação. — Fique quieta, deixe a briga para depois. Ele suspirou e estreitei os olhos confusa, por que brigaria? Em seguida ouvi algo parecido com um arrastar de uma pedra pesada, me virei e assisti injuriada Liam surgir, como se a escuridão o tivesse parido e ele fosse parte dela. — Você. Chiei irritada, Amon me empurrou novamente com o focinho e fez com que olhasse nos seus olhos com o focinho fincado no meu peito. — Não posso curá-la, os ferimentos estão infeccionados e os nossos poderes não funcionam aqui, ele me curou e só ele pode curá-la, por favor. — Ele me olhou intensamente, nos seus olhos límpidos estavam gravados uma súplica, eles brilharam por conta da umidade. — Não. — Grunhi enfurecida e magoada, o meu corpo se retesou como se estivesse prestes a se quebrar. — Por favor, faça por mim. Praguejei, o que estava acontecendo comigo? Ele sabia que não aceitaria a ajuda de ninguém, a marca do nó brilhou quente no meu braço, como se estivesse me repreendendo, me impelindo a satisfazer as necessidades do meu protetor e protegido, um sorriso satisfeito cruzou o rosto de Liam. — Não pode quebrar o juramento, como irá protegê-lo se estiver morta? Cantarolou debochado, o seu sorriso ladino aumentou quando mostrei a ele um olhar carregado de ódio e xinguei. Insultos terríveis, que nunca havia proferido, entonei um cântico profano de todos os palavrões que conhecia e amaldiçoei o dia que o conheci, devia tê-lo dilacerado e incinerado os seus ossos. — A doçura e delicadeza da sua mestra não cansam de me surpreender. — disse casualmente ao colocar as mãos no bolso da calça, virei o rosto para a parede irritada. — É um golpe baixo, eu sei, querida. — Admitiu cinicamente. — Faça.  Disse baixinho para ninguém em particular, o meu orgulho sendo esmagado lentamente, vi a sua sombra se mover através da parede oposta e quando ele tocou o meu braço, fogo e dor se espalharam por ele, mas detive-me por um instante. — O que quer? — Questionei sem fôlego, esperei o sussurro do seu nome, mas não havia nada dessa vez e não sabia o que pensar a respeito disso, o meu poder se tornou um enigma e estava quase esgotada demais para me preocupar, me sentia fraca e vazia. — Seja sincero, por que está fazendo isso? Ele se agachou e puxou a luva de couro preto com os dentes sem tirar os olhos de mim, ele estava de luvas na sala do trono? Não me lembro. Sem pressa ele me examinou, o seu olhar percorreu o meu corpo ferido, tarde demais percebi que estava sem a parte de cima da roupa, parcialmente escondida pelo corpo de Amon, Liam jogou a sua capa para me cobrir, não que me importasse, havia passado do ponto de me importar com coisas mundanas, o que era a minha nudez diante da promessa de sofrimento constante? E não apenas físico, esse lugar parecia consumir a minha sanidade e era apenas o primeiro dia. — Tenho os meus motivos, é sábio da sua parte perguntar, assim como foi sábio não dizer o seu nome. — Ele voltou a me olhar, ainda estava segurando meu braço, Amon permaneceu anormalmente quieto, observando Liam atentamente. — E é justamente isso que quero. — Esclareceu e sibilei. — o seu nome, diga-me o seu nome. Esse é o meu preço. — O encarei enojada, ele está ciente da informação, conhece muito bem a minha identidade. — Por quê? Não bastou nos torturar? Não direi nada que te dê ainda mais vantagem sobre mim. — Ele emitiu um estalo com a língua, continuou me olhando com uma empolgação infantil, o seu sorriso malicioso se alargando em divertimento. — Você é tão empolgante. Tem um temperamento terrível e é esperta. Lhe ensinaram bem, mas não irei mudar de ideia. Não direi nada mais que isso. O cafajeste piscou o olho e continuou me observando, ele me olhava como se não houvesse mais ninguém ali além de nós, era como se ele nunca tivesse de fato prestado a devida atenção em mim, me senti ainda mais nua do que estava, aquilo era íntimo demais, ele nunca havia me olhado assim na escola, engoli um palavrão, não sabia onde estava me metendo, aquela simples ação poderia provocar reações diversas e de magnitudes desconhecidas para mim, mas que opções tinha? Amon, não podia me curar e mesmo se conseguisse por milagre usar a minha magia, era improvável que conseguisse fugir sem ajuda e sem isso a nossa fuga era impossível, fora que o meu estado deplorável indicava que morreria em dias se os meus ferimentos não fossem tratados, não sabia o que Simon faria comigo caso sobrevivesse aos ferimentos, mas para isso, eu ainda precisaria estar viva. Mas e se ele me traísse novamente, ainda não sabia onde estava a sua lealdade, nem mesmo sabia se ele era capaz de ser leal a alguém além de si mesmo — Brighid — Disse sem emoção, o nome agora parecia estranho para mim e a minha voz soou como um chiado rouco. — Diga-o por completo. — Exigiu com a voz rouca. Crispei os lábios irritada, ele era uma criatura insolente, limpei a garganta. — Keira. Brighid. O'Donnell. — rosnei e a atmosfera agitou-se ao nosso redor. Liam se empertigou, os seus ombros ficaram rígidos, os olhos castanhos se acenderam a ponto de parecerem vermelhos, simultaneamente estavam escuros e pesados, carregavam emoções desconhecidas para mim, ele parecia irritado de alguma forma, senti Amon ficar tenso atrás de mim. — É educado dizer o seu nome quando alguém se apresenta. — Murmurei sem fôlego, mas não pude deixar de sorrir ao ver o semblante surpreso dele. Cavaleiros são impelidos a se revelarem quando alguém lhes diz seu nome, e ele devia ser um cavaleiro, a julgar pela postura e apesar de não portar armas -não visivelmente pelo menos- ele se comportava como se estivesse armado, como se a qualquer momento pudesse sacar uma espada e partir alguém ao meio, era essa a sensação que tinha, o modo arrogante como zombou de Ibrahim... como não percebi antes? Treinei com ele tantas vezes e sempre o julguei como um aprendiz, muito mais habilidoso que eu, mas ainda assim um aluno. Esse macho não era um zé ninguém, de forma alguma, mas isso era só a minha intuição, uma voz sussurrando coisas, talvez fossem as sombras que cuidavam de mim, não conseguia vê-las e quase não sentia a sua presença, estava muito fraca, fraca demais, talvez fosse esse lugar ou talvez não fosse tão forte quanto achei que era, ainda não sei. Liam piscou, inclinou a cabeça me estudando e me esforcei para me manter impassível. — Garota atrevida. — Ronronou e sorriu maliciosamente, em seguida fez uma reverência graciosa. – Sou Gael, é uma honra estar na sua presença com o meu nome verdadeiro, vossa alteza. — Gracejou suavemente. Estremeci, o meu corpo ficou rígido e algo se inquietou dentro de mim, o nome era familiar, mas não conhecia aquele nome, tentei puxar na memória se havia ouvido ou lido, mas não havia nada, lembro de ler o livro sobre os herdeiros dos reinos, mas não havia o nome dele, no entanto, ele era-me familiar, a irritação afastou aquele fio de pensamento. — Não seja cínico! Qual o seu sobrenome? — Solicitou o meu nome e não o sobrenome. — A dor me deixou zonza quando tentei esbofeteá-lo, Amon rosnou, Liam não se intimidou e soltou uma gargalhada rouca ao segurar o meu braço. — A sua ousadia é impressionante, não sei se é burra ou estupidamente corajosa por continuar me insultando e tentando me bater. Gritei quando ele puxou o meu braço, a minha visão ficou turva enquanto o meu braço era banhado por uma dor ofuscante, magia se agitou ao nosso redor, a sua voz apenas um eco distante na escuridão, o seu sorriso perverso foi a última imagem que vi, sem nenhum vislumbre de dentes, ele escondia um segredo e precisava desvendá-lo, ao longe escutei ele murmurando enquanto perdia os sentidos. — Talvez sejam os dois. (...) Senti primeiro o cheiro de mar, abri os olhos, Liam sorria satisfeito encostado na parede do outro lado da cela, um vulto branco surgiu acima de mim e sorri ao fechar os olhos momentaneamente. — Me deve uma caneca fumegante de chocolate quente, Amon. — Sorri internamente ao ouvi-lo praguejando baixinho. — Deveria estar dizendo, "Obrigada, vossa alteza, suas habilidades são incríveis." — Algo me diz que não é do tipo que carece de elogios, já faz isso muito bem sozinho. — Ele sorriu largamente, percebi que estava ofegante e lancei um olhar irritado a ele. — E também, isso não foi de graça. Ele gargalhou alto, uma risada que reverberou em cada canto do meu corpo, fez o meu sangue correr rápido nas veias e vibrou em meus ossos. — Retiro o que disse, você não é burra. Só é estupidamente atrevida, sempre foi. Geralmente era inexpressiva e indiferente, o próprio Amon me disse isso, mas Liam me irritava de tal forma que não conseguia pensar direito ou ficar calada perto dele. Liam não, Gael. Não, deveria chamá-lo Brandy é esse o nome pelo qual é conhecido aqui, essa é uma das suas muitas faces. — Não acabou, descanse. Enfeiticei a sua aparência, eles suspeitariam se vissem que está curada, portanto, seja uma boa garota e faça uma atuação decente. Ah, devo frisar que não deve dizer o meu nome a ninguém? Não que vá fazer amizade nas profundezas desse inferno... — Ele hesitou ao se desencostar da parede, olhou ao redor e novamente para a parede às suas costas, as suas mãos fecharam-se e abriram, como se estivesse testando o movimento. — de qualquer forma… — ele se virou novamente para me encarar, forçando um sorriso para aliviar a tensão em seu rosto. — Vamos manter isso entre nós. — Isso? — Compartilhar o nome é um ato íntimo, quase tanto quanto... Liam franziu o cenho, a boca abriu e fechou por diversas vezes como se ele tivesse esquecido o que ia falar, então ele olhou para mim como se finalmente tivesse percebido que estava nua da cintura para cima, o meu rosto queimou de raiva e vergonha e Amon se enroscou em mim antes que os meus braços cobrissem os meus s***s para se proteger do seu olhar atordoado. — Quase tanto como o que compartilhou com o Principe. — Disse zombeteiramente, mas percebi uma pitada de amargura que não soube interpretar, como se para me despistar ele sorriu maliciosamente e cravou os olhos em meu peito agora protegido pelo torno de Amon. — Devia adotar esse visual desinibido, é muito mais divertido discutir enquanto aprecio o seu corpo nu. Amondiel rosnou em aviso, chiei irritada, assisti ele se afastar e se dirigir para um canto escuro da cela. — Como consegue usar magia, quando Amondiel e eu estamos subjugados? Liam parou por um instante, em seguida olhou pela a******a de onde vinha uma luz fraca. — Uma fortaleza, por mais bem vigiada que seja, sempre terá alguns inquilinos indesejados, sejam eles insetos rastejantes ou roedores. E para o azar deles, sou a pior de todas as pragas. Sussurrou, olhei inexpressivamente para ele, Liam olhou para minha mão que repousava tranquilamente no pelo sedoso de Amon e me lançou um sorriso convencido que afastou a expressão séria do seu rosto. — A propósito, de nada. — Ele sumiu em meio a escuridão, mesmo com a minha visão aguçada não pude ver por onde saiu, mas ainda escutei a sua voz grave ecoar pela cela. — Deveria ter cuidado primeiro de seu caelendus, já que você quis procrastinar enquanto me insultava. Descanse, Keira.
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