Capítulo 10

4993 Palavras
Keira  Ainda encarava a diretora completamente perplexa. Ela era a amante dos dois. Da rainha e do rei, pelos deuses, como diabos isso funcionava? — Antes que elabore teorias absurdas nessa mente fértil e deturpada de adolescente, saiba que éramos destinados. -Destinados? — Precisarei de algo mais forte que chá para ter essa conversa, Arnold. — Sim, senhora. Enquanto isso, por favor, refaça os feitiços. — Farei como pede, você e suas manias excêntricas de guarda real. Minha presença aqui já é uma barreira. — Não quero que essa conversa saia daqui, minha senhora. — Nunca me importei com boatos e fofocas, sabe disso. Ele suspirou como se estivesse lidando com uma pirralha teimosa e não com uma Maenad centenária, assistia aquilo ainda em choque, vi Ava acenar sutilmente para Amon, em seguida ele estava ao meu lado e mordeu a minha mão para me arrastar para uma poltrona, balancei a cabeça com um aceno seco, uma recusa, e ele conduziu-me ao tapete e sentei-me, observando curiosa a diretora erguendo as proteções, percebi tardiamente que ela murmurava feitiços complexos num idioma que não conhecia, não era o latim que usávamos para lançar os feitiços que aprendíamos na escola, aquilo era algo além de um escudo básico. Mas esqueci aquilo rapidamente, pois pensamentos estranhos ocuparam a minha mente, ao dar-me conta de que a realeza de Béllenian era um trisal, pior, a diretora da escola, aquela mulher frívola e rígida era uma praticante assídua de ménage a Trois... A minha hostilidade fora completamente esquecida, Sir Arnold voltou a sala carregando uma bandeja carregada com o que deduzi ser whisky e chocolate quente. — Vai acalmar os seus nervos. -disse entregando a caneca pra mim. — Não preciso-me acalmar. — Não quero ter a minha casa queimada, há muitas coisas valiosas aqui. — O que são? Ergui o rosto, notei que ela falava das sombras ao meu redor e havia uma ruga entre as sobrancelhas bem delineadas que demonstrava que estava tão intrigada quanto eu a respeito delas, era a primeira vez que via aquela expressão no seu rosto, Amon aprumou a cabeça no meu colo e tentei ser educada ao responder. -Exatamente o que vê. Agora, se não se importa, a senhora deve-me respostas demais, para questionar qualquer coisa sobre mim. -Bravo. -ela estalou a língua, um gesto debochado que me irritou nas profundezas da alma, percebi que realmente precisaria de algo para me acalmar. Peguei a caneca fumegante ainda a encarando, o meu temperamento era um perigo para a minha própria segurança, todos se sentaram e ficamos a encarar o fogo na lareira por um bom tempo. — Eles eram meus companheiros sagrados. -Os dois? -perguntei. — Os dois. -a encarei, dois? Isso era possível? Como se minha pergunta estivesse estampada no meu rosto, ela desprendeu a capa, abriu o casaco, abaixou o tecido grosso da blusa de lã e mostrou-me, lá estava, a famosa Insígnia. Amon ergueu a cabeça e ergui-me sobre os joelhos, aproximei o rosto do peito da diretora, a marca ficava bem em cima do coração, era formada por um dragão, um lobo e uma raposa, ambos entrelaçados com o dragão no meio, tudo gravado em tinta escura, tão escura que parecia devorar a frágil luz que emanava da lareira e parecia se mover sobre a pele, como se estivesse viva, automaticamente ergui os dedos para tocar, a diretora escondeu a marca imediatamente. — Não abuse da minha boa vontade. — repreendeu e recuei envergonhada. -Desculpe. Nunca havia visto uma Insígnia. -Não é a única. Estreitei os olhos, pensei que fosse uma coisa comum, um acontecimento aguardado por toda criatura de Everness, tudo aqui não gira em torno disso? Encontrar o tal companheiro sagrado e viver feliz para sempre, literalmente, para sempre? — Apesar de ser uma recompensa de Daín, Insígnias são raras, muito raras. — A palavra rara, perde o significado diante de seres imortais. O quão raro é encontra-los? -Pode levar séculos, até mesmo milénios. Fiquei pasma, como eles viviam em busca de algo assim? Algo quase impossível, que facilmente se tornaria uma busca eterna? Será essa busca inalcançável que mantinha os imortais motivados para enfrentar os séculos? Como que ciente de todas as minhas dúvidas a diretora acrescentou. — Dentre as famílias reais do Império, em toda a história, houve apenas três monarcas que encontraram os seus companheiros, seus pais, os governantes de Kalaedium e a sua tia. Aquilo era inacreditável. — Quando me falaram disso a primeira vez, entendi que fosse algo corriqueiro, que aconteceria com todos em algum momento, e agora me diz que isso é raro? É como se me dissesse que o sentido da minha vida é procurar um unicórnio cor de rosa. — sobressaltei-me e me virei para Sir Arnold. — Não existem unicórnios aqui, existem? — Refere-se aquele cavalo com chifre? — assenti. — Não, não existem. Mas temos Pegasus. -Pegasus? -Sim, cavalos que voam. -É claro, é normal que existam cavalos que voam. Mas não cavalos com chifres. — Pensei que repudiasse a ideia da Insígnia? — continuei impassível, mas minha vontade era de berrar com Sir Arnold, ele teve a decência de fingir não notar ao beber o seu chá. — O que repudio é a gaiola que isso representa. Não sou um objeto para ser dada e pertencer a alguém, pertenço a mim mesma, e não a um desconhecido que vaga por aí estampando algo que diz o contrário. — Ela não te lembra alguém? — ela lançou uma olhadela marota para Sir Arnold, ele sorriu ao pousar a xícara no pires e cruzar as pernas. Aqueles dois... eles eram tão diferentes, pareciam tão à vontade um com o outro que ninguém suspeitaria que foram rivais amorosos, mas isso não era surpresa. Sir Arnold, era nobre o suficiente para ficar satisfeito ao ver sua amada feliz, mesmo nos braços de outra pessoa, ou no caso, outras... — Está no sangue dela, afinal. — respondeu com um sorriso discreto. Suspirei. — Certo, Insígnias são raras. Então, ter dois companheiros é mais raro ainda. -Exatamente. O que precisa saber, Kira, é que não se pode matar o companheiro. Em hipótese alguma, isso é uma coisa que vai contra a natureza, os seus instintos mais profundos lhe impedem de fazer isso. -Espere. Se isso é verdade, como a minha tia morreu? — Não foi Tyrone, quem matou Maeve. Tyrone. A simples menção do nome fez o meu sangue gelar, calafrios espalharam-se pelo meu corpo, as sombras inquietaram-se. Amaldiçoado. Amaldiçoado. Amaldiçoado. Sir Arnold praguejou e Amon se encolheu. Entendia agora por que ninguém o pronunciava, parecia um presságio de mau agouro, o m*l encarnado num conjunto de letras... e a diretora o havia pronunciado como se estivesse pedindo mais gelo para a bebida. Ignorando o desconforto de todos, ela prosseguiu. -Ouvi que é dedicada nas matérias de história da magia e política. Quem é o atual governante de Béllenian, criança? Mordi o lábio repassando todos os nomes que havia decorado. -Béllenian, é governada por um regente. Lorde Simon Vass Abercrombie, é um feiticeiro do norte que já foi Grão-Mestre. — Perfeito, na noite em que Caelestis caiu, descobrimos um conluio entre esse ele e Tyrone, foi ele quem executou Maeve e o nosso filho. -O quê? O meu coração ribombou nos meus ouvidos, senti todo o sangue se esvair das minhas veias e se reunir em algum lugar distante, as palavras da Arantha sussurradas na minha mente. “Sangue foi derramado, não apenas em Caelestis, mas em Béllenian. Coisas atrozes aconteceram naquele lugar...” — Numa única noite, perdi a minha protegida, minha companheira, meu filho e tive de aprisionar o meu companheiro. — disse com uma voz cruelmente fria, ela encolheu-se ao dizer aquilo, mas durou apenas alguns segundos, até que me olhou sobriamente. — Então, desculpe-me se não ando a gritar isso aos quatro ventos. — Diretora. — Chamei, me sentindo a criatura mais insensível do mundo. — Não exigi respostas apenas para saciar a minha curiosidade. Sei que a rainha era sua companheira e essa era sua história, mas sua protegida era minha mãe e a sua amada era minha tia, tenho direito de saber a verdade. Ela encarou-me, o escrutínio no seu olhar, fez-me encolher. — E também, não foi apenas por isso. A Arantha disse-me uma coisa... — hesitei, insegura sobre dizer aquilo. Poderia confiar nela? Por algum motivo algo estava me impedindo. Ela disse que havia prendido o seu companheiro, talvez possa me ajudar. Decidida, a encarei determinada. — Ela disse que o meu reino foi traído, que irei encontrar o dragão e que não deveria me deixar enganar pelas aparências. — O que ela pediu em troca? — questionou desconfiada. — Nada. Acredito que foi um agradecimento por poupar a sua casa de um ataque dos Snipheirs. — Não sei o que sabe sobre a Arantha, mesmo o senhor das sombras a trata com respeito e cautela. E ela não é o que chamaria de condescendente, nem de longe. — Ela pareceu-me... cordial. — Cordial? — questionou com sarcasmo, ela entornou a bebida e fez uma careta. — Não chamaria uma criatura que devora os seus visitantes de cordial. — Talvez, ela tenha simpatizado com Keira. — Sir Arnold comentou. — Em mil anos, já ouviu falar de alguém que saiu vivo de uma visita a ela? -ele bufou, mas vi uma ruga de preocupação perturbar o seu rosto. Como se a total dimensão da minha escapada o tivesse atingido naquele instante. — Podemos voltar a questão? Ainda estou de castigo e não quero que Sir Arnold repense a extensão dele. Declarei alarmada, a diretora sorriu. — Apenas a linhagem de Tyrone herdou dragões como Caelendus. — disse com arrogância, uma sombra cruzou o seu rosto e ela prosseguiu impassível. -E dessa linhagem, apenas ele está vivo. Talvez, lembrar da perda do filho a fizesse sentir dor. Aquela afirmação crua, parecia ser uma coisa dolorosa que a diretora era obrigada a admitir, mas algo dentro de mim, um pedaço substancial, ficou um tanto quanto perturbado com aquela afirmação. Era algo mais do que o desconforto de ouvir que um filho morreu antes dos pais, algo que me deixou sem palavras e desconcertada demais para fazer qualquer comentário. Vendo o meu desconforto, Amon tomou as rédeas. — O encantamento que mantém ele preso está intacto? — Claro, fui eu mesma quem o criou e executou — Porquê? — questionei com um fiapo de voz, que fez todos ficarem em silêncio. — Se era tão próxima da minha mãe, se os reinos eram tão prósperos juntos, por que isso aconteceu? -Porque as coisas são como são? É uma pergunta complexa. Ela esvaziou o copo e Sir Arnold prontamente o encheu. — Magia, é uma coisa volátil, muito perigosa se não aprender a entendê-la e respeitá-la. Quando era mais jovem, fui uma criatura idealista, acreditava piamente que magia tinha que ter vazão, se acumulada nos nossos corpos, acabaria por consumir o usuário e levá-lo a loucura. Por isso temos os caelendus, mas sempre acreditei que eles não bastavam. Quando virei uma acadêmica, desenvolvi o método do Liberum. — Fala do Ritual que acontece a cada mudança de estação? — Não é apenas um ritual. O Liberum é uma forma de extravasar a magia sobressalente dos herdeiros. O Rito realizado no Samhaim, é o mais importante de todos. Porque os herdeiros de cada reino possuem os poderes das Maenads ancestrais, então, durante aquela delicada janela de tempo que deixa o véu entre o mundo espiritual e o nosso mais tênue, a magia deles está no auge. — É por isso que mesmo com o inverno rigoroso, as terras continuam férteis, até em lugares frios como Béllenian e Hibaernis e Caelestis. -Exatamente. Mas não apenas isso, quanto mais poderosos os herdeiros, mais férteis serão as terras deles, e não falo apenas de solo ideal para plantações, isso inclui criações de minas de pedras preciosas e tudo mais. — Era por isso que Caelestis era tão rica, os governantes de lá eram os mais poderosos, mesmo após ser destruída, as terras do reino sofreram ataques, tentativas de saques. — Em resumo, quando Maeve trouxe Tyrone do Norte. Ele não ingressou na academia na época, então, eu o ensinei, mas ele discordava da minha teoria, ele acreditava que não deveríamos desperdiçar magia e sim acumular, para que nos tornássemos mais poderosos, Tyrone acreditava que para fazer uso total do poder, deveríamos dobrar a magia e domá-la, apenas assim chegaríamos ao tão sonhado ápice. Louco. — Ele foi um t**o. — disse com amargura.- demorei a perceber que ele havia colocado em prática sua teoria. E já estávamos casados, foi um escândalo na época, mas como havia um macho entre nós, tudo foi mediado com certo jogo de cintura da parte de Maeve. Quando a aliança com Caelestis se estabeleceu, tomei Kiara como aprendiz, ela era uma jovem talentosa. Talentosa demais, para o azar do meu marido. — O que quer dizer? -Kiara era uma vidente. — não esbocei reação e ela me mostrou um sorriso mordaz. — Parece que a Arantha já lhe disse isso, sua mãe previu que teríamos um filho e que esse filho seria um ser muito poderoso, o macho mais poderoso de toda a história de Everness. — Não vejo nada demais nisso. — Você não foi contaminada com o espírito conservador de Everness. Mas, num mundo comandado por mulheres, com supremacia absoluta por milênios... tem noção do quão difícil foi para sua mãe revelar isso? Já enfrentávamos dificuldades com a construção de Malefici, e o fato dessa escola aceitar todos que possuíssem algum dom, independente do sexo, era r**m e completamente contra os princípios restritos do Império, e o fato de tal instituição ser comandada por uma Maenad que dividia a sua esposa com um descendente de Maraith... -Maraith? Não é lugar onde os dragões viviam? — Sim, mas havia pessoas naquele lugar. Uma tribo de criaturas, diferentes e mais antigas que as Maenads. Ninguém sabe ao certo de onde surgiram. -Como eles eram diferentes? — Não possuíam magia, não como nós pelo menos. Não tinham os caelendus, a magia deles era indomável e primitiva, muitos enlouqueciam, de forma geral, eram selvagens e muito fortes, pois em consequência da vida difícil os Maraithianos tinham um corpo diferenciado para suportar a magia, os músculos deles são mais rígidos, os ossos são mais resistentes é por isso que são matadores de Dragões. -Matadores de dragões. -disse, mais incrédula do que debochada. — Imagina a surpresa do clã, quando no meio deles, nasceu uma criança que tinha um dragão como Caelendus. Foi impossível manter-me cética, o meu assombro deve ter ficado evidente, pois notei atordoada que Sir Arnold havia enchido a minha caneca com chocolate quente novamente. — Essa criança... — Era Tyrone. — ela cansou de esvaziar o copo, foi o que supus quando a diretora o largou em cima da mesinha e pegou a garrafa, passando a beber o whisky direto do gargalo. Sir Arnold ficou horrorizado, por um bom tempo, tive vontade de rir. Mas apenas um olhar dele que dizia. Jamais pense em copiar esse comportamento. E me fez murchar e concentrar-me no meu chocolatinho. -Maeve o conheceu numa visita à aldeia, teoricamente, o território de Maraith pertence a Béllenian, os Maraithianos viviam minimamente sob o domínio da rainha, mas o trato era que eles não se envolveriam na política de Béllenian, e Béllenian tampouco interferia em Maraith. — a diretora suspirou. — Claro que isso não significava nada para Maeve, e para o azar dos Maraithianos, ela chegou a aldeia quando açoitavam Tyrone, por ele se recusar a completar o Rito de Abachadh. -Abachadh, o que é isso? — Um Rito de passagem para a vida adulta, consistia em acampar na floresta de Dragoeiros, munido apenas de uma adaga de pedra, matar um dragão e trazer o coração. — Que horrível, porque eles têm que trazer o coração? -eles entreolharam-se de uma forma esquisita, mesmo Ava abriu um dos olhos para espiar. -Para comê-lo. -O quê? Comer, eles comiam o coração? — Comer, não é bem a palavra. — Sir Arnold disse. — eles devoram o coração cru, ainda batendo e com as próprias mãos. Eu queria vomitar, Amon nem piscou com aquela informação, os demais pareciam no mínimo enojados. — Pode imaginar a fúria de Tyrone ao ser obrigado a cumprir o ritual. Ele, que era um bastardo rejeitado pelos pais, que desde que nascera fora banido para a floresta e tivera a companhia apenas do seu dragão. E fora incumbido de massacrar a espécie do seu irmão e praticar um ato tão hediondo, apenas para ser considerado um Maraithiano, ele percebeu naquele instante que não queria ser aquilo, e que os odiava. Então, ele rebelou-se. Houve luta é claro, mas o Maraithianos não levavam o nome de matadores de dragões a toa, em minutos imobilizaram Tyrone e o seu dragão, eles foram castigados. Estavam prestes a matar o dragão quando Maeve chegou, ela viu o estado de Tyrone e olhou direto nos olhos do dragão, quando olhou novamente para Tyrone a Insígnia queimou no peito nu e lacerado do rapaz, ela incinerou os Maraithianos que fizeram aquilo a Tyrone e o levou para Béllenian, ninguém a impediu. — Isso quase acabou com a aliança com os Maraithianos, por muitos anos eles ficaram em conflito. — Esclareceu Sir Arnold enquanto a diretora entornava a garrafa, ela havia acabado com a bebida. Quando havia bebido tudo? — E depois? — ousei perguntar, ela franziu os lábios, e um sorriso surgiu. -Depois? Quando ele chegou soube imediatamente o que ele era, nos casamos logo depois, vivemos felizes, por um tempo, até Tyrone ceder a ambição e a magia da sua mãe me alertar, então, tudo virou um inferno e foi assim que a magia destruiu a minha vida. Havia apenas silêncio quando a diretora pôs aquelas palavras para fora, queria dizer que interpretei que aquilo fossem apenas palavras rancorosa de uma bêbada, mas não, ela não estava bêbada, e aquela amargura... era uma amargura sóbria e consciente. Algo que parecia a corroer por dentro, e comecei a acreditar que os meus poderes não eram tão abençoados, talvez eu fosse mesmo amaldiçoada. — Posso dizer que as coisas tinham que ser assim, que várias ações levaram àquela noite maldita. Posso enfeitar toda a história o quanto quiser para tentar preservar o encanto da magia, o encanto desse mundo onde vivemos, mas, se quer a minha sincera opinião, não sei porque as coisas tiveram que acontecer assim. — Não sabe. — bufei uma risada, se ela não sabia, quem saberia? Eu parecia um cachorro correndo atrás do r**o, todas as minhas dúvidas levavam-me a respostas que geravam mais perguntas, e eu vivia num círculo infinito de perguntas e respostas. -Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, grandes desafios, grandes fardos. Talvez esse seja o preço, afinal. — Preferia não ter esse poder, se pudesse escolher, o daria em troca de ter a minha família, de viver com eles, de ser amada. O daria sem hesitar. — senti aquelas sombras acariciarem o meu rosto, como se para me consolar, Amon olhou-me com pesar e aninhou-se mais no meu colo. — Eu sei, criança. Eu sei. Isso não é possível, infelizmente. — É o que diz a si mesma, quando se deita para dormir e sente saudades? São essas palavras que amenizam a dor, tornam tudo suportável? A raiva, o ódio, o pesar... é isso que a faz se sentir melhor, diante de tanta impotência? O fato de não podermos fazer nada a respeito? -Esperança, é que me mantém de pé. -disse solenemente. -É o que faz eu me sentir motivada a continuar. Foi pela esperança de um futuro que os seus pais se sacrificaram, foi por essa esperança que Maeve morreu, que bani Tyrone. -ela levantou-se, como se ficar sentada dificultasse o seu autocontrole. - Foi por esperança, que passei 16 anos, sendo insultada e desacreditada. Caluniada, odiada e atacada por forças malignas a cada vez que pisava fora de Malefici, por acreditar que você estava viva, que por um milagre, a criança da profecia estava a salvo, e ela cresceria para se tornar alguém capaz de fazer do mundo um lugar melhor, alguém com a determinação de aço de Brendon e com o bom-senso e perspicácia de Kiara. — Essa esperança não era compartilhada por seu filho, imagino. — O meu filho teve a mente distorcida pelo desprezo do pai. Ele era uma criança doce e gentil, mas cresceu com o único objetivo de agradar o pai, de ter o seu favor, foi isso o que o levou a cometer as atrocidades daquela noite. Mas nem isso agradou Tyrone. -Por quê? Após ser presenteado com um reino, e a morte da minha mãe, por que ele não se deu por satisfeito? — Porque ele suspeitava que ela ainda estava viva. -Como? — Desde que Kiara me contou sobre o nosso herdeiro, tentei mudar o destino, quando a loucura de Tyrone se tornou irreversível e os seus atos tornaram-se ofensivos perante a nosso filho, montei um plano com sua mãe. Eu e Maeve éramos as únicas que poderíamos deter Tyrone sem causar uma guerra, tínhamos poderes equivalentes, mas não poderíamos matá-lo. Com a ajuda da sua mãe produzimos um veneno para incapacitá-lo, iríamos prendê-lo em Amrat. — Por que prendê-lo, por que não o mataram? — Não é tão fácil matar alguém, além disso, não tínhamos provas de crimes, apenas havia suspeitas das suas ações rebeldes contra o Império. -Burocracia de merda, mas o que é Amrat? -Uma prisão para seres mágicos que se tornaram poderosos e difíceis de lidar, pessoas que enlouqueceram por conta da magia e se tornaram um risco para si mesmo e para os outros. Em resumo, criaturas malignas impossíveis de serem mortas, mesmo pelas rainhas. — Parece que não somos tão poderosas assim. — Somos tão poderosas quanto imortais. Se cuidarmos da nossa saúde e sobrevivermos as catástrofes da vida, veremos os milênios passarem, mas ainda morreremos se cortarem as nossas cabeças. -Isso é consolador. — Estabelecemos um plano, demorou anos e mais pessoas se juntaram a causa, inicialmente amigos próximos, éramos compostos por um grupo de pessoas que eram contra as ideias opressoras de Tyrone, ficamos conhecidos como sociedade Pró- Impérial. Mas ao que parece, Kiara tinha planos particulares, ela e Maisie se aproximaram durante a gravidez, ambas tinham isso em comum. Kiara foi a única que apoiou o casamento dela com Max, mas a criança de Maisie era doente diziam que não sobreviveria e que ela teria de abortar, mas ela recusou-se e Kiara a apoiou novamente, a acolheu no palácio, ela queria curar a criança com magia, mas algo deu errado. -Como assim? — Naquela noite, meu filho fez um parto, mas não foi o de Kiara, foi o de Maisie. E foi a criança de Maisie que foi levada até Tyrone, um bebê natimorto. O príncipe não percebeu que fora enganado, ele não estava em juízo perfeito, haviam aprisionado o seu dragão para o motivar a cumprir a sua missão, então, após massacrar a cidade, ele levou o bebê errado e capturou a rainha e o rei. O sangue derramado em Caelestis envenenou a terra, tantos inocentes mortos... -O que houve? -questionei entredentes. — Quando Caelestis não deu o sinal, percebi que havia algo errado. Transirei com Arnold e o que encontrei lá, fez-me pôr as tripas para fora. Descobrimos depois que Líber também havia sido atacada e que a Grã-mestre havia caído, era um ataque simultâneo e estávamos desnorteados. -E os Cavaleiros Imperiais? -Não conseguimos avisar ninguém, foi com muito esforço que localizei Arnold, graças a um feitiço antigo, demoramos algum tempo para penetrar as defesas de Béllenian e quando conseguimos... -O que encontraram? -perguntei ansiosa. — Não havia guardas, tudo estava um breu a não ser pela iluminação fraca do castelo, o fedor de sangue podia ser sentido em todo o reino e quando entramos no palácio, vi Maeve e o nosso filho congelados enquanto assistiam à tortura de seu pai, o corpo de Kiara já estava pálido no chão, aquilo deixou-me perturbada, mas nada foi tão chocante quanto o sofrimento incumbido a Brendon, o esquadrão pessoal de Tyrone estava na sala do trono, Maeve estava impotente, pois haviam capturado o principe, mas ela não suportou ver o irmão daquele jeito. — O que ela fez? -perguntei com a garganta inchada e doendo. — Acabou com o sofrimento dele. -ela o matou, constatei. Para que não o maltratassem mais, a rainha matou o próprio irmão. — Ela não acreditava que Tyrone mataria o próprio filho, mas ele o golpeou sem hesitar. Começei a entoar o feitiço, Maeve lutou bravamente junto a sua loba, mas não conseguiu dar o golpe final, esperei o veneno fazer efeito, e quando Tyrone vacilou, Arnold atacou o seu dragão do lado de fora. Tudo era demorado, precisava de concentração, nesse meio tempo Arnold trava uma guerra no céu, enquanto Ava me protegia, o salão virou um inferno, mas tudo se calou quando num golpe de azar, a cobra de Simon quebrou o pescoço da loba de Maeve, ela ficou vulnerável e foi aí que Simon a apunhalou, foi como se eu tivesse sido apunhalada também. -Ele a matou. -Matou, e acredite. Por mais que se dedique, estude e pratique, nada vai deixá-la preparada para perder um familiar em batalha, bem diante dos seus olhos, fiquei descontrolada e Tyrone ficou em choque, naquele momento quando ele viu a vida deixar Maeve, percebi que se arrependeu. Mas era tarde. Com as minhas últimas forças, o bani, tomada pelo luto decidi que Amrat seria um ato de misericórdia que ele não merecia, então o bani para um mundo prisão, chamado Beloir. Com muito esforço consegui tirar Arnold de lá, estava esgotada e não conseguia mais lutar, o corpo de Maeve e dos seus pais, dos seus caelendus, eles ficaram lá. Ela abriu outra garrafa, como se precisasse esquecer que havia me contado tudo aquilo, sempre suspeitara que a Sra. Alekseeva não era refém do voto de obediência, seria burrice incumbir uma coisa daquelas a si mesmo e talvez fosse por isso que todos a odiassem, ela incumbiu isso a todos menos a si própria. -Pode ser idiotice, mas preciso perguntar. Porque não fez o voto de obediência? -Não é idiotice. Depois dessa derrota, Tyrone ficou fraco, mas ainda tinha muitos seguidores, eles passaram a governar Béllenian e o reino tornou-se intransponível, apenas eu sabia a fórmula do feitiço, apenas eu saberia como libertá-lo e se impedisse os demais de falarem sobre quaisquer coisas que aconteceram naquela noite, apenas eu seria uma fonte de informação viável... — Ou seja, posteriormente viriam apenas atrás da senhora e não de Sir Arnold. Por isso precisou que todos fizessem o juramento, para desviar a atenção de Sir Arnold e dos outros membros da sociedade Pró Imperial. -Sua mãe teria orgulho. -as palavras dela viajaram pelo espaço entre nós e foram direto para o meu coração, ao se dar conta do que disse, ela se recompôs e continuou. — Enfim, sempre desconfiei que havia algo errado. Foi permitido a sua tia, uma licença especial para viver no mundo dos Homines, algo planejado por sua mãe antes de Tyrone matar a Grã-mestre e ninguém além de mim e Arnold sabia que ela e o marido haviam sobrevivido, ficamos monitorando-a e quando Arnold viu o seu nome na lista de passageiros e me relatou, tive certeza de que não estava louca. — Como isso não foi descoberto antes? Eu sempre viajava com meus tios. — A nossa atual grã-mestre é uma fantoche, está ali apenas para que nenhum dos monarcas se intitule como soberano supremo do Império, mas ele manteve todos os acordos do seu antecessor. Não podia visitar o mundo humano, nem Arnold, portanto, não sabíamos o segredo que Maisie protegia, o véu era encarregado de proteger a identidade dela, dado que ela o atravessou e assim foi com você. Mas de alguma forma, dessa vez, o véu não a escondeu e detectamos seu nome, quando foi mencionado. — Quer dizer que uma Maenad pode ser detectada em qualquer lugar, apenas por mencionarem um nome? — No mundo dos homines em específico, pois as fronteiras são ténues e há um véu especial com esse mundo, um véu criado não por deuses, mas por mim e sua mãe. -Espere... — O véu, sempre protegerá qualquer Maenad, mas ele terá uma atenção especial com os descendentes O’Donnell e O’Brien. — Então, por que fui exposta? — Isso deixou-me intrigada e levou-me a uma busca árdua em Ballybofey. -O que procurava? — Um Oraculum-Delfos. — Pensei que estivessem extintos. — É o que todos pensam, mas há um ou dois vagando por aí. — A senhora o encontrou? — Sim. — prendi o folêgo, por algum motivo aquilo me deixava nervosa, o olhar frio da diretora deixou-me ainda mais inquieta. -E então? — Foi difícil, o Oraculum fez questão de deixar claro o quanto era divertido reter informações sobre a minha própria criação. — a impaciência levou a melhor, tive o ímpeto de revirar os olhos, mas fui detida pelo olhar gelado da diretora. — Ele disse-me que o véu foi criado para proteger. E se não fez o que lhe foi incumbido, era por que um ser superior sobrepunha a magia do Véu... — Já basta. — Sir Arnold advertiu, me surpreendi com o tom ríspido dele. O que estava acontecendo? — Ela precisa saber, já se meteu em confusões demais porque escondemos coisas dela. — Ela é apenas uma criança. — a voz dele se elevou, era a primeira vez que o via tão descomposto. — Ela será rainha, Arnold! – a diretora largou a garrafa na mesinha e o encarou. – Sei que quer protegê-la, mas já aprendemos por tentativa e erro que essa não é uma opção eficaz.
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