Keira
— Parem de falar como se eu não estivesse aqui.
Olhei fixamente para Sir Arnold, tentei me manter indiferente, mas não pude evitar de sentir certa mágoa, não era mais uma criança, e pensei que havíamos criado uma certa ligação depois de tantas revelações, engano meu. Ele desviou o olhar, o maxilar tenso como se tivesse se forçando a ficar calado.
– O que isso significa?
— De início, pensei que "ele" de alguma forma tivesse conseguido perfurar as proteções, ao menos o suficiente para bisbilhotar e interferir no véu, mas fui a Beloir e conferi o encantamento, estava tudo em ordem.
— E...? -a incentivei, quando ela trocou olhares carrancudos com Ava e depois com Sir Arnold, Amon rosnou baixo e ela olhou-o irritada.
— Cheguei a conclusão de que era você, sua magia, seu poder emergindo.
-Eu? -bufei uma risada. – Bobagem, não sou uma Deusa e m*l consigo usar magia.
-Keira, preste atenção. Essas sombras, procurei em todos os lugares, desde quando a história começou a ser escrita, pesquisei nas pedras de Oduím de todos os reinos, mas em nenhuma delas encontrei qualquer menção a essas... — ela apontou-me, hesitante, como se estivesse à procura de palavras mais adequadas, mas por fim suspirou frustrada... — Sombras. — disse balançando a mão exasperada.
-Mas elas só apareceram recentemente.
— Mesmo? Desde o primeiro dia senti algo emanando de você, não conseguia ver, mas sentia. Qual o poder que herdou de sua mãe?
— Vida. — respondi sem entender o que aquilo tinha a ver com a situação.
— E nesse tempo que viveu longe, alguma vez em que esteve triste ou com raiva, desejou ter algo, ardentemente?
Empalideci.
-O que desejou?
-Não pode estar falando sério! -protestei.
-O que desejou? -Insistiu e engoli em seco.
-Não estar sozinha. Ter... companhia. -olhei para os dois, com a esperança de ter entendido tudo errado, mas ambos me olhavam assombrados, como se todos tivessem chegado a mesma conclusão impossivel ao mesmo tempo.
-Você criou as sombras, para não se sentir sozinha. Seu dom, deu vida a elas, isso não parece o poder de uma Deusa?
Me arrepiei. Por todos os demônios, o que foi que eu fiz?
(...)
Caminhei atordoada pelo gramado da escola, pedi a Amon para me deixar sozinha e ele se apressou em ir para o dormitório, meu pescoço estava tenso e o massageie, a última hora havia sido algo confuso, as palavras da diretora ecoavam em minha cabeça... “você criou as sombras. Não parece o poder de uma Deusa?”
O poder de uma Deusa.
O que poderia fazer com ele? Ela me pediu por cautela, pois magia poderia se tornar algo perigoso, mas sentia que se não aprendesse a lidar com esse poder, ele iria me consumir, lentamente. Um galho estalou não muito longe de mim, parei imediatamente e olhei ao redor, a area escura da floresta repentinamente quieta, ouvi murmurios e agucei minha audição.
- Não deveria me dar tanto trabalho, uma palavra e as coisas se tornariam um tanto quanto difíceis para o seu reino.
Me aproximei da floresta e me esgueirei por de trás de um arbusto, tomando cuidado de pisar apenas na grama fofa.
-Não sou seu súdito. Por acaso os machos estão em falta em Hibaernis?
Reconheci imediatamente a voz de Ibrahim, meus ombros caíram quando ouvi um ruído abafado e vi entre os galhos uma garota alta o encurralando contra uma árvore, prendendo seus braços ao lado do corpo.
- Ajoelhe-se, e me chupe. -Ele grunhiu e meu estomago se revirou. Olhei para o lado na esperança de espantar a ânsia, me preparei para me afastar, mas o som de peles se chocando e ofegos me paralisou.
-Não. -ele rosnou, meu corpo inteiro estremeceu com o tom cortante.
-Farei com que seja oficialmente meu amante, se quiser.
Grunhi, irritada com toda aquela merda, antes que pudesse procrastinar ainda mais, surgi diante deles, imediatamente ela se distanciou e Ibrahim me encarou, o rosto branco e macilento, como se ele estivesse enjoado.
-Posso saber por que a demora? -perguntei autoritáriamente, ele franziu o cenho, minhas sombras espiralaram ao meu redor e encarei rapidamente a garota de cabelos brancos e de olhos negros ambiciosos. A princesa herdeira de Hibaernis, a gêmea de Anika... que bela v***a ela é. – Espero que não tenha esquecido da minha detenção, príncipe.
- Estamos ocupados, herdeira das cinzas.
Tombei levemente minha cabeça, e a encarei um pouco mais, friamente, até que ela chegasse à conclusão sozinha de que não era uma boa ideia mexer comigo, levou apenas três segundos até ela desviar o olhar praguejando. E aproveitando a deixa, dei um passo a frente e me aproximei dela, tive de ficar na ponta dos pés, mas não perdi a pose e falei em seu ouvido encarando Ibrahim que ainda estava recostado na árvore.
-Se colocar essas patas sujas de aranha nele novamente, ou em qualquer outro contra sua vontade, será a última vez que terá mãos. -Ibrahim ofegou, completamente boquiaberto.
Senti a princesa estremecer e deixei que minhas sombras acariciassem uma mexa de seu cabelo liso, estávamos na escola, não costumava ameaçar ninguém, mas aquilo de forma alguma foi um blefe.
-Entendeu? -rosnei.
Olhei-a de cima a baixo, e depois novamente para cima a procura de seus olhos, e quando nosso olhar se conectou, o que quer que ela tenha visto, a fez sair aos tropeços em direção ao castelo, deixando a mim e Ibrahim em um silêncio incomodo. Sem preâmbulos puxei sua mão inspecionando a parte de baixo do antebraço, de onde vinha um cheiro de sangue.
-Por que não reagiu?
Perguntei entre dentes ao passar o polegar em cima de uma laceração, ela o rasgou, aquela víbora. Vi seus pelos se arrepiarem, ele tentou puxar o braço antes que terminasse de tratar, o segurei firme, mas ele acabou me puxando e tropeçei quase caindo em cima dele, ficamos cara a cara, os pelos da minha nuca se eriçaram quando ele praticamente rosnou em meu rosto.
-Cuide da sua vida, O’Donnell.
-Estava fazendo isso, e acredite, tenho coisas melhores a fazer do que salvar sua boca principesca de bocetas venenosas!
-Você é uma cretina. -o esbofeteei, ele m*l virou o rosto e sibilei sob sua respiração, ele me olhou e seus olhos brilharam de uma forma estranha, como se estivesse curioso ou admirado.
-Da próxima vez, a cretina aqui pode não estar por perto, e você não parecia nem um pouco disposto a servi-la.
Soltei bruscamente seu braço e girei nos calcanhares em direção a escola, mas antes que saísse da proteção da floresta, ele me puxou e me prendeu contra uma árvore, as mãos espalmadas no tronco áspero, bem ao lado da minha cabeça.
-Eu poderia ter acabado com ela, se quisesse. Sabe por que não o fiz?
Ele me olhou, os olhos verdes fervilhando.
-Porque príncipe ou não, vocês, maenads só enxergam machos como objetos, pior, como animais a serem montados e contra isso, nem mesmo um rei pode lutar contra, isso se houvesse algum.
A raiva apertou meu estômago, havia salvado sua pele, e só havia ganhado insultos como agradecimento.
-Acabei de livrar seu r**o. -o empurrei, mas ele nem se moveu. -Não se preocupe, não direi nada. Ninguém precisa saber que o comandante dos Cavaleiros Imperiais é uma donzela a ser salva de cretinas como eu e todas as outras!
Bati novamente em seu peito, mas ele me bloqueou me empurrando.
-Você é como elas? -perguntou em voz baixa, com os lábios a centimetros dos meus. Congelei, ele estava me intimidando? -Quero pensar que não, por que diabos, acabou de me reivindicar como se eu fosse seu...
-Grande merda. -Rosnei, tentando mascarar um gemido de satisfação com aquela proximidade, ele segurou meu rosto com força, o peito subindo e descendo rápido e roçando em mim.
-É... grande merda. -reafirmou. - Porque gostei de ouvir isso. -admitiu e parei de me debater.
Calor se espalhou por meu rosto ao notar que quase não havia um espaço vazio entre nós, e não estava me retraindo ou tendo um ataque, estava gostando.
Maldição. Estava gostando do que Ibrahim estava fazendo, do que estava prestes a fazer.
-O’Donnell? -sussurrou em minha boca, e aquilo levou arrepios por todo meu corpo.
Diabos, precisava ir.
O empurrei atordoada e dessa vez ele cedeu, mas antes de dar as costas completamente a raiva aqueceu meu sangue e me virei, o empurrei de cara contra a árvore, jogando todo o meu peso em suas costas e torcendo seu braço por trás, passei uma rasteira e ele caiu de joelhos, a experiência no judô me trazia muitos beneficios, prendi suas mãos as costas e me surpreendi ao notar a facilidade com que fiz isso.
-Da próxima vez que me encurralar, não acabará bem. -grunhi em seu ouvido ao puxar seu r**o de cavalo inclinando sua cabeça para trás.
-Bruxa ardilosa. -ele grunhiu e o empurrei mais. -Você parecia muito bem, presa entre meus braços.
-Gostaria que fosse verdade, não é?– me afastei e começei a me distanciar, babaca.
-Nos vemos amanhã, mostrarei minha gratidão durante a detenção, princesa.
Me virei apenas para mostrar um combo de dedos do meio, ele gargalhou e limpou a terra das roupas. Precisava me livrar da detenção com Ibrahim o quanto antes.
(...)
Eu era ignorante a respeito da totalidade do significado da palavra desprezo. Tive momentos ruins na infância, as crianças da pré escola eram más e as do fundamental, eram cruéis.
Quando elas souberam que me urinei nas calças, no dia em que me esqueceram na escola, elas passaram a me chamar de Keira mijona, quando passava pelos corredores elas cobriam o nariz e faziam caretas enojadas e entoavam o apelido como uma prece, o coro era assombrosamente sincronizado.
O apelido pegou, e quando nos mudamos para o Brasil, Violet garantiu que eu não o esqueceria. Um determinado dia cheguei mais tarde na escola, Violet me deixou para trás propositalmente e tive de ir a pé, cheguei suada e constrangida, m*l olhei para os lados quando entrei na sala, odiava chegar atrasada, mas quando sentei em meu lugar, quis morrer, estava molhado.
Eles haviam molhado minha cadeira, não me levantei até o sinal tocar e quando o fiz, minha b***a estava molhada, então, alguém viu, o pioneiro da minha humilhação e que ressuscitou aquele apelido maldito, e todos começaram a me chamar de Keira mijona, de novo.
Não foi isso que me machucou, ou fato deles também cobrirem o nariz.
A umidade em minha roupa era suco de laranja, e eu não estava fedendo, tinha tomado banho aquela manhã, mas foi o fato de que aquilo não importava, foi isso que me atingiu.
Estava limpa de urina e suja de suco, mas não importava, porque para eles, estava mijada e fedendo e era disso que iriam lembrar, ninguém se importava que fosse uma mentira ou um trote, porque a única que seria atingida era eu, e eu não importava, porque não era ninguém.
Tinha apenas 12 anos quando comecei a não odiar tanto ser diferente, até então, desejava apenas ser invisível, mas depois desse dia percebi que ser invisível não era a solução, uma pessoa invisível não tinha poder, não tinha voz e nenhuma importância, se estava feliz ou triste, se estava calma ou irritada, não importava, a vida de uma pessoa invisível não importava.
Então, passei a gostar de minha aparência diferente, por que mesmo que eles me fizessem ser invisível, ainda olhavam para mim uma segunda vez, apenas por instinto, por causa do meu cabelo prateado e dos olhos azuis estranhos, durava pouco, até eles lembrarem que eu era a invisível e que não deviam me dar atenção, mas aquela segunda olhada, ela me salvou de me odiar, me salvou de mim mesma, porque percebi que não queria ser invisível, queria revidar, gritar e bater neles, queria que vissem minha raiva e tivessem medo.
Malefici, me ensinou o significado da repulsa.
As garotas do fundamental e do ensino médio não eram nada, em comparação com as Maenads de Malefici.
Em Everness, fiquei sabendo, havia uma superstição sobre gêmeos, se nascessem duas garotas, a família seria recompensada com chuvas de bençãos, mas se as crianças fossem de gêneros diferentes, seriam consideradas pragas independentemente do status, e para o azar de Ibrahim esse era seu caso, e era ainda pior para Aina, pois diziam as más línguas que ela havia nascido com o cordão umbilical enrolado no pescoço, era para estar morta, mas Aina estava viva, viva e amaldiçoada de acordo com a superstição.
O nome Aina, na linguagem antiga significava “Parto complicado” ou “Aquele que nasce enrolado no cordão.” tudo era a mesma merda, Aina era amaldiçoada por quase ter matado a mãe no parto, mesmo sendo a herdeira do trono, todos torciam o nariz para ela, e eu achara inocentemente que os gêmeos Akello eram os valentões da escola, que ingênua, Keira.
E para piorar tudo, Aina havia se juntado a outra amaldiçoada, eu.
Todos tinham medo de mim, não por causa do meu cabelo, mas porque era uma criança nascida no Samhain, pior, uma criança nascida em uma noite de lua cheia do Samhain.
Dizem que o Samhain, é o predecessor do Halloween, ele é um festival celebrado pelos antigos Celtas, era o meio caminho entre o equinócio de outono e o solstício de inverno. Começava ao anoitecer por volta de 31 de outubro e provavelmente durava três dias. A transição entre a metade mais clara do ano, para mais escura, um espaço no tempo onde o véu entre o reino dos espíritos era suspenso, foi nessa época em que nasci.
Quando era criança, me vangloriava por ter nascido nessa data, assustava os outros ao dizer que era uma bruxa, mas nunca tive total discernimento do que isso significava, e ainda estou descobrindo, mas a primeira descoberta era… sou amaldiçoada.
Não apenas porque nasci na época mais sombria do ano, mas por que de fato, possuo poderes obscuros, de extensão desconhecidas e pior, de capacidades desconhecidas, as vantagens? Ninguém me chateia, ninguém fala comigo, todos tem medo.
Já fazia meses desde a conversa com a diretora, ninguém falava comigo, todos me ignoravam até mesmo os professores me evitavam, bom, pelo menos a professora de história da magia havia parado de pegar no meu pé. Todos se afastavam aonde quer que eu chegasse.
Todos, menos Ibrahim, o t**o Liam e minhas amigas.
Liam, podia até ser i****a o suficiente para não ter medo, Ibrahim, ele rivalizava demais comigo para demonstrar algo além de raiva, já, minhas amigas… elas tinham medo, mas aquela outra coisa que sentiam abafava esse medo e sou grata por isso.
-Um lugar perigoso para uma criança. - Uma voz aveludada sussurrou na escuridão, suspirei ao notar a presença da diretora. Há quanto tempo estava aqui, no meu esconderijo, pensando em bobagens?
- Não é mais perigoso, não com a senhora aqui.
Disse rispidamente, ela sumiu por semanas depois da nossa conversinha, fui atrás dela por diversas vezes e tudo que me diziam era: “A diretora está fora.”
Se ela estava me evitando ou não, não era o ponto, mas o motivo disso é que era importante.
A encarei por um instante, ela estava impassível como sempre, mas seu semblante era sereno, respirei aliviada, ela não estava zangada, talvez conseguisse arrancar algo dela ou talvez devesse descobrir de outra forma.
-Elas falam com você?
Perguntou apontado paras sombras que ondulavam ao meu redor, suspirei, Amondiel vivia tentando capturá-las desde o dia surgiram, ás vezes elas sumiam, depois ficavam me cercando, como uma áurea viva de arabescos negros, como se emanassem de mim, daí prova para as Maenads de que sou realmente amaldiçoada.
-Às vezes ouço sussurros, como se elas fossem um sexto sentido, sempre me alertando de algum perigo, mas nada mais que isso.
- Ouvi que está com problemas em algumas aulas, o que há?
Perguntou com interesse, um interesse que era raro e contrastava intensamente com sua postura de rainha do gelo, em todos esses meses ninguém me perguntou aquilo.
-Eu tenho medo.
Disse ao olhar para baixo no gramado e assistir Amon perseguindo uma irritante lebreira, quase até a margem do lago, o animal parecia mais um coelho mutante, era como deveriam se chamar, a criatura era maior e mais rápida que um coelho normal e muito diabólico.
- De usar magia? - Questionou ao passar pela janela sentar-se ao meu lado no telhado.
- De destruir tudo, sem querer. - Esclareci, o poder formigou em minhas mãos e cerrei os punhos, aquilo era realmente irritante, era como segurar um cabresto em mim mesma, tendo que ajustar o agarre o tempo todo, sem descanso, sem pausa, isso estava me enlouquecendo. Pude jurar que aquelas sombras acariciaram minhas costas e meu corpo relaxou um pouco.
- É bom que tenha medo.
Ela afirmou ao abraçar os joelhos, a encarei, uma mulher como ela dizendo que eu estava certa em temer, não apenas certa, mas que isso era bom? Franzi o cenho.
-Digo isso, porque é uma possibilidade. Você de fato, pode destruir tudo apenas com um pensamento. - Estremeci diante de seu olhar dominante. - E sabe bem disso, Keira. Portanto, por que ainda não destruiu?
Estreitei os olhos, porque estava reprimindo isso, afogando aquele poder na escuridão, toda vez que ele emergia eu o empurrava para baixo, o tempo todo, mas estava cada vez mais difícil.
- Porque tenho medo. - Respondi com um fiapo de voz.
- Não. - Ela rebateu duramente. - É porque não quer. E no fundo, é isso que nos diferencia dos impuros servos das trevas. Nós temos vontade própria, escolhemos o bem, no fundo é sempre uma questão de escolha. - Ela declarou e se virou para mim. - Como sente seu poder?
Pensei com afinco na questão, ciente de que Amon estava ouvindo tudo à distância, e que talvez aquelas sombras também, mas era tão difícil descrever aquilo.
-Sinto-o como calor ás vezes, tão quente, como se estivesse o tempo todo fervendo, sabe, como água quente borbulhando na panela, mas as vezes é tão frio, tão frio quanto uma lago por baixo de uma camada espessa de gelo, ou o vento do inverno que corta e queima, e , meu poder é como se juntasse tudo isso e jogasse em uma xícara cheia, ando devagar para não derramar o conteúdo, mas um passo em falso e ele transborda. - Ofeguei. - O tempo todo é assim, mesmo quando durmo tenho que ter cuidado, e quando ele entorna, é… devastador.
-Como quando você e Aina caíram da escada?
Sorri a contragosto, nunca acreditei que havia enganado ela.
- Aquilo foi só uma faísca, uma gota. - Disse ao lembrar de meus e**********s na floresta, aquilo fora apenas a carnificina, ainda havia o fogo.
- Entendo. Tem duas soluções, ou derrama uma porção do conteúdo para que não entorne ou mantém o pulso firme e permite uma vazão controlada e constante para que ele se mantenha sob controle e no limiar da borda.
Eu a encarei, aquela era uma analogia estranha, mas surpreendentemente fácil de entender, esse era meu exato problema no fim das contas, não tinha o entendimento dos outros, não convivi muito tempo com a magia, não sabia o que era certo ou errado ou como deveria sentir, mas algo me dizia que a diretora era adepta da segunda opção, uma vontade de aço como a dela não se dobraria a poder algum. Mas então me lembrei do senhor das sombras, acumular não era uma boa ideia.
- Reprimir, não é a solução Keira, se deixar acumular, uma hora irá entornar. E não será bonito.
Ela se levantou e olhou para Amon, que havia abandonado a perseguição e nos encarava do gramado com interesse.
- Você é forte, muito mais forte do que jamais vi. Com o conhecimento e treinamento adequado, será mais poderosa do que eu, mais poderosa até do que sua mãe teria sido, se ainda estivesse viva.
-Mais forte do que a senhora? -Bufei. m*l conseguia usar os fones que Aina encantou e era um objeto com um feitiço magnífico, mas bem simples.
-Você é sim. É a única Maenad que nasceu com dois caelendus, nunca em toda a história isso aconteceu, tem noção da magnitude disso? Ele pode ter morrido, mas então, o seu gêmeo sobreviveu.
Seu olhar se voltou para Amondiel e eu fiz o mesmo, ele congelou e nos encarou de volta, olhos azuis chocados me observavam.
-Não irei me desculpar por esconder isso dos dois, mas seu guardião é forte, o elo de vocês é profundo, ele é seu condutor, o seu poder bruto precisa ser lapidado, e ele... - Disse apontando o dedo longo para Amon. - Ele é a chave. Deixe que Amondiel se encarregue da simetria, proporção e polimento. Divida a carga entre vocês, aí verá… - Ela se levantou e se virou para entrar pela janela.
- Verei o quê? - Perguntei alarmada e chocada com a revelação incompleta, acho que essa fora a conversa mais esquisita que tivemos desde a noite no chalé de Sir Arnold.
- O belo diamante que surgirá de vocês. A lapidação, é a chave para a beleza da pedra, criança. Não se esqueça.
-A Deusa não nos deu eles apenas para serem meros guardiões, eles existem para filtrar nossa grandeza, para domar nossa selvageria, mas não para controlar, para moldar e polir, é nisso que acredito. - Dito isso, ela desapareceu e Amon deu um salto imenso para o telhado.
- Ela tem jeito com as palavras. Transformou uma revelação chocante em um discurso motivador - O jovem lobo comentou.
-Sabia disso? -Amondiel sentou-se sobre as patas e me encarou por um longo tempo antes de falar.
-Não, e preferia não saber. Gêmeos, não são bem-vistos. Não quero que se sinta ainda mais diferente dos outros, perdoe-me por isso. Também não sabia que esse fato determinava a força de uma Maenad.
-Por que pede desculpas? Acha que isso faria com que pensasse m*l de você? - Ele não se moveu e seu silêncio foi minha resposta. - Que diabos, Amon! Realmente acha que sou tão superficial?
-Não, mas eu não sei... me sinto estranho sobre isso. Minha senhorita, já sofreu tanto, gostaria que não jogassem mais esse fardo em cima de você, sabe o motivo do sofrimento de Aina não sabe?
Mordi o lábio, sabia que havia algo de muito errado com a família real de Solarian, eles também enfrentavam isso em casa? Nunca me atrevera a perguntar como Aina se sentia sobre aquilo.
-Se Aina tivesse nascido com uma irmã, teriam dado banquetes em homenagem a rainha, mas por dividir o útero com um macho… ela nunca será vista como as outras, sempre haverá um receio e murmurios ao seu redor.
-Não me importo com murmúrios e sussurros. Amon, passei a minha vida sofrendo discriminação na escola e sendo invisível em casa, em determinada época em ambos os lugares, não era nada além de lixo a ser descartado, não me importo com o que pensam de nós, desde que esteja ao meu lado, suportarei tudo, vencerei tudo, porque é o único que posso chamar de família, tenho Aina e Mei, mas você… você, é a parte de mim que recuperei, uma parte que nem sabia faltar.
Ele parecia um tanto quanto constrangido, e eu fiquei também ao notar o que disse, me levantei bruscamente e encarei a floresta nos limites da escola.
- Vamos treinar. - Propus empolgada e ele estreitou os olhos.
- Transfiguração primeiro. -ele declarou ao se preparar para saltar para o chão e para a floresta, aquiesci e me impulsionei telhado abaixo deixando minha fera interior emergir, patas negras aterrissaram na grama e respirei fundo sentindo ar frio da noite preencher meus pulmões.
(...)
Adolescentes em plena puberdade tem muitas preocupações e muitos acontecimentos importantes explodindo em seu corpo.
Contudo, uma Maenad adolescente vítima de abuso e em pleno limiar de seu primeiro ciclo estral, estava em sérios problemas quando sequer suportava ser tocada por alguém do sexo oposto. Claro que Ibrahim era exceção, e eu odiava isso, embora tenha ficado longe dele desde aquela noite no bosque, mas nem o exercício extra da detenção estava me ajudando. Ah, estava em sérios problemas.
Não odiava sexo.
Não conhecia e não sabia o que pensar, mas não odiava.
Sabia que o que havia acontecido comigo não fora sexo, fora uma agressão, fora um homem sujo empurrando suas vontades repulsivas em alguém que não queria aquilo, sabia que o objetivo do ato, era impor algo contra a vontade da vítima, pois lhe dava uma sensação de poder, tinha uma boa noção disso, pois estava tendo ajuda da Sra. Alekseeva e de outras fêmeas curandeiras de Malefici, tudo em sigilo, claro.
Tudo relacionado a tirar a roupa e tocar me embaraçava, não gostava do meu corpo, desde muito cedo aprendera a escondê-lo a fim de evitar olhares gananciosos e maliciosos que receberia de qualquer forma, mas a minha visão deturpada de mim mesma, também era culpa de tia Maisie.
Fora criada tão rigidamente nesse aspecto, que as formas mais suaves de carícias me pareciam erradas, claro, isso fora um conceito arcaico implantado por minha tia, agora entendo que ela tentava suprimir a bacante interior dos genes de Maenad, mas eu era inteligente o suficiente para ter outras fontes de informação sobre sexo e relacionamentos.
Constante lia livros eróticos que mostravam outra parte do sexo, livros é claro, que eram para maiores de 18, mas minha curiosidade era algo vivo e impossivel de deter, alguns exemplares eram pesados, outros mais brandos, dependia muito do meu humor, mas o fato é, quando deixei Callanish, meu smartphone, minha biblioteca digital estava repleto de livros obscenos.
No entanto, meus conceitos foram destruídos naquela noite, e agora não sabia separar as coisas, estava trabalhando nisso, mas a verdade é que nunca passei pela experiência da descoberta.
Aquilo que é romantizado pelos livros e documentários na internet, a sexualidade, a auto-exploração do próprio corpo, da atração… essa parte da minha vida, nunca aconteceu.
Após alguns meses de aconselhamento, me abri com Aina e Mei, quando expliquei minuciosa e humilhantemente que nunca tivera um orgasmo, elas quase caíram da cama, conhecia o processo, a anatomia e entendia a coexistência dos dois, mas meu corpo nunca experimentou a sensação, nem mesmo sabia se era hetera ou lésbica ou bissexual.
Ambas ficaram tão escandalizadas que foram precisos várias xícaras de chá para se acalmarem a ponto de conseguirem conversar coerentemente, e Amondiel não poupou sutileza ao sumir para os Deuses sabem onde, levando Luena e Lana consigo.
E uma outra rodada de humilhação começou, pois quando minhas amigas relataram suas próprias experiências, e confidenciaram décadas de sexo imortal, elucidando meus conceitos obscuros, ali percebera o quanto era maldita e dolorosamente ignorante a arte das alcovas e dos prazeres da carne.
-Você é linda, Keira. - Aina enfatizou, assenti.
Sabia disso. Sabia que era bonita, todos também sabiam disso, mas há um enorme abismo entre ser bonita e se sentir bonita.
-Havia uma garota na minha sala no segundo ano, o nome dela era Belinda Suárez. - Comecei a me lembrar da única garota que talvez, com muito esforço e coragem poderia ter se tornado uma amiga para mim ou outra coisa.
- Ela tinha um rosto tão lindo que dava vontade de chorar, como naquelas obras de arte que te deixam tão emocionada que o seu coração palpita e você fica sem fôlego, todos olhavam para o rosto dela, mas apenas para o rosto, pois achavam ela gorda.
Ela não era gorda, não mesmo. Ela tinha um corpo violão incrivel.
-Belinda era uma beldade latina de corpo violão, s***s fartos e quadris largos, mas para o padrão de nossa escola que tinha um elogiado grupo de ballet, Belinda era desproporcional e inadequada, assim como eu, mas em níveis muito mais altos. Fiquei sentida quando fui excluída do ballet, por míseros cinco quilos a mais do ideal, por conta do maldito corpo com excesso de curvas, mas Belinda? Ela ficou feliz.
Ela não se importava em ser gorda, e não era, na minha opnião. Ela se sentia linda, fazia atividade física, comia frutas nos intervalos e bebia suco, e melhor, Belinda se sentia linda, o sorriso dela era coisa mais incrivel que vi, ela sorriu para mim no dia em que fomos dispensadas na frente de todas as bailarinas, naquele dia fiquei tão nervosa que minha menstruação desceu, me escondi no banheiro, desesperada e constrangida, sem saber como iria para casa.
Me assustei quando ela entrou, ela não falou nada, apenas tirou o moletom, e me estendeu, ela estava apenas com o collant, mas insistiu e quando não peguei o agasalho ela o amarrou em minha cintura e saiu do banheiro. -Sorri minimamente ao lembrar do dia em que Belinda Suárez se tornou um mártir para mim.
-Ao sair do banheiro, vi que todos olhavam para ela, comentando das gordurinhas a mais, dos pneuzinhos, do quanto ela era ridícula e gorda. Mas Belinda passou por eles sorrindo tão largamente, ela parou em minha frente e me olhou, não com repulsa e desprezo, mas com reconhecimento e respeito.
-Não somos cisnes graciosos, somos feras enjauladas, e eu acabei de me libertar, irá permanecer na jaula O’Donnell?- ela me perguntou. -Fiquei tão atordoada que não consegui responder nada, ela piscou o olho e desfilou pelo corredor, os longos cabelos pretos balançando na cintura, e alguns meninos olharam com admiração para ela e soube naquele dia que Belinda era muito mais bonita do que eu, mesmo com dez quilos a mais, e não era assim apenas porque tinha as melhores qualidades físicas e sim por que ela se sentia assim.
-Então, não se sente assim?
Mei perguntou cautelosamente, estava se segurando por algum motivo.
-Não, não me sinto. Nunca me senti.
-Bom, vamos mudar isso. -disse determinada. - Nem que seja a força.