Capítulo 12

5000 Palavras
Keira Não havia nada mais irritante do que lidar com concursos hormonais de machos e fêmeas, era ridículo como pareciam gastar todas as horas livres -que aliás, não eram muitas, pois as matérias escolares pareciam brotar do chão como formigas saídas de um formigueiro sem fim. - Mas a maioria ainda encontrava ânimo e gastava tempo brigando por domínio e territorialidade. O que mais me impressionava era a confiança que eles depositavam nos seus instintos, não havia reconhecimento de títulos na escola, todos eram iguais, todos sobreviviam aqui por mérito próprio, um título aqui não valia de nada, os herdeiros estavam por si mesmos. Todos se portavam razoavelmente bem na presença dos professores, mas havia hostilidade e olhares enviesados, havia divisões entre os alunos, criaturas de reinos diferentes não se uniam, haviam bolhas seletivas por todos os lados e também havia uma bolha maior que separava os herdeiros de cada reino, o que provocava muita divergência de opiniões, que acabavam muitas vezes em conversas alteradas ou em brigas. Até mesmo uma caminhada no pedaço da floresta que estava nos limites da escola era perigosa, todas as criaturas de Malefici pareciam portar uma entidade ao seu redor, algo que os impediam de serem pegos de surpresa, ou de tropeçar num galho, e que faziam a maioria enxergar muito bem na escuridão da floresta, eu os observava com atenção, eles pareciam sentir tudo ao redor, algo que eles confiavam com a própria vida, como uma intuição… não, era mais que isso, era um saber concreto, quase como fé.. Eu era uma criatura religiosa, fiz catecismo, primeira comunhão e depois a crisma, costumava ir à igreja aos domingos. Acreditava em Deus, na Virgem Maria e em Jesus Cristo, e quando passei a viver em Everness, passara a dirigir as minhas preces a Clarita e Dain, não que eu fosse muito devota, pois tudo ainda era muito recente, mesmo vivendo aqui há meses, mas após conviver com criaturas como as Maenads, acaba-se pegando um ou outro costume delas, e também, eu era uma delas. Mei, se encarregou de me dar uma aula completa a respeito de todo o panteão das Maenads Primordiais, sobre a deusa que era como uma mãe para elas, nas bênçãos que concedeu...eu acreditava, em parte. Mas se havia acreditado verdadeiramente numa coisa durante a minha breve vida, era no carma. Foram a minha ignorância e arrogância que me fizeram odiar a parte dominante, selvagem e o espírito livre das Maenads e a submissão dos machos que aqui viviam, e fora o carma que me tornara a mais territorialista, dominante e possessiva das bestas naquela escola ou talvez daquele mundo. Não sabia se era a ascendência lupina, ou algum instinto Maenad arraigado na minha medula, havia muitos que lidavam melhor com sua fera interior, mas eu não estava incluída nisso. Era ridiculamente possessiva, com minhas amigas, principalmente com Aina e até mesmo com Amondiel, e graças aquele quase beijo com Ibrahim, não conseguia me imaginar numa relação com um macho imortal, pois só de pensar em todas as experiências com antigas amantes, o fato de que jamais pertenceria exclusivamente e unicamente a mim, pois não havia ninguém da minha idade ali, ninguém era mais jovem ou mais inexperiente, pelo menos, não nos padrões mortais, então, eu era a novata, a recém-chegada. A maioria tinha em torno de 200 anos e a bagagem deles… deuses, a quantidade de experiências que continham naqueles corpos, aquilo me massacrava até me fazer sentir tão pequena quanto uma formiga.  A quantidade de fêmeas com quem Ibrahim deve ter se relacionado, quantas e quantas vezes ele as encurralou contra uma árvore, ou uma parede...? Quantas fêmeas lindas e majestosas, de beleza intangível, criaturas conscientes de si mesmas, lindas, altas e elegantes, elas com certeza não se sentiam deslocadas, nem inseguras ou mesmo feias e baixas demais, não possuíam quadris largos, s***s volumosos e nem uma barriga saliente. Eu não era como elas, não me parecia com elas. E quantas delas teve ele nos braços, encurralando-o...? Pensar naquilo estripava-me, era uma sensação r**m, que me deixava com o rosto quente e com um gosto amargo na boca, era como beber dipirona puro e sem a água para limpar os vestígios do amargor, ao mesmo tempo em que uma faca quente arrancava os meus intestinos lentamente por um buraco estreito, tudo era lento e agonizante. E tudo me fazia sentir pequena e lamentável, como eu me senti a vida toda ao ver Violet recebendo o carinho dos meus tios, aquilo me incomodava porque o simples fato de sentir ciúmes de algo que ela possuía, deixava claro que eu não era muito melhor que a minha prima, no fundo, eu também era obscura e invejosa. É claro, sentimentos são irracionais. E irracionalidade é uma característica que não agrada às Maenads, mas tudo em mim era absolutamente irracional e despropositado. Não houve nada palpável entre mim e Ibrahim, no entanto, o meu coração emocionado já estava a influenciar minha mente, ela estava fantasiando, talvez eu inconscientemente o tivesse escolhido porque ele não tinha medo, porque é o único que não espera nada de bom de mim, é um raciocínio bizarro, mas é isso que me atrai nele, talvez seja uma vaidade recém-aflorada acreditar que a pessoa que mais me odeia, talvez tenha outros sentimentos por mim. Porém, existe aquela insegurança venenosa, ela ainda era uma característica extremamente humana e feminina, e eu a odiava. Odiava me sentir assim porque acreditava que Everness era meu lugar, acreditei que finalmente me sentiria bem aqui, mas não me sentia confortável e segura, nem comigo mesma, e isso era deveras r**m, porque iria conviver muito tempo comigo mesma, tipo, muito tempo mesmo, afinal de contas para o meu azar, eu era imortal. Ao contrário do que pensava, feminilidade não era sinônimo de confiança e autoestima nas nuvens, pensava que por me vestir despojadamente com trajes quase masculinos, isso me impelia a não ser feminina e consequentemente não ter a confiança implícita que fazia as mulheres brilharem. Estava tão errada, Aina e Mei jogaram por terra a minha teoria, elas eram tão masculinizadas quanto eu, eram mais graciosas é claro, mas comparadas às mulheres do mundo dos homines... elas não eram nada femininas, não com o uniforme de combate da escola pelo menos. E era aí que minha contradição começava, odiava a parte de descontrole bestial sobre os meus instintos e poderes, mas amava o fato de que eles inibiam a minha insegurança com o meu corpo e com a minha aparência. Homines tinham a desvantagem de ter os instintos nublados ou adormecidos demais para serem usados, evoluíram muito, mas a civilidade ofuscou muito os instintos primordiais de sobrevivência, daí uma bagagem inútil substitui os instintos, insegurança, irracionalidade, medo… Como Maenad tinha vantagem em contar com os meus instintos, com parte deles, pois as curandeiras acreditavam que eu ainda estava sob influência da proteção do véu, isso explicava por que eu ainda era insegura, deprimida e opaca, mas quando aquela parte feral se agitava em mim e me fazia rosnar, grunhir e mostrar os dentes, eu me tornava outra coisa, talvez a persona que deveria ser o tempo todo, mas que ainda tinha medo de ser. E a verdade era que Ibrahim provocava essa minha parte de um jeito muito irritante, parecia um joguinho de cão e gato, pois era o instinto que fazia rosnar para ele e mostrar os dentes toda vez que me ordenava algo, fosse durante a detenção ou nas aulas de combate, a loba em mim se recusava a obedecê-lo, talvez, a parte indomável dele tivesse um desejo intenso de me dominar. Também era o instinto que fazia as minhas entranhas congelarem e se retorcerem quando conseguia processar todo o resto e deixar a raiva de lado, ou quando ela se mesclava tanto com outras coisas que era difícil discernir o que eu estava sentindo, na maior parte do tempo não sabia se queria rasgar a garganta dele ou beijar aquela boca arrogante, mas uma coisa descobri… agir com racionalidade perto do solariano havia se tornado outro desafio Hercúleo.  Passos suaves me tiraram do meu devaneio, cobri os olhos os protegendo do sol e o meu rosto se contorceu numa careta quando o vi, banhado daquela luz dourada, ele parecia um ser celestial, imponente e destemido, tão diferente da postura que vi nele aquela noite na floresta, chutei o pensamento para longe e me concentrei em observá-lo, ele era tão bonito que às vezes me fazia esquecer que era um desgraçado arrogante. O encarei com ódio quando percebi que ele sorria para mim, ciente do meu olhar em cima dele, grunhi, os seus olhos verdes brilharam em desafio e ele continuou caminhando na minha direção com um sorriso convencido no rosto, os passos agora graciosos e confiantes enquanto esmagavam o cascalho sob os pés, seguindo direto para onde eu estava parada no campo de treinamento — Princesa... — cumprimentou, sibilei. O seu sorriso arrogante alargou-se e Liam imediatamente se colocou ao meu lado, assim com Aina e Mei, e me surpreendi com a rapidez deles, era uma sincronia perfeita demais para criaturas que não haviam trocado uma palavra sequer, pelo menos não na minha frente, mas o que me deixou surpresa foi a atitude deles, o que diabos eles pensavam que eu iria fazer? Será que estavam com receio de que eu partisse o príncipe de Solarian ao meio?! Me concentrei em Ibrahim, tentando esquecer a cautela dos meus amigos, e tentei me esforçar para transparecer o máximo de compostura possível. — O que significa isso? — perguntei apontando a espada de madeira para o seu rosto. A turma inteira pareceu segurar o fôlego, só agora percebi que estavam me observando há algum tempo. Certo, eu era péssima em parecer composta em certas situações, o que havia acontecido com a minha insensibilidade com o mundo a volta? Acabara de descobrir que essa insensibilidade havia evaporado como fumaça. -Vossa alteza, a princesa havia dito que eu precisava treiná-las adequadamente… -Títulos eram proibidos de serem usados em Malefici, e realmente odiava o modo como Ibrahim citava o meu, era quase como se fosse vergonhoso ser da realeza. — É o que estou fazendo. -respondeu cinicamente afastando a espada com a ponta do dedo. — Com espadas de madeira? -perguntei incrédula e ignorando as suas mordidas, ele não ia me tirar do sério com tão pouco, me recusava a me deixar atingir dessa forma, mas não pude impedir a forma como a minha voz soou debochada diante do absurdo daquilo. -Após analisar cuidadosamente o grau de instrução da turma, julguei que esse instrumento seria o mais adequado. As palavras dele me abafaram, como se a sua voz fosse um espesso cobertor de lã, jogado por cima de mim. Pior, era como se eu tivesse sido atropelada por um trator. -Uma luva de seda seria mais ameaçadora. -Zombei acidamente. Liam pegou a espada da minha mão, provavelmente com receio de eu dar com ela na cabeça daquele i****a, mas uma olhada de relance me revelou que não havia espadas sobrando no cavalete. -Falta uma. -Não, não falta. -disse e me deu as costas. Odiava quando as pessoas me ignoravam, ou me tratavam com tamanha indiferença que me faziam sentir como um pedaço de cocô no meio do caminho, algo que elas deviam evitar e desviar. Ele despreocupadamente dedicou a sua atenção para o grupo de fêmeas que estava adiante no campo, elas ainda se mantinham distantes de mim, mas havia uma ou duas que me lançaram olhares assassinos, como se quisessem comer o meu coração e beber meu sangue, uma delas era a herdeira de Hibaernis, o meu rosto queimou de ódio. -Eu não tenho uma espada! -gritei para ele. Que ótimo, mais uma vez eu estava perdendo completamente o controle sobre minhas emoções. Ele parou e me lançou um olhar debochado por cima do ombro. — Não possui habilidade para portar uma. Um tapa não teria me afetado tanto. Ele havia usado as minhas palavras contra mim, tolamente, havia dito que as fêmeas não sabiam usar espadas, ele as tirou de nós quando deveria apenas avaliar e testar nossas habilidades para ver qual arma seria mais adequada, um guerreiro experiente poderia fazer isso, não é? Poderia, se quisesse. Mas o Príncipe Ibrahim de Solarian não queria isso, ele queria me transformar na vilã, na ovelha n***a, queria virar as outras contra mim, e devo dizer, ele nem precisava se esforçar, todas já me odiavam e me evitavam como se eu fosse uma maldição encarnada. No entanto, eu não era uma ovelha, nem mesmo quando era apenas uma bastarda vivendo de favor e da falsa generosidade dos outros, jamais havia me sentido como uma ovelha. A maioria me encarava com um misto de raiva, desprezo e desapontamento, elas estavam envergonhadas, eu havia provocado essa situação, elas eram orgulhosas, e foram humilhadas por minha causa. Trinquei os dentes, meu sangue esquentou, as sombras remexeram-se inquietas ao meu redor, como se estivessem eriçadas ou alarmadas, não sabia como interpretar aquela inquietação delas, mas elas pareciam não gostar muito de Ibrahim. — Deixe isso pra lá. -Liam disse em tom apaziguador. Aina e Mei olharam-me sem jeito e começaram a se afastar para praticar em dupla, qual o problema delas? Ninguém ia falar nada? Iam apenas obedecer cegamente quando estava claro que estávamos sendo subestimadas, mais do que isso, estávamos sendo ignoradas e negligenciadas! Ibrahim se posicionou no centro do campo e quando teve certeza que tinha a atenção de todas, começou a mostrar uma série de movimentos com a espada, algumas repetiam com uma expressão entediada, provavelmente as que sabiam o básico sobre como manejar uma lâmina longa, pois muitas delas treinavam em casa e apenas precisavam de aperfeiçoamento. E as que não tinham treinamento com espadas, possuíam outras habilidades, que de nada valiam se não fossem trabalhadas, já que havia sido deliberadamente excluída da prática, eu estava condenada a apenas observar. E rangendo os dentes, afastei-me do campo e me resignei a fazer isso. Observei com atenção, cada movimento que Ibrahim ensinava tinha foco em bloqueio e defesa, variados movimentos com a mesma finalidade, sem ataques, apenas bloqueio e esquiva. Por uma hora inteira ele ensinou, e quando as lutas em duplas começaram, a única mudança foi a ordem dos movimentos… Evasão, quando possível evite o confronto, senão… Esquive-se até cansar o inimigo, ao mesmo tempo em que procura uma fuga, e quando não tiver escolha… Bloqueio. Repetidas vezes, elas balançavam aqueles pedaços de madeira, nenhuma finta, nenhum corte, nenhuma estocada, nem mesmo entre as duplas que eu sabia serem experientes em combate. Nada. Eles não estavam nos ensinando. Percebi. Estavam apenas fingindo, não teríamos avanço nenhum nas matérias de combate, e pior de tudo… ninguém além de mim, parecia se importar, porquê? Observei tudo anestesiada, todos guardaram as espadas, meu olhar encontrou o de Liam, ele lançou-me um sorriso significante que implorava por um espetáculo de palavrões, socos e pontapés, soube imediatamente que ele sabia o que eu havia percebido. -Ansiosa para o nosso compromisso particular? Me virei e dei de cara com o sorriso brilhante de Ibrahim. Quando ele havia se aproximado de mim? -Aceitaria facilmente uma travessia de joelhos pelo inferno se isso me poupasse da sua desprezível presença. Ele deu risada, não uma risada aberta e divertida, mas uma risada pretensiosa e cheia de segredos obscuros, estreitei os olhos desconfiada. Ele parou de sorrir. -Se apresse. -Ordenou e começou a se afastar. Não me movi, as palavras eram como sal em feridas. Ciente da minha hesitação, ele parou e virou-se para trás com um olhar severo. -Não me ouviu? -Vá pro inferno. -Eu vou. -Ele sorriu sem mostrar os dentes, um maneio de cabeça em direção a floresta disse-me o suficiente. -E te levarei junto, talvez tenha a chance de fazer sua travessia, afinal. (...) Ainda estava ofegante quando entrei no quarto, a porta pesada bateu com um baque estrondoso, já era noite, Aina e Mei espiaram através do dossel e Amon que estava deitado no tapete ergueu a cabeça com as orelhas eriçadas. -Estamos irritadas? -Aina perguntou de bom humor, mas com um pouco de cautela. Não consegui responder, tirei as botas enlameadas, grunhi ao sentir que uma das bolhas nos meus pés havia estourado, segurei meu pé machucado possessa. Eu havia vomitado, aquele filho da p**a deixou-me tão completamente exaurida que me fez vomitar todo o almoço, subimos uma montanha numa corrida torturante, havia galhos no meu cabelo, as minhas botas estavam sujas de vômito, olhei para elas com repulsa, deveria ter deixado elas lá fora, chutei uma almofada e ela se chocou contra a parede e caiu aos pés de Lana, a gata se eriçou e pulou para o colo de Mei. -Qual o problema? -Aquele desgraçado! -rosnei e levantei-me andando em passos furiosos. -Vou rasgar aquela garganta odiosa e jogar o cadáver pútrido aos corvos para bicarem aqueles olhos arrogantes. -Pelos Deuses. -Mei ofegou. -Quem foi a pobre alma que mexeu nesse vespeiro venenoso? -Ibrahim. Aina respondeu mecanicamente. Fiz uma careta ao notar a frieza no seu timbre, a minha unha do polegar estava na carne, parei, estiquei as mãos a frente e percebi que todas as unhas estavam arruinadas, havia largado aquele hábito, mas ele retornou com força total, voltei a andar, puxei respirações profundas enquanto soprava fios de cabelo que escapavam da coroa elaboradamente trançada na minha cabeça, mas que agora estava arruinada. Eu devia estar com uma aparência lamentável. Minhas amigas me observavam ansiosas, ambas já haviam cumprido com a detenção imposta pela diretora, mas eu ainda estava cumprindo a minha e faltava mais um mês. Um mês de merda, parecia um purgatório, as sombras espiralaram ao meu redor como se concordassem, levei o dedo a boca, mãos firmes me fizeram parar, afastei-me imediatamente, no centro do quarto encarei os olhos escuros de Mei, foi mais um reflexo, ela recuou magoada, o canto dos seus lábios pequenos se repuxou como se tentando se recompor, a culpa me emudeceu, queria dizer que não foi de propósito, queria mentir e dizer que não queria que ela sentisse o mau cheiro, mas provavelmente era tarde demais para qualquer desculpa.. — O que houve? -perguntou novamente, mas mantendo distância, sabia por que ela estava preocupada. Mas não queria falar disso aqui, não na frente de Aina. -Eu o odeio. -disse amargamente num rosnado c***l. Deuses, eu estava rosnando? Qual era o meu problema? Havia deixado a natureza das Maenads subir à cabeça e tornei-me uma b***a selvagem? — Não vai vencê-lo no braço, sabia? -Aina zombou. Ela se colocou de pé com um salto gracioso. Suas mãos seguraram meus ombros sem hesitação, Mei estreitou os olhos, mas os olhos de Aina se cravaram em mim como garras de aço e não consegui desviar deles. -Terá que atingi-lo no seu ponto fraco. — Ele tem um? -perguntei sarcasticamente, pois para mim Ibrahim era uma montanha de músculos com um coração de pedra, inatingível. — Ele tem, só precisa descobrir qual é, e atacar. Disse despreocupadamente, a encarei, perplexa com o como as coisas pareciam fáceis para ela, Aina piscou, um cacho escapou do coque que tentava sem sucesso sustentar o cabelo volumoso, ela olhou através da nossa janela que dava para o oeste, para o campo de treinamento… e além dele, percebi. Encarei Amon, seus olhos se iluminaram, um sorriso vingativo se formou no meu rosto, e pelo olhar de Amondiel, soube que era pavoroso. -Iremos sair. -disse e me desenvencilhei de Aina, puxei uma toalha do armário e fui em direção a porta. -Hoje à noite. - Esclareci. Fui para o banheiro com uma ideia já se formando em minha mente. (...) Meus sentidos estavam mais aguçados, o olfato, a audição, mesmo a visão, Amon dizia que levava um tempo para se livrar dos resquícios do véu, ainda havia vestígios dele no meu corpo, portanto, ainda não estava com a capacidade total dos meus dons, mas estava definitivamente mais primitiva do que era quando cheguei, tudo que sentia, agora sentia mil vezes mais, tudo fora ampliado em níveis estratosféricos, perguntava-me se as emoções se enquadravam nisso. Porque o ódio que sentia não era nada humano. Senti Amon antes dele aparecer em meio aos arbustos que cercavam a janela da sala do comandante, ele esgueirou-se, completamente abaixado e continuei fitando as luzes amareladas que indicavam que Ibrahim ainda estava ali. Aquele fogo e escuridão agitaram-se dentro de mim, estalando como lenha seca e se contorcendo em minhas veias como um verme, movimentei o pescoço tentando puxar as rédeas daquele poder. -O que estamos fazendo? -Esperando. -Pelos Deuses, o que iremos fazer? -Irei mostrar a Ibrahim o que acontece quando se provoca uma loba. -Amon praguejou, mas continuou de tocaia debaixo dos arbustos e ao meu lado. Se alguém tivesse me dito, que a tediosa Kira, conseguiria invadir a sala de um professor no meio da noite para pregar uma peça, jamais acreditaria. No entanto, as coisas mudam de figura quando o professor é um desgraçado arrogante e c***l, que se diverte com tortura física e com a humilhação dos outros. Ele merecia. Era sobre isso que tentava me convencer ao saltar silenciosamente pela janela, fazia um tempinho desde que as luzes haviam se apagado. Com muito esforço convenci Amon a vigiar do lado de fora da janela, deixei as sombras alertas no corredor enquanto vasculhava a sala, elas eram úteis nessas situações, me perguntava o que mais poderia fazer com elas, concentrei-me na minha tarefa, mas nada que continha naquele lugar parecia-me útil na missão de atingir Ibrahim, a sala estava impecavelmente organizada, algumas espadas expostas na parede, um tapete com pele de um animal que parecia um urso, mas tinha chifres enrolados e estranhos como um bode das montanhas, ignorei aquilo e vasculhei as gavetas, mas elas não se abriram, não havia fechaduras, então, só poderiam estar enfeitiçadas, decidi não insistir, elas poderiam emitir algum alarme escandaloso, do tipo que apenas criaturas mágicas apreciavam. Olhei ao redor praguejando, eu fiquei mesmo de tocaia na terra e nos arbustos à toa? Já estava toda me coçando. Algo chamou a minha atenção, me virei para o canto perto da mesa, era como se o universo respondesse a minha pergunta, uma cortina de veludo vermelho escondia um dos cantos, franzi o cenho, lugar inusitado para uma cortina, olhei para cima e vi uma armação de bronze que a sustentava, fazendo com que funcionasse mais como um biombo, aquilo atiçou-me, aproximei-me e a abri, uma armadura brilhava intensamente exibindo um polimento impecável e refletindo o luar que entrava pela janela, era dourada, um pouco pretensioso, não? Não era muito exibicionismo usar uma armadura dourada e reluzente feito ouro em meio a uma batalha? Fala sério, com certeza havia ouro ali, aproximei-me estarrecida. Tudo bem que a armadura era requintada, havia um rubi vermelho feito sangue em cada manopla, admito que parecia eficaz, tinha algumas ranhuras, marcas de uso provavelmente, mas de forma geral, estava em ótimo estado, parecia realmente algo que Ibrahim usaria. Sorri, sacudi as mãos, afastei um pouco as pernas e concentrei-me para usar o último feitiço que Mei ensinou. -Levitetum. - disse e me senti ridícula. Pronunciar feitiços não era tão legal quanto imaginei que seria, como era inexperiente, ainda precisava invocar a magia e conduzi-la com palavras, mas as outras faziam feitiços apenas com um pensamento. Estendi a mão para a armadura, senti a minha têmpora latejar, as minhas sobrancelhas se franziram e tentei relaxar. Tentei não forçar a magia, relaxei os ombros, deixei fluir um pouco de poder, tão pouco, mas constante, sem cessar ou diminuir o fluxo, eu precisaria carregar a armadura para fora. O suor começou a escorrer por minha coluna conforme tentava conter o poder que queria se libertar, era cansativo deixar sair apenas o necessário. Demorou muito até conseguir algum resultado. Aos poucos a armadura se moveu, tentei não sorrir quando ela se ergueu totalmente do apoio que a sustentava, bati na janela três vezes, esse era o sinal para Amon ir ver se o caminho estava livre até o lago, fechei a cortina, Ibrahim teria uma surpresa agradável. Atravessei a armadura pela janela, caminhei furtivamente pelas sombras, tentei não pensar em como seria absurdo se alguém me visse caminhando pelo gramado à noite e sendo seguida por uma armadura flutuante. Apressei o passo, a maldita coisa refletia tudo me tornando um alvo fácil de ser avistado, e odiaria ter que me explicar a Sra. Walsh, que era dada a rondas tardias pela escola, depois de alguns minutos penosos cheguei ao lago, Amon já estava lá, atento a tudo à nossa volta. E eu estava banhada em suor, o feitiço não era difícil, controlar o meu poder é que era. — Tem certeza disso? — Perguntou quando parei na margem. Movi a armadura para que levitasse para longe, acima do lago, para um ponto que parecia mais profundo. — Ah se tenho. – Julguei que ali já estava bom. Grunhi ao fechar o punho e cessar o fluxo de magia, a armadura despencou como se os fios que a segurassem fossem cortados, até mesmo o barulho que fez ao se chocar com o lago foi exagerado, ela afundou imediatamente na água escura, assisti a tudo com um sorriso no rosto. Fiquei observando a superfície borbulhar até que senti algo se aproximando, rápido, rápido demais para ser notado, meu estômago embrulhou ao pensar que Snipheirs poderiam ter invadido o terreno da escola, mas quando me virei para ver o que era, Ibrahim surgiu e me agarrou pelo cabelo que deixei impudentemente preso num r**o de cavalo desleixado... eu congelei, meu corpo começou a tremer e a minha mente ficou vazia. — Onde está? -perguntou baixo, palavras tão baixas, mas perigosas, como uma fera silenciosa e letal. Amondiel rosnou, talvez estivesse sentindo o meu medo. -Solte. Meu. Cabelo. -Sussurrei, era para ser uma ordem, era mesmo. Mas soou como um ganido entrecortado, como se as palavras tropeçassem nos meus batimentos, meu coração batia tão rápido e tão alto que por um momento pensei que iria explodir, lembranças daquela noite invadiram a minha mente, as minhas respirações ficaram curtas e rápidas, senti o meu poder se debatendo dentro de mim, como se uma b***a furiosa estivesse enjaulada e prestes a rasgar a minha pele para sair, tentei pensar num motivo para contê-la. Nada, não havia nada. Então, Amon atacou. Cascalhos se espalharam, m*l senti quando o meu cabelo foi liberto, me virei rapidamente m*l conseguindo respirar, minha visão embaçada por medo e raiva e… Ibrahim estava ofegante, a respiração entrecortada, eu ainda tremia e diante do rosto pálido dele, havia braços, não braços, mas tentáculos translúcidos e negros, apontados como lâminas na sua garganta, ele engoliu em seco, o pomo de adão se moveu fazendo a pele raspar naquela superfície afiada, imediatamente a pele se abriu e fiquei observando o sangue escorrer da camada branca exposta. -Keira. -disse com a voz rouca e trêmula. Ele não se mexeu, eu não me mexi. -Keira, por favor. -suplicou. Franzi o cenho. Era eu, aquilo era eu, minhas sombras, elas o haviam atacado por mim quando fiquei com medo. Eu não sabia como controlá-las, não sabia como afastá-las dele e percebi tardiamente que não queria matá-lo, não mais, não agora. -Keira. -Sussurrou ele. Ainda imóvel, os olhos verdes cautelosos, e com… medo. Ele estava com medo de mim. — Por favor, não irei machucá-la… Aquilo estilhaçou algo em mim. Ele não estava com medo por que eu era poderosa e vingativa, ele estava com medo por que eu estava com ainda mais medo dele, e poder e medo, não é uma combinação segura, era perigosa, letal. Aquilo me atingiu de tal forma, mesmo me vingando, ficou claro que ainda tinha medo daquela noite, daqueles homens… Os tentáculos sumiram, percebi tardiamente que Amondiel havia mordido o ombro de Ibrahim, e encarava o caelendus dele com um ódio frio e mortal, o leão rugia em indignação, Amon o ignorou e me rodeou, o focinho gelado cutucou a lateral do meu pescoço, pisquei atordoada, estava de joelhos no chão, ainda tremendo. — Está tudo bem, está segura agora, não a tocarei, ficarei aqui. Foi um erro… eu não quis… -Não, não me tocará mesmo. -Sibilei ao me erguer me apoiando em Amon, era como se a presença dele me fortalecesse, meus joelhos pararam de tremer. - Por que se voltar a fazer isso, rasgarei sua garganta e assistirei enquanto o seu sangue maldito jorra até se transformar numa poça aos meus pés. Entendeu? -Rosnei. Ele parecia chocado, culpado, e com… pena. Me virei e saí dali antes que cumprisse com a minha palavra, fechei os punhos tentando conter o ímpeto de rasgá-lo em pedaços, as sombras resistiram, senti o desejo delas de morte, o desejo de matá-lo. Puxei com mais força, com medo por Ibrahim, meu peito queimou, a dor irradiou para o meu plexo solar e tropecei, Amondiel me amparou em braços humanos. -O que foi? - perguntou alarmado. -Não sei. -Respondi ofegante e me agarrando a ele. Me virei e vi Ibrahim parado onde estava, o rosto contorcido, ele parecia preocupado, estava preocupado comigo, um calor desconhecido aliviou a tensão no meu peito. Uma pontada lancinante de dor passou como um raio por minhas costas e fiquei mole, vi Ibrahim dar um passo em minha direção, meu coração se aqueceu e minha visão ficou turva quando outra onda de dor me fez soltar um gemido estrangulado. — Tem algo errado. -disse, percebi o medo em sua voz. Senti meu corpo ser içado, estava ciente do que estava ao meu redor e simultaneamente inconsciente, caí num vazio dolorido e quente, havia um par de olhos me encarando, olhos de um âmbar intenso, que me queimaram e me prenderam ali, na escuridão quente, mas que não era acolhedora, era furiosa e rancorosa, como se eu tivesse a ferido e não o contrário, mas de alguma forma absurda, era protetora.
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